Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
31/08/2026
5 min

Justiça decreta falência de rede que chegou a ter 96 supermercados e 5 mil funcionários em SP

Grupo Ricoy entrou em recuperação judicial em outubro de 2025, com centenas de milhões de reais em dívidas. Plano foi rejeitado pelos credores e Justiça apontou fechamento de lojas e esvaziamento da operação

Justiça decreta falência de rede que chegou a ter 96 supermercados e 5 mil funcionários em SP

A Justiça de São Paulo decretou a falência do Grupo Ricoy, uma dasredes de supermercados mais tradicionais de São Paulo.

A decisão atinge 33 empresas ligadas ao grupo, entre supermercados, distribuidoras, holdings e a operação do Vencedor Atacadista. A sentença foi assinada em 28 de agosto pela juíza Fernanda Perez Jacomini, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.

A queda encerra uma tentativa de recuperação judicial iniciada menos de 1 ano atrás. O Grupo Ricoy fez o pedido em 29 de outubro de 2025 e teve o processamento deferido em 19 de novembro.

No auge, segundo o laudo apresentado pela própria companhia no processo, chegou a operar 96 lojas próprias em mais de 70 municípios paulistas e empregou mais de 5.000 trabalhadores diretamente.

A falência veio depois de uma sequência de problemas durante a recuperação. O plano apresentado pelo Ricoy foi rejeitado pelos credores em julho. Uma segunda alternativa, formulada por credores, também não reuniu apoio suficiente para sequer ser levada a votação.

Ao mesmo tempo, a administradora judicial relatou falta de documentos financeiros, fechamento de lojas e uso de máquinas de cartão que direcionavam pagamentos para empresas de fora do grupo em recuperação.

Agora, o processo muda de finalidade. Sai a tentativa de preservar e reorganizar as empresas e entra a etapa de falência, na qual ativos são arrecadados e vendidos para pagamento dos credores conforme a ordem prevista em lei. A Justiça também determinou que habilitações de créditos passem a seguir o procedimento da falência.

O que levou o Grupo Ricoy à falência

O golpe final veio da assembleia de credores. Em 14 de julho, o plano de recuperação do próprio Ricoy foi rejeitado porque não obteve a aprovação necessária na Classe III, formada principalmente pelos credores sem garantia real.

A Justiça entendeu que não estavam presentes os requisitos para aprovação forçada do plano, mecanismo conhecido no mercado como cram down, quando o juiz pode homologar uma proposta mesmo sem o apoio de todas as classes de credores.

Ainda havia uma segunda possibilidade. Um grupo de credores apresentou em agosto um plano alternativo que previa, entre outras medidas, a criação de uma unidade produtiva isolada para o negócio de laticínios e a nomeação de um gestor judicial.

A saída também fracassou. Após analisar as adesões, a Vivante, administradora judicial do caso, concluiu que os subscritores do plano representavam apenas 0,185% dos créditos presentes na assembleia, muito abaixo do quórum de 35% exigido para levar a proposta à votação.

A administradora passou, então, a defender a falência.

A assembleia que estava prevista para esta segunda-feira, 31 de agosto, acabou cancelada pela própria sentença. Segundo a Justiça, não havia quórum legal para votação do plano alternativo.

A administradora judicial também informou à Justiça que o Ricoy havia parado de fornecer documentos operacionais, financeiros, contábeis e trabalhistas desde fevereiro de 2026.

Visitas às operações mostraram ainda uma redução rápida da rede. De acordo com a administradora judicial, nenhuma operação estava plenamente em funcionamento em agosto.

O último relatório mensal disponível da administradora judicial mostra a dimensão do passivo sujeito à recuperação.

A relação reunia 2.824 credores trabalhistas, com créditos de 50,7 milhões de reais; 653 credores da Classe III, com 385,9 milhões de reais; e 1.194 micro e pequenas empresas, com outros 24,6 milhões de reais. Somados, os créditos listados superavam 461 milhões de reais.

Qual é a história do Ricoy

A história do Ricoy começou muito antes da crise atual.

A rede tem origem em supermercados de bairro da Zona Sul de São Paulo, da fusão das operações Riviera e Yokoi, criadas por famílias que atuavam no varejo alimentar da região.

Nas décadas seguintes, o crescimento passou por aquisições e incorporação de redes regionais. Diferentes bandeiras estiveram ligadas ao grupo ao longo desse período, entre elas Amais, Economax, Pão de Mel, Peri, Gimenez, Rei do Gado e Russi.

O próprio laudo econômico-financeiro entregue à Justiça aponta a aquisição do Grupo Russi como um dos acontecimentos que depois pesaram sobre as contas. Segundo o documento, os impactos fiscais e tributários relacionados à operação ficaram entre as três causas da crise, ao lado do aumento da concorrência e da alta dos juros.

O grupo também investiu em logística. Em maio de 2011, implantou um centro de distribuição na Grande São Paulo. Depois avançou sobre o atacarejo com a bandeira Vencedor Atacadista. Foi nesse ciclo que a operação chegou às 96 lojas próprias, espalhadas por mais de 70 municípios e com mais de 5.000 funcionários.

Como foi a crise

A expansão perdeu força na década seguinte. O grupo passou por fechamento de unidades, redução da operação e mudanças de bandeira. Quando pediu a recuperação judicial, em 2025, a estrutura já estava distante do tamanho alcançado nos anos anteriores.

No laudo entregue junto ao plano de recuperação, o grupo sustentava que enfrentava um “desequilíbrio conjuntural” e que a crise era transitória.

A tese era de que a operação poderia voltar a crescer após a renegociação das dívidas. Entre as causas apontadas estavam custos logísticos e tributários maiores, redução de margens, concorrência, encurtamento dos prazos dados pelos fornecedores e juros mais altos.

O plano previa renegociação do passivo, possíveis vendas de unidades produtivas isoladas e obtenção de novos financiamentos.

Menos de oito meses depois da apresentação desse plano, o diagnóstico judicial era outro. Sem aprovação dos credores, com operações encerradas durante o processo e diante dos relatos de esvaziamento da atividade, a recuperação terminou antes de chegar à fase de pagamentos.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
Distribuído por