Itaú: IA deixou de ser tese e virou força que influencia inflação, juros e crescimento

Por muito tempo, a tecnologia foi tratada pelos investidores como uma tese setorial, restrita às empresas do Vale do Silício e aos especialistas em ações de crescimento. Agora, esse cenário mudou. Na avaliação de estrategistas do Itaú, a inteligência artificial passou a exercer influência direta sobre a economia global, a ponto de se tornar uma variável macroeconômica relevante para decisões de investimento.
"Entender tecnologia não é mais uma opção. Não é mais algo restrito a stock picker. Você prefere Alphabet ou Meta? Não é isso. É um tema macro", afirmou Thomas Wu, estrategista-chefe do Itaú Unibanco.
A mudança ocorre porque a corrida pela inteligência artificial está impulsionando um ciclo bilionário de investimentos em infraestrutura, com efeitos sobre crescimento econômico, inflação, juros e fluxo global de capitais.
A nova força que impulsiona a economia
Segundo os especialistas, a economia global hoje é influenciada por duas grandes forças. De um lado, as tensões geopolíticas e os conflitos internacionais, que pressionam os preços da energia e elevam os riscos para a atividade econômica. Do outro, a expansão dos investimentos ligados à inteligência artificial.
Para Carolina Sato, estrategista de investimentos do Itaú, a construção de data centers e a crescente demanda por chips, memórias e equipamentos tecnológicos criam uma pressão adicional sobre a economia. "O que mexe bastante no cenário econômico é a parte do ciclo de investimento, o Capex da parte de tecnologia e inteligência artificial", afirmou.
Na avaliação da executiva, esse movimento possui um efeito duplo. Ao mesmo tempo em que impulsiona o crescimento por meio de investimentos públicos e privados, também contribui para pressões inflacionárias, uma vez que aumenta a demanda por commodities, energia, componentes eletrônicos e infraestrutura.
Big techs já investem mais que a indústria global de petróleo
O tamanho dos investimentos ajuda a explicar por que a inteligência artificial passou a ser acompanhada também por economistas e gestores macro. Segundo Wu, apenas as cinco maiores empresas americanas de tecnologia listadas no S&P 500 (Oracle, Alphabet, Microsoft, Meta e Amazon) devem investir cerca de US$ 700 bilhões neste ano em expansão de capacidade e infraestrutura ligada à IA.
No último ano, por exemplo, esse número foi entre US$ 300 bilhões e US$ 400 bilhõs. Para efeito de comparação, ele destacou que esse volume supera os investimentos globais anuais na exploração de petróleo, na casa dos US$ 400 bilhões e US$ 600 bilhões.
Por que o Itaú segue otimista com ações americanas
A força desse ciclo de investimentos ajuda a explicar a preferência do Itaú Unibanco pela bolsa americana, mesmo em um ambiente de juros elevados e incertezas geopolíticas.
A instituição mantém uma posição acima do neutro em renda variável global, especialmente nos Estados Unidos, justamente por enxergar nas empresas ligadas à inteligência artificial um motor de crescimento capaz de sustentar resultados corporativos robustos.
"Essas empresas de IA, se você ver os resultados, realmente tem alguma coisa diferente vindo de lá”, diz Wu.
Enquanto o banco mantém cautela com os títulos públicos americanos de longo prazo, diante dos riscos inflacionários e da perspectiva de juros elevados por mais tempo, a visão para a renda variável continua positiva graças ao avanço da inteligência artificial.
Ainda é o início da revolução
Apesar da forte valorização das empresas ligadas ao setor, a avaliação dos especialistas é que a tecnologia ainda está longe de atingir seu potencial máximo.
Wu comparou o momento atual da inteligência artificial ao período anterior à popularização do 4G. Quando os smartphones surgiram, já era possível perceber seu potencial transformador, mas os principais ganhos de produtividade só apareceram anos depois, com o avanço da infraestrutura de conectividade.
"Eu não acho que a gente chegou no momento 4G da IA", diz. Na visão dele, o mercado ainda está descobrindo quais serão as aplicações capazes de transformar profundamente a produtividade das empresas e da economia.
Os três círculos da inteligência artificial
Os especialistas também destacam que os benefícios da expansão da IA não ficam concentrados apenas nos Estados Unidos. Segundo Wu, a cadeia global da inteligência artificial pode ser dividida em três grandes grupos.
No primeiro círculo estão as empresas que desenvolvem os modelos e constroem os data centers, concentradas principalmente nos Estados Unidos.
O segundo círculo reúne os fabricantes dos componentes essenciais para essa infraestrutura, como chips, memórias e equipamentos avançados. Nesse grupo se destacam países como Taiwan, Coreia do Sul e Holanda.
Já o terceiro círculo é formado pelos fornecedores de matérias-primas, energia e insumos necessários para toda a cadeia produtiva. "E o Brasil está no terceiro círculo", afirmou.
Para o estrategista, o país possui vantagens competitivas relevantes, especialmente pela abundância de energia, um dos principais insumos para a operação de data centers e para a expansão da infraestrutura digital.
A avaliação é que, em momentos de menor aversão ao risco global, investidores tendem a buscar exposição não apenas às gigantes americanas de tecnologia, mas também aos países que participam dessa cadeia produtiva. Nesse contexto, o Brasil pode ser um dos beneficiados pela expansão dos investimentos ligados à inteligência artificial.
