Join4 aumenta receita em 155,9% e aposta em produtos próprios
Empresa aposta em três soluções próprias para estruturar processos, criar agentes de IA e acompanhar operações

Mais de oito em cada dez projetos de inteligência artificial fracassam, segundo estimativas da RAND Corporation. Muitas das causas desse insucesso aparecem antes mesmo da escolha da tecnologia: empresas tentam resolver o problema errado, não têm os dados necessários ou apostam na novidade sem avaliar se ela atende às necessidades da operação.
A dificuldade abriu espaço para um negócio criado em Bauru, no interior paulista. Fundada em 2021, a Join4 entra em empresas para entender como o trabalho acontece, localizar gargalos e só então definir qual tecnologia pode melhorar a operação.
Em alguns casos, a resposta é inteligência artificial. Em outros, uma ferramenta mais simples ou o melhor aproveitamento de um sistema que o cliente já contratou.
A proposta ganhou escala. A receita operacional líquida da consultoria avançou 155,9% em 2025 em relação a 2024. O desempenho colocou a Join4 no Ranking EXAME Negócios em Expansão 2026. Foi o segundo ano consecutivo da companhia no prêmio.
Agora, ao completar cinco anos, a empresa tenta transformar o conhecimento acumulado nos projetos em uma nova fonte de crescimento. A Join4 está reunindo três tecnologias próprias em um ecossistema que estrutura processos, organiza informações e permite criar agentes de IA. A frente de produtos não substitui a consultoria, mas amplia a entrega.
Por que os projetos de IA fracassam
Processo é uma palavra abstrata até que alguém precise pedir o reembolso de um almoço. A tarefa parece simples: enviar a nota, obter a aprovação e receber o dinheiro. Para automatizá-la, porém, a empresa precisa definir uma série de regras e etapas. Sem isso, a tecnologia recebe uma tarefa que nem a própria organização sabe explicar.
“A IA é como se fosse um funcionário novo”, afirma Murilo Dias, fundador e CEO da Join4. “Se você não tem processos e políticas bem definidos para ensiná-lo, como ela vai executar?”
O raciocínio ajuda a entender por que a pressão para ser uma empresa “AI first” pode produzir projetos caros e frustrantes. Um estudo da Gartner constatou que, em média, somente 48% das iniciativas de IA chegam à produção. A consultoria prevê que, até o fim de 2026, 60% dos projetos sem dados preparados para IA serão abandonados.
Na Join4, o trabalho começa com um diagnóstico. A equipe reconstrói a jornada, identifica as pessoas, regras, ferramentas e prazos envolvidos e procura a origem do problema. Uma demora atribuída a um sistema pode ter começado em uma informação incompleta na etapa anterior. Uma empresa disposta a comprar outra plataforma pode descobrir que já paga por uma ferramenta capaz de resolver a demanda.
Depois, o projeto é dividido em entregas menores. A cada etapa, o cliente mede o resultado e pode corrigir a rota antes de comprometer todo o investimento.
“Nada é mais frustrante para uma empresa do que tentar adotar uma tecnologia e fracassar”, diz Dias. “A chance de ela investir novamente em um projeto desse tipo fica muito baixa.”
Como o conhecimento virou tecnologia própria
A empresa calcula ter acumulado mais de 200 mil horas de trabalho em projetos relacionados a processos. A repetição de alguns problemas mostrou à equipe onde faltavam ferramentas e deu origem aos produtos próprios.
A ArkIA transforma reuniões e documentos em mapas de processos, reúne as regras da operação e administra aprovações e atualizações. A KardIA orquestra agentes de IA e integrações com outros sistemas, com acompanhamento do que foi executado. A LuxIA consolida o andamento da operação, os indicadores e as informações de que os gestores precisam para tomar decisões.

As três soluções podem funcionar separadamente, mas foram desenhadas como partes de uma mesma jornada. Primeiro, a empresa documenta como a operação deveria funcionar. Depois, identifica o que pode ser automatizado e cria os agentes. Por fim, acompanha prazos, desvios e resultados.
Esse desenho procura evitar dois extremos: comprar uma tecnologia sem saber onde aplicá-la ou redesenhar toda a operação em torno de uma ferramenta. A Join4 se apresenta como uma consultoria agnóstica, capaz de trabalhar com os sistemas que o cliente já possui. Os produtos entram como mais uma possibilidade, e não como resposta obrigatória.
O próximo ciclo de crescimento da Join4
A consultoria atende principalmente empresas de médio e grande porte. Saúde é uma das verticais mais relevantes, ao lado de áreas administrativas e centros de serviços compartilhados – estruturas que concentram atividades como finanças, recursos humanos e compras de diferentes unidades de um grupo.
Dias atribui a expansão da receita à especialização nesses ambientes e às indicações entre clientes. Segundo ele, a companhia foi criada por profissionais acostumados à execução de projetos, o que levou o negócio a priorizar a entrega antes de estruturar uma frente comercial mais ampla.
A empresa também procura aproximar sua remuneração do resultado. Em uma das modalidades, estabelece com o cliente uma meta para um ciclo de seis meses, cobra um valor mensal e recebe uma parcela adicional se o objetivo combinado for alcançado. O modelo coloca parte do risco do projeto na própria consultoria.
Com os produtos, a Join4 pretende ganhar escala sem abandonar o diagnóstico que sustenta seu crescimento. O desafio será provar que o método pode ser replicado sem transformar a empresa em uma vendedora de licenças.
Para Dias, a resposta continua na mesma pergunta feita antes de cada projeto: qual problema precisa ser resolvido e qual é a ferramenta realmente necessária para isso?
