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Sacre Investimentos
EXAME AgroACS
08/10/2026
5 min

Juros menores em 2027 podem favorecer Camil — mas efeito é desigual no agro

Relatório do BTG aponta Camil como principal nome de alimentos para capturar queda da Selic; proteínas enfrentam efeito misto de juros e câmbio

Juros menores em 2027 podem favorecer Camil — mas efeito é desigual no agro

O resultado do primeiro turno das eleições abriu espaço para uma revisão das expectativas sobre juros, câmbio e prêmio de risco no Brasil — e esse movimento pode produzir vencedores e perdedores entre as empresas de alimentos e agronegócio.

Entre os nomes de consumo básico acompanhados pelo BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), a Camil aparece como a companhia com exposição mais direta a uma eventual queda dos juros. A empresa combina maior alavancagem com uma parcela relevante da dívida atrelada ao CDI, o que tende a reduzir as despesas financeiras em um cenário de cortes de juros.

A leitura é dos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla. Segundo eles, não existe uma única 'aposta Brasil' nos setores de alimentos, bebidas e agronegócio, porque muitas empresas têm receitas ligadas ao dólar, a commodities globais ou a ambos. No caso da Camil, porém, o efeito dos juros é mais direto.

Segundo as estimativas do BTG, a companhia tem dívida líquida equivalente a 5,5 vezes o Ebitda e cerca de 59% da dívida vinculada ao CDI. Em uma simulação de queda de 1 ponto percentual nos juros, hoje em 13,75% ao ano, o impacto positivo sobre o resultado financeiro seria de cerca de R$ 24 milhões, equivalente a aproximadamente 6% do lucro líquido estimado para 2027.

“Camil é diferente. Seu balanço mais alavancado lhe dá maior sensibilidade à queda dos juros, tornando-a, em nossa visão, o nome mais natural de consumo básico dentro de nossa cobertura para expressar esse tema”, afirmam os analistas.

A diferença em relação à Ambev e à M. Dias Branco está justamente na estrutura de capital. As duas companhias têm posição de caixa líquido e, por isso, capturam menos diretamente os benefícios de juros menores sobre o resultado financeiro.

A M. Dias Branco, por outro lado, pode se beneficiar de outro fator: a valorização do real, já que parte relevante de seus custos está atrelada ao dólar.

Na avaliação dos analistas, quanto maior a parcela da dívida indexada ao CDI, mais rapidamente uma redução das taxas pode aliviar as despesas financeiras e se refletir no lucro.

O efeito, no entanto, não deve ser analisado isoladamente. Paraempresas do agronegócio e de alimentos com exposição internacional, câmbio e commodities podem ter peso tão grande quanto os juros.

Setor de carne

Nas empresas de proteínas, por outro lado, a situação é mais complexa. Os analistas do BTG apontam que frigoríficos como Minerva, MBRF e JBS devem se beneficiar de juros menores, especialmente as companhias mais alavancadas. Ao mesmo tempo, um real mais valorizado tende a ser negativo para empresas que recebem parte relevante de suas receitas em dólar.

“Proteínas provavelmente oferecem a negociação relativa mais clara. Juros menores devem beneficiar de forma desproporcional os nomes mais alavancados, colocando Minerva e MBRF entre as empresas mais expostas”, escrevem Duarte e Guttilla.

Na análise do banco, a Minerva aparece como a empresa com maior sensibilidade cambial em relação ao valor de mercado.

Em um cenário de valorização do real para R$ 4,75 por dólar, ante a referência de R$ 5,25 utilizada pelo BTG, o impacto negativo estimado sobre a geração de caixa antes de impostos da Minerva seria equivalente a cerca de 10,9% de seu valor de mercado.

A mesma lógica vale, em menor intensidade, paraJBS e MBRF. Por isso, um cenário macroeconômico aparentemente positivo — juros menores e real mais forte — pode produzir efeitos contraditórios dentro do mesmo setor.

A Minerva, por exemplo, é uma das principais beneficiárias da queda dos juros por causa de sua estrutura de dívida. Uma redução de 1 ponto percentual nas taxas poderia acrescentar cerca de R$ 102 milhões ao resultado financeiro, equivalente a aproximadamente 23% do lucro líquido projetado pelo banco para 2027.

Ao mesmo tempo, a valorização da moeda brasileira reduz o valor, em reais, das receitas obtidas em dólar.

A JBS aparece em posição diferente. O BTG mantém uma visão positiva para a companhia, principalmente por sua avaliação considerada mais atrativa, mas destaca que sua presença global reduz a sensibilidade direta ao cenário brasileiro.

“JBS também permaneceria no lado positivo da negociação, dada sua avaliação mais atrativa, embora sua composição global de resultados naturalmente dilua sua sensibilidade ao Brasil”, dizem os analistas.

A diferença entre os frigoríficos também aparece na estrutura de endividamento. Segundo o BTG, a Minerva tem cerca de 60% de sua dívida atrelada ao CDI, enquanto essa participação é de 38% na MBRF e de apenas 5% na JBS.

Na MBRF, uma redução de 1 ponto percentual nos juros poderia representar uma melhora de R$ 192 milhões no resultado financeiro. O efeito, porém, ocorre em um cenário no qual o banco ainda projeta prejuízo líquido de R$ 634 milhões para a companhia em 2027.

Já na JBS, que concentra uma parcela maior de suas operações fora do Brasil, o impacto direto da queda dos juros brasileiros sobre o lucro seria praticamente nulo.

O câmbio, por sua vez, pode produzir o efeito contrário. Em uma simulação de queda do dólar de R$ 5,25 para R$ 4,75, o BTG estima que o impacto negativo sobre a geração de caixa antes de impostos seria equivalente a 5,7% do valor de mercado da JBS e a 1,7% do da MBRF, ante 10,9% no caso da Minerva.

Os analistas ponderam que esses números consideram apenas a variação cambial, mantendo as demais condições constantes. Na prática, movimentos do dólar também costumam ser acompanhados por mudanças nos preços internacionais de commodities, o que pode amenizar os impactos estimados.

No ano, as ações da Camil acumulam alta de 32,03%. Nos últimos 12 meses, a valorização chega a 53,64%.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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