Itália suspende acordo de livre circulação com Espanha após crise migratória em Ceuta
O governo de Giorgia Meloni também reforçou o controle na fronteira terrestre com a França

A Itália determinou nesta sexta-feira, 31, o fechamento temporário de suas fronteiras aéreas e marítimas com a Espanha, suspendendo os acordos de livre circulação (Espaço Schengen) entre os dois países. A decisão foi anunciada pelo Ministério do Interior italiano após uma reunião do Comitê de Análise de Imigração e Segurança de Fronteiras.
O governo de Giorgia Melonitambém reforçou o controle na fronteira terrestre com a França. A medida foi alinhada em conversa telefônica entre o ministro do Interior italiano, Matteo Piantedosi, e seu colega francês, Laurent Nuñez. As autoridades não detalharam os dados de inteligência que motivaram a ação, classificando apenas como uma medida preventiva.
Crise migrátoria em Ceuta
A resposta italiana foi motivada por uma crise migratória em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Quase 60 mil pessoas entraram na cidade por mar e por terra vindas de Marrocos em poucos dias, a maioria homens jovens e adolescentes, que atravessaram a nado ou saltaram as cercas de fronteira.
A Espanha classificou o episódio como um "ataque à integridade territorial". Ao menos 34 pessoas morreram na tentativa de chegar ao enclave, segundo o governo local.
Ceuta, cidade autônoma de cerca de 84 mil habitantes, vive uma de suas piores crises migratórias dos últimos anos. O governo espanhol informou que a maior parte das pessoas que haviam cruzado a fronteira já retornou a Marrocos, voluntariamente ou não.
Comércios na região fecharam as portas, com a confederação empresarial local recomendando manter a paralisação até que a segurança esteja garantida. Moradores protestaram em frente à Prefeitura sob o lema "Ceuta unida jamais será vencida".
Reação europeia dividida
A crise expôs divergências dentro da União Europeia. Além da Itália, Finlândia e Dinamarca defenderam a suspensão da Espanha do Espaço Schengen, proposta que juristas consultados consideram inaplicável dentro do marco legal vigente. "Estamos preparados para agir, inclusive com medidas técnicas como a suspensão da Espanha do Espaço Schengen", disse a premiê italiana Giorgia Meloni.
Já a França manifestou apoio a Madri. O presidente Emmanuel Macron expressou solidariedade, e o ministro do Interior Laurent Nuñez anunciou que o efetivo de policiais e gendarmes na fronteira franco-espanhola seria quintuplicado no sábado.
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump chamou as imagens da crise de "terríveis" e as associou, em entrevista à Fox News, às eleições legislativas de meio de mandato de novembro.
Governo espanhol sob pressão
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, viajou a Ceuta nesta sexta-feira e classificou o episódio como um "ataque à integridade territorial", atribuindo a responsabilidade a máfias de tráfico de pessoas.
Em resposta às críticas de parceiros europeus, afirmou nas redes sociais que "não é o momento para divisões" e lembrou que há outros pontos da União Europeia com entrada irregular de imigrantes.
Já o presidente da cidade autônoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas, classificou a resposta do governo central como "tardia e insuficiente".
Contexto
A onda migratória remete a maio de 2021, quando mais de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira em apenas dois dias, após Rabat flexibilizar os controles em meio a uma disputa diplomática com a Espanha. A atual crise ocorre poucos dias depois de Sánchez visitar a Argélia, em 20 de julho, a primeira viagem de um premiê espanhol ao país em quatro anos, após um período de desgaste diplomático entre Madri e Rabat.
O Espaço Schengen é a área de livre circulação da Europa em que cidadãos podem viajar entre os países participantes sem passar por controles sistemáticos de fronteira.
*Com AFP
