Irã retoma atividade preocupante em centro de enriquecimento de Urânio, diz instituto
Imagens de satélite apuradas pelo think tank CSIS revelam aumento na atividade da chamada Pickaxe Mountain, um conhecido centro iraniano de assuntos nucleares, aos maiores níveis desde a sua construção

Imagens de satélite analisadas pelo think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS) apontam para um forte aumento da atividade de construção no complexo subterrâneo de Pickaxe Mountain — a Montanha da Picareta, em tradução literal para o português —, no Irã, próxima à instalação nuclear de Natanz.
Segundo uma análise publicada sobre a atividade, o local registrou, em 2026, o maior nível de movimentação rodoviária desde o início de sua construção.
A análise reúne seis anos de imagens de radar de abertura sintética (SAR, na sigla em inglês), imagens ópticas do satélite Sentinel-2 e imagens de altíssima resolução obtidas pelos satélites Airbus e Satellogic. O conjunto de dados indica que o complexo passou de uma fase de escavação para uma etapa de provável construção interna e de reforço das estruturas externas.
O aumento da atividade ocorre em meio a alegações de que o Irã teria transferido centrífugas de enriquecimento de urânio para a instalação. Segundo informações atribuídas à inteligência israelense, equipamentos e componentes teriam sido levados para Pickaxe Mountain no segundo semestre de 2025.
O CSIS, porém, sugere cautela e afirma que, a princípio, as imagens disponíveis não permitem confirmar nem descartar essa informação.
A atividade contínua de construção, a ausência de intensificação aparente da segurança interna e a falta de veículos e equipamentos não relacionados às obras sugerem que a instalação, no mínimo, ainda pode não estar preparada para realizar enriquecimento de urânio.
Uma montanha de especulações
Usina nuclear no Irã: país defende uso legítimo de tecnologia nuclear para fins civis, mas EUA barra qualquer tipo de enriquecimento de urânio (Getty Images/Getty Images)
A montanha, também conhecida pelo nome persa Kuh-e Kolang Gaz La, é um grande complexo de túneis localizado a cerca de 2 quilômetros ao sul da cidade de Natanz. O projeto começou a ganhar forma ainda em 2020, quando o então chefe do programa nuclear iraniano, Ali Akbar Salehi, anunciou a construção de uma instalação subterrânea para a montagem de centrífugas.
De qualquer forma, a localização e as características do complexo despertaram preocupação internacional. AAgência Internacional de Energia Atômica (AIEA) solicitou informações e acesso ao local, mas, segundo o CSIS, o Irã não teria respondido aos pedidos. Teerã também argumenta que imagens de satélite não são suficientes para determinar a função da instalação e defende a realização de uma inspeção presencial.
No âmbito da especulação, o CSIS identifica três possibilidades para o que o Irã estaria construindo em Pickaxe Mountain. A primeira seria uma instalação destinada à montagem de centrífugas, conforme anunciado em 2020.
A segunda seria a criação de uma estrutura também capaz de enriquecer urânio: nesse segundo cenário, o local poderia eventualmente ser utilizado para enriquecer o estoque iraniano de aproximadamente 440 quilos de urânio enriquecido a 60% para níveis próximos aos necessários para armas nucleares.
Uma terceira possibilidade seria a transferência para o complexo de pesquisas e atividades relacionadas a armas nucleares, incluindo processos de metalurgia e de conversão química.
A análise de imagens identifica três fases distintas na evolução do complexo. Entre 2020 e abril de 2024, houve intensa construção e expansão iniciais. Entre abril de 2024 e janeiro de 2026, a atividade se tornou mais estável, com relativamente poucas mudanças detectadas, embora obras tenham sido observadas no fim de 2025.
A partir de janeiro de 2026, porém, o padrão mudou significativamente. O CSIS detectou forte utilização simultânea das estradas internas e um aumento no número de estruturas reforçadas nas proximidades das entradas dos túneis.
Para os pesquisadores, essa terceira fase representa o maior nível de atividade desse tipo desde o início da construção e indica uma maior utilização do local, mais do que uma nova rodada de escavações.
Imagens de alta resolução obtidas em julho e agosto reforçam essa avaliação. Elas mostram novas superfícies de concreto nas estradas e nos acessos externos, o reforço das entradas dos túneis e a redução dos montes de terra retirados durante a escavação. O conjunto dos sinais é compatível com a transição para a construção interna da instalação, embora o reforço de alguns acessos ainda esteja em andamento.
Fortificação
Construção de reator nuclear no Irã: complexos se estendem no subsolo, complicando intervenções militares (Getty Images)
A profundidade do complexo é outro fator que dificulta uma eventual operação militar. Estimativas de fontes abertas colocam a instalação entre 80 e 100 metros abaixo da superfície, embora o CSIS ressalte que imagens de satélite não permitem determinar com precisão a profundidade ou o desenho dos túneis.
Mesmo as maiores bombas convencionais norte-americanas teriam limitações diante de uma estrutura desse tipo. A GBU-57 Massive Ordnance Penetrator, principal bomba antibunker dos Estados Unidos, pesa cerca de 30 mil libras e possui uma ogiva de aproximadamente 5 mil libras, com capacidade estimada de penetração de até 60 metros antes da detonação.
A experiência de Fordow, outra instalação nuclear subterrânea iraniana, evidencia tanto o potencial quanto as limitações dessas armas. Durante a Operação Midnight Hammer, em junho de 2025, os Estados Unidos lançaram 12 bombas GBU-57 contra o complexo. O ataque abriu seis crateras em um poço de ventilação, permitindo direcionar as explosões para uma área mais profunda da instalação.
No caso de Pickaxe Mountain, entretanto, não está claro se há vulnerabilidades semelhantes. O CSIS avalia que uma eventual ofensiva poderia priorizar as entradas dos túneis e tentar bloquear ou colapsar os acessos, em vez de destruir diretamente as estruturas subterrâneas. Ainda assim, a eficácia de uma operação desse tipo dependeria de informações precisas sobre o interior do complexo.
A dificuldade em alcançar Pickaxe Mountain agrava o dilema estratégico de Washington. Mesmo que uma ofensiva consiga danificar ou interromper temporariamente as atividades da instalação, o CSIS considera que a destruição completa do complexo seria um desafio científico e militar que exigiria inteligência de alta qualidade e modelos sofisticados para identificar os pontos vulneráveis.
Para os pesquisadores Joseph Rodgers, Douglas Comstock e Joseph S. Bermudez Jr., a questão também evidencia um problema maior para a estratégia americana diante do programa nuclear iraniano. O país possui outras instalações subterrâneas que poderiam permanecer difíceis de atingir mesmo após ataques a Pickaxe Mountain.
O estudo conclui que, embora a atividade observada em 2026 seja significativa, as imagens não comprovam que o Irã esteja atualmente enriquecendo urânio em Pickaxe Mountain. Diante do ritmo das obras, os indícios disponíveis dão motivos para questionar essa hipótese no momento.
Ainda assim, a existência de estruturas nucleares subterrâneas representa um desafio de longo prazo. Mesmo que os Estados Unidos consigam inutilizar Pickaxe Mountain, o CSIS avalia que isso provavelmente não eliminaria as ambições nucleares de Teerã. Para os pesquisadores, ataques militares repetidos seriam uma estratégia difícil de sustentar, tornando uma solução diplomática verificável o caminho mais duradouro para limitar o programa nuclear iraniano.
