Kinea: eleição só termina quando vencedor mostrar como pagará ajuste fiscal de 2% do PIB
Em carta, gestora diz que a proposta para fechar a conta fiscal pesa mais nos ativos do que o nome eleito

RESUMO +
A gestora Kinea prevê desaceleração da economia brasileira em 2027, independentemente do vencedor da eleição presidencial de 2026, com PIB em alta de 1%, inflação de 4,7% e Selic de 12,5% no fim do ano. O cenário-base pressupõe ajuste fiscal de cerca de 2% do PIB no início do mandato, diante de juros restritivos e famílias endividadas.
A economia brasileira deve desacelerar em 2027, independentemente de quem vencer a eleição presidencial deste ano, segundo a Kinea. Na nova carta mensal da gestora, publicada nesta quinta-feira, 1°, a quatro dias do primeiro turno, a avaliação é de que o cenário mais provável para o próximo ano envolve um impulso fiscal negativo, em um momento em que o país também terá de lidar com juros ainda restritivos e com o balanço financeiro deteriorado das famílias.
A gestora calcula que o Brasil precisaria gerar um superávit primário de cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para estabilizar a trajetória da dívida bruta. O problema, segundo a análise, é quenenhuma das duas principais campanhas apresentou até agora uma proposta com esse grau de detalhamento para enfrentar a conta.
"As medidas são impopulares e o calendário não perdoa: para produzir efeito em 2027, a maior parte precisa ser aprovada no primeiro semestre, com o capital político do eleito ainda intacto. As linhas do debate com o Legislativo terão de ser traçadas antes da posse, entre o segundo turno, em 25 de outubro, e a virada do ano", afirma a casa.
A questão fiscal, por isso, aparece como um dos principais pontos de atenção para os mercados depois da eleição. Para a Kinea, o resultado das urnas será apenas o início da discussão sobre a política econômica do próximo governo e o que estará em jogo para os investidores será a capacidade do vencedor de apresentar medidas concretas para fechar as contas públicas.
A gestora trabalha com um cenário-base de PIB crescendo 1% em 2027, inflação de 4,7% e Selic em 12,5% no fim do ano. A projeção pressupõe que o próximo governo anuncie, já no início do mandato, um ajuste fiscal da ordem de 1,5% do PIB, capaz de contribuir para a redução dos juros reais."Para o mercado, a eleição não se encerra em outubro: encerra-se quando o vencedor disser, com números, como pretende fechar essa conta", diz.
Trajetória da dívida bruta para diferentes níveis de superávit primário | % do PIB - (Fontes: Banco Central, PLOA 2027, Kinea)
O fiscal antes da atividade
A nova carta mensal da Kinea usa o filme Highlander (1986) como metáfora para a eleição brasileira. Na história, guerreiros imortais atravessam séculos duelando até que reste apenas um vencedor. A gestora cita que o próximo presidente também chegará ao "duelo final" carregando uma herança que não poderá evitar.
"Em Highlander, quando um imortal cai, o vencedor absorve de uma só vez toda a força acumulada do derrotado, em uma descarga que ele não escolhe nem sabe dosar. Herda-se tudo junto, o vigor e as feridas. É assim que se apresenta o dia 1º de janeiro de 2027: quem vencer recebe, em um único instante, atividade em desaceleração, inflação e Selic elevadas, uma população endividada e descontente e a necessidade de um ajuste fiscal capaz de reancorar expectativas", afirma.
A gestora também identifica um padrão recorrente no comportamento das contas públicas ao longo dos ciclos políticos, em que o gasto tende a ser menor no início dos mandatos e a ganhar força posteriormente. Para 2027, portanto, a expectativa é de que o impulso fiscal seja negativo.
A combinação de política fiscal menos expansionista e política monetária ainda restritiva deve pesar sobre a atividade. A Kinea afirma que oesgotamento do balanço das famílias já começa a aparecer e que os juros continuam funcionando como um freio relevante para a economia.
O tamanho do esforço para estabilizar a dívida também coloca o tema no centro da agenda do próximo presidente. "Quem vencer em outubro recebe como recompensa imediata a obrigação de promover um dos maiores ajustes fiscais desde a redemocratização", diz a gestora.
