JP Morgan vê guinada à direita na América Latina e novas teses de investimento

A sequência de eleições presidenciais realizadas na América Latina neste ano consolidou uma inflexão política à direita na região e abriu espaço para novas teses de investimento, segundo o JP Morgan. Em relatório, recém-divulgado, o banco estadunidense afirma que a mudança no cenário político pode criar oportunidades em setores como energia na Colômbia, mineração no Peru e renda fixa no Brasil, embora ressalte que a capacidade de execução dos novos governos ainda seja a principal incógnita.
Na visão dos estrategistas, o chamado "superciclo eleitoral" confirmou uma tendência que já vinha sendo desenhada desde 2025. "Em conjunto, 2026 confirmou a direção política da região, mas deixa em aberto a questão sobre a solidez dessa mudança", afirmam as analistas Nur Cristiani e Mary Sagurima.
O relatório sustenta a tese de que a América Latina passa por uma "inflexão à direita", após sete eleições presidenciais consecutivas levarem candidatos de centro-direita ao poder. Peru e Colômbia, que realizaram eleições em junho, foram os casos mais recentes, enquanto o Brasil permanece como a principal eleição ainda em aberto.
Para o JPMorgan, mais do que uma coincidência eleitoral, o movimento representa uma convergência de agendas. "O que une essa tendência não é apenas o momento em que ocorreu, mas também seu conteúdo", dzem as estrategistas.
Segundo o banco, as campanhas vencedoras tiveram como pilares "ordem em primeiro lugar, mercados em seguida e maior proximidade com Washington", refletindo preocupações dos eleitores com segurança pública e crescimento econômico.
"Trumpificação" da região
O JP Morgan classifica esse movimento como uma "trumpificação" do hemisfério, argumentando que o contexto geopolítico passou a ser fortemente influenciado pelos Estados Unidos.
"O cenário foi definido em Washington, não em Lima nem em Bogotá", afirma o relatório. Na avaliação do banco, a retomada da Doutrina Monroe e o maior protagonismo norte-americano em temas como migração, combate às drogas, influência chinesa e Venezuela ajudaram a moldar o ambiente político das eleições latino-americanas.
A instituição financeira acrescenta que muitos candidatos fizeram campanhas inspiradas no modelo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, combinando discurso de endurecimento na segurança pública com pautas pró-mercado e maior alinhamento aos Estados Unidos.
Apesar da mudança política, o banco alerta que os novos governos chegam ao poder com mandatos frágeis. "A pergunta já não é se a centro-direita continuará vencendo eleições, mas se, desta vez, será diferente", dizem os analistas. "Até agora, a resposta é complexa por causa da fragilidade dos mandatos."
Peru: aposta na mineração
Entre as oportunidades de investimento, o JP Morgan destaca o Peru. O banco afirma que o país reúne um cenário macroeconômico considerado histórico, impulsionado pelos elevados preços das commodities e pelo forte desempenho das exportações.
Os estrategistas ressaltam que os termos de troca atingiram o maior nível desde 1950, enquanto o superávit comercial alcançou US$ 34,6 bilhões em 2025. Na avaliação do banco, o principal desafio não está na demanda por cobre, mas na oferta. "O problema não são os preços, mas os atrasos na concessão de licenças e os conflitos sociais".
Para o JP Morgan, caso o novo governo consiga avançar em medidas que reduzam os conflitos nas regiões mineradoras, grandes projetos de cobre atualmente paralisados poderão destravar investimentos e ampliar a produção.Colômbia: energia é a principal tese
Na Colômbia, o banco estadunidense vê o setor de energia como a oportunidade mais imediata para os mercados. A expectativa é de retomada dos investimentos em petróleo e gás, após anos de paralisação na concessão de novos contratos de exploração.
A instituição destaca que a reabertura do setor depende menos do Congresso do que outras propostas econômicas do novo governo. Os analistas avaliam ainda que uma eventual aproximação entre Colômbia, Venezuela e Estados Unidos poderá acelerar investimentos na indústria energética.
"A reprecificação aparecerá primeiro nos prêmios de risco, muito antes de qualquer aumento da produção", diz o banco.
Brasil: juros permanecem como principal oportunidade
No caso brasileiro, o JP Morgan considera que a eleição presidencial, que ocorrerá em outubro, é o principal evento pendente do ciclo político regional, mas avalia que a política monetária deverá permanecer relativamente protegida, independentemente do resultado das urnas."Independentemente do resultado, o mandato do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, vai até dezembro de 2028, protegendo a política monetária", afirma o relatório.
Na visão do banco, o mercado ainda precifica umciclo de queda de juros inferior ao potencial."O Brasil continua entre os mercados emergentes com maior espaço para reduzir os juros: os preços de mercado precificam aproximadamente 100 pontos-base de cortes, mas há argumentos sólidos para o dobro disso".
Apesar de enxergar oportunidades de investimento decorrentes da mudança política na região, o JP Morgan afirma que o principal teste para os próximos meses será a capacidade dos novos governos de transformar promessas eleitorais em políticas públicas.
"Em suma, 2026 confirmou a direção da mudança, mas deixou em aberto a durabilidade desse movimento — e é nessa lacuna que agora se concentram as oportunidades e os riscos", afirmaram as estrategistas.
