'Juros altos fazem franqueados pisarem no freio', diz CEO da Chiquinho Sorvetes

Há um novo concorrente disputando espaço com as franquias brasileiras. Ele não vende hambúrguer, sorvete nem café. Também não exige funcionários, aluguel ou dor de cabeça com a operação. Em compensação, paga cerca de 15% ao ano.
Por muitos anos, convencer um empreendedor a abrir uma franquia significava apresentar projeções de crescimento, faturamento e retorno. Agora, antes mesmo de analisar um ponto comercial, muitos fazem outra conta: quanto o banco está pagando para deixar o dinheiro parado.
Esse movimento já começou a aparecer dentro da Chiquinho Sorvetes. Com mais de 1.040 unidades no país, a rede de sorvetes percebe investidores mais cautelosos diante dos juros elevados. A empresa deve abrir cerca de 120 lojas em 2026, abaixo das aproximadamente 146 inauguradas no ano passado, embora já tenha outras 90 unidades comercializadas aguardando implantação.
"O juro está arrebentando. Tem franqueado que já vinha ampliando a operação e agora fala: 'vou esperar'. O banco está pagando 15%, 16%. Às vezes vale mais a pena deixar o dinheiro aplicado e aguardar um ambiente melhor de negócios", afirma Isaías Bernardes de Oliveira, fundador e presidente do Grupo CHQ, controlador da Chiquinho Sorvetes.
Mesmo com um cenário mais desafiador, a expectativa da companhia é crescer cerca de 10% em faturamento neste ano. Em 2025, a expansão foi de aproximadamente 15%. Para Oliveira, manter um crescimento de dois dígitos já será um bom resultado em um mercado mais cauteloso.
Se os novos investidores estão demorando mais para tomar decisões, a Chiquinho encontrou outro motor para continuar crescendo: os próprios franqueados.
Hoje, cerca de 55% das novas unidades vendidas são compradas por empresários que já fazem parte da rede. Muitos operam duas, três ou dezenas de lojas.
"A rede que não cresce dentro da própria rede não é um bom sinal. Significa que o franqueado não está sendo bem-sucedido e não quer abrir uma segunda ou terceira unidade", afirma Oliveira.
A empresa já possui operadores com dezenas de unidades. Umfranqueado do Pará administra cerca de 27 lojas. Em São Paulo, outro empresário chegou a aproximadamente 20 unidades comprando operações de baixo desempenho e recuperando rapidamente seus resultados, segundo a companhia.
Menos custo, mais eficiência
Além da expansão, a Chiquinho aproveitou a ABF Franchising Expo para apresentar iniciativas voltadas à eficiência operacional.
Uma delas é a implantação dos totens de autoatendimento, que começam a ser instalados nas lojas para reduzir filas e agilizar o atendimento. Outra é a Cidade Chiquinho, novo complexo administrativo em São José do Rio Preto, cuja primeira fase já está em operação.
O centro reúne o novo centro de distribuição, a área de logística e parte das equipes administrativas. Segundo Oliveira, a mudança já permitiu concentrar operações antes espalhadas por diferentes imóveis e reduzir gastos com aluguel.
A estrutura também abriga uma série de operações próprias, como oficina para manutenção da frota, abastecimento de caminhões, restaurante para cerca de 280 funcionários, empresa de tecnologia responsável pelos sistemas utilizados pelos franqueados e equipes de arquitetura e logística. A estratégia faz parte da verticalização iniciada pela companhia nos últimos anos para aumentar o controle sobre a operação.
Sorvete proteico entra no cardápio
A empresa também prepara uma aposta para acompanhar mudanças no consumo. Nas próximas semanas, a rede lançará uma linha de produtos proteicos em parceria com uma marca do segmento.
Apesar disso, Oliveira diz que ainda não vê uma mudança significativa no comportamento do principal público da Chiquinho.
"Entre 70% e 80% dos nossos consumidores têm até 25 anos. Esse ainda não é um público muito preocupado com isso", afirma.
Para o executivo, fatores como clima e juros continuam tendo impacto muito maior sobre o desempenho das lojas do que a busca por alimentos considerados mais saudáveis.
A expectativa da companhia é que, quando o ambiente econômico voltar a favorecer investimentos, parte da expansão represada pelos juros volte naturalmente ao mercado. Até lá, a estratégia será continuar fortalecendo a operação, ganhar eficiência e crescer apoiada principalmente nos próprios franqueados.
