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InvestMercadosACS
05/08/2026
6 min

Itaú vê eleição polarizada e espera volatilidade, mas sem movimento 'desproporcional', diz CEO

Apesar do resultado sólido no 2º trimestre, o CEO, Milton Maluhy Filho, aponta desafios com juros globais, inflação e ambiente político

Itaú vê eleição polarizada e espera volatilidade, mas sem movimento 'desproporcional', diz CEO

O Itaú Unibanco (ITUB4) encerrou o 2° trimestre de 2026 com um resultado robusto, mas adotou um tom de cautela ao comentar os próximos meses. Durante coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira, 5, após a divulgação do balanço, o CEO, Milton Maluhy Filho, afirmou que o banco acompanha com atenção o cenário internacional, a trajetória fiscal brasileira e os possíveis impactos do processo eleitoral sobre os mercados.

Ao comentar as eleições de 2026, o executivo minimizou a possibilidade de grandes rupturas no mercado, mas reconheceu que o ambiente político deve trazer algum aumento da volatilidade. Segundo Maluhy, a polarização apontada pelas pesquisas deve manter os investidores atentos à comunicação dos candidatos e às propostas econômicas apresentadas durante a campanha.

"Eleições tem a cada quatro anos, e já estamos razoavelmente acostumado, em 101 anos de história, a conviver com esse processo importante da democracia. É mais uma eleição", afirmou.

"As pesquisas têm saído todos os dias, todo dia tem uma atualização, claramente mostra um cenário eleitoral polarizado, como imaginavámos, mas ainda com muitas discussões nos próximos meses. Volatilidade pode sim acontecer. Os mercados vão antecipar resultado mais para frente. Eu acho que alguma volatilidade sempre pode ter, mas não estamos vendo nenhuma volatilidade desproporcional", afirmou.

Debate fiscal deve migrar para déficit nominal

Na avaliação do executivo, um dos principais fatores para o comportamento dos ativos brasileiros nos próximos meses será a trajetória fiscal. Maluhy defendeu uma mudança no foco do debate econômico, com maior atenção ao déficit nominal, que considera o impacto dos juros sobre a dívida, em vez da discussão restrita ao resultado primário.

"Devemos começar a falar mais de déficit nominal e falar menos de déficit ou superávit primário, porque dado o tamanho da dívida e o nível de juros, temos que começar a acompanhar mais de perto o déficit nominal, trajetória de curva e trajetória de juros", afirmou.

Segundo o CEO do Itaú, a percepção de risco fiscal pode pressionar as taxas longas de juros, afetando diretamente empresas e consumidores. "Às vezes o juro curto cai, mas se existe uma insegurança, uma incerteza e o prêmio de risco aumenta, as taxas de juros longas aumentam. Isso é onde os clientes se financiam. O cliente não se financia no CDI diário".

O CEO também reforçou que a agenda social e a agenda fiscal precisam caminhar juntas. "Tão importante quanto o social é o fiscal, porque se o fiscal anda desordenado, traz mais inflação e afeta não só a capacidade do governo de investir no social, mas também gera inflação e reduz o poder de compra das famílias", disse na coletiva.

Banco mantém cautela na concessão de crédito

A postura mais seletiva também aparece na estratégia de crédito do Itaú. Apesar do crescimento da carteira, que chegou a R$ 1,5 trilhão ao final de junho, o banco afirmou que tem priorizado clientes mais resilientes e produtos considerados mais seguros, como o consignado privado.

Maluhy afirmou que o cenário exige disciplina na concessão, inclusive com decisões de não ampliar determinadas operações quando hárisco elevado de comprometimento da renda do cliente. "Às vezes, a melhor decisão é não dar o crédito para o cliente, que já está com um nível de comprometimento de renda muito alto e que certamente vai ter desafios no curto prazo", afirmou.

Segundo o CEO, o banco vem reduzindo a oferta de algumas modalidades e direcionando clientes para alternativas com menor risco. "Vimos uma migração, levando clientes para o produto mais competitivo que tem, que é o consignado CLT, o consignado privado. Temos, de fato, reduzido e feito essa troca saudável de reduzir a oferta para esse público do crediário", disse.

A cautela ocorre mesmo com trimestres seguidos de crescimento. O Itaú registrou lucro recorrente gerencial de R$ 24 bilhões no primeiro semestre, alta de 10,3% na comparação anual, com Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) de 22,8%.

No segundo trimestre, o lucro líquido contábil alcançou R$ 12,4 bilhões, ante R$ 11,4 bilhões um ano antes. O indicador de rentabilidade do banco, foi de 23,3% a 24,3% em 12 meses. A margem financeira do banco somou R$ 33,5 bilhões no período, com ganho anual de 5,2% e de 3,6% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

Itaú rejeita responsabilização de bancos no caso Americanas

Durante a coletiva, Maluhy também comentou a retomada das discussões judiciais envolvendo o caso Americanas e questionamentos sobre a responsabilidade de instituições financeiras na fraude que levou a companhia à recuperação judicial.

Em julho, a Justiça autorizou busca e apreensão contra executivos de bancos no âmbito das investigações de fraude das Americanas, apontando indícios de que os bancos Itaú e Santander atuaram possivelmente de forma coordenada para ocultar operações financeiras realizadas pela varejista. A decisão, divulgada pelo UOL, permitiu a ação da Polícia Federal na segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada no dia 25 de junho.

"O caso da Americanas é um caso bem emblemático. Todos os demais no entorno são vítimas de uma fraude gigantesca. O sistema financeiro como um todo teve perdas bilionárias no caso", afirmou o CEO.

Questionado sobre a alegação de que os bancos teriam obtido receitas durante o período em que financiaram operações da companhia, Maluhy afirmou que, considerando ganhos e perdas, o resultado para o sistema financeiro foi negativo.

"É importante pontuar que o sistema financeiro como um todo teve perdas bilionárias no caso. Como é que os bancos podem ser conivente de uma fraude em que os bancos perdem dinheiro? É ilógico imaginar que você acaba sendo mais uma vítima relevante da fraude, possa ter participado de uma fraude que você perde bilhões de reais", disse.

O CEO afirmou ainda que as instituições financeiras não tinham conhecimento da ocultação de passivos pela companhia e rejeitou qualquer tentativa de atribuir aos bancos participação na fraude.

"O que se discutia na época, a empresa discutia com o sistema, era se ela classificava suas operações entre endividamento bancário ou endividamento de fornecedor. Ninguém imaginava no sistema que eles estavam ocultando o passivo", afirmou.

"A carta de circularização é apenas um apoio para o auditor, mas a responsabilidade pela contabilidade é da companhia. Então, no fundo, é a tentativa de construir uma fraude sem precedente e envolver outras instituições em algo que cabe exclusivamente à companhia", concluiu.

AutorClara Assunção
FonteExame
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