"O Orçamento enviado ao Congresso no fim de agosto projeta um superávit primário apenas simbólico para 2027, com a dívida bruta já no maior nível fora do período da pandemia. Nossas simulações indicam que é preciso um resultado primário ao redor de 2% do PIB para estabilizar a trajetória da dívida e, com ela, abrir espaço para que os juros reais finalmente cedam".
O que sobra para o Executivo | Orçamento de 2027 (Fontes: PLOA 2027, Câmara dos Deputados, Kinea)
O que acontece se o ajuste não vier
A Kinea também traça cenários para o caso de o próximo governo não apresentar uma resposta fiscal suficiente. Se nada for anunciado ou se houver uma guinada considerada mais populista pela gestora, o efeito esperado seria um choque negativo nas expectativas, com impacto sobre a atuação do Banco Central. Nesse cenário, o ciclo de cortes da Selic poderia ser interrompido.
A gestora, por outro lado, considera pouco provável uma nova alta da taxa básica. O argumento é que o nível atual da Selic ainda oferece carrego elevado para a moeda e reduz a possibilidade de um movimento de alta adicional.
A referência usada pela Kinea para sustentar essa avaliação é o episódio de dezembro de 2024, que, segundo a carta, teria mostrado aos candidatos presidenciais o custo de uma mudança de orientação econômica mais populista em termos de inflação e popularidade.
"Os desafios do próximo presidente são numerosos, e equilibrar todas essas demandas não será simples. Mas a ordem importa tanto quanto a força. Se atacar o fiscal primeiro, o próximo governo navegará melhor o restante do mandato e comprará tempo para endereçar os demais temas", afirma a casa em um trecho do documento.
Impulso fiscal | p.p. do PIB (Fontes: Tesouro Nacional, Banco Central, Kinea)
IA e juros nos Estados Unidos e Europa
A carta também trata do cenário internacional, com destaque para a política monetária americana. A Kinea avalia que a curva de juros dos Estados Unidos vinha sinalizando a necessidade de uma política monetária mais restritiva, em um ambiente de atividade ainda resiliente, inflação pressionada e petróleo mais caro.
A gestora destaca a força da economia americana para além do ciclo de investimentos em inteligência artificial. O consumidor continua sustentando parte da atividade, apoiado por um mercado de trabalho com desemprego estável e tendência de queda.
Na Europa, a avaliação é diferente. A Kinea reconhece a resiliência da atividade no primeiro semestre, apoiada pela manufatura global, pelos investimentos em infraestrutura e defesa na Alemanha e pela resistência do consumidor, mas espera perda de tração nos próximos trimestres.
Nesse cenário, a gestora mantém posições aplicadas em juros europeus, além de México e Nova Zelândia, onde avalia que a ociosidade das economias deve permitir taxas de juros mais baixas do que as atualmente precificadas pelo mercado.
Nas moedas, a estratégia inclui posições compradas, mas com redução tática da exposição ao won sul-coreano e ao iene japonês após a valorização acumulada. A Kinea considera que um Federal Reserve (Fed) mais duro dá suporte ao dólar.Ações: exposição tática e risco controlado
No mercado acionário, a Kinea afirma ter construído uma posição comprada em bolsa brasileira, principalmente por meio do ETF EWZ, fundo de índice negociado na bolsa de Nova York que replica o desempenho de ações de grandes e médias empresas do Brasil. A posição, porém, é descrita como tática e sujeita a alterações conforme a evolução do quadro eleitoral.
No exterior, a gestora concentra posições de tecnologia em opções de Nasdaq e mantém compra de índices na Coreia do Sul e em Taiwan. Também reduziu a exposição ao setor financeiro e mantém posição comprada em biotecnologia.
A carta destaca que, em setembro,o mercado acionário americano mostrou resiliência mesmo diante da alta dos juros, com as áreas menos sensíveis às taxas sustentando o desempenho dos índices. A tecnologia ficou à frente, enquanto consumo, utilities e habitação sofreram mais com a combinação de juros e petróleo elevados.
A inteligência artificial continua no centro da estratégia internacional da Kinea. A preocupação da gestora, porém, não está apenas no ritmo de lançamento de novos modelos, mas na capacidade das empresas de transformar o uso da tecnologia em receita.
Segundo a carta, a receita anualizada dos principais laboratórios estaria em torno de US$ 150 bilhões, e seria necessário chegar próximo de US$ 450 bilhões ao fim de 2027 para cumprir a trajetória considerada necessária pela gestora.
Nas commodities, a Kinea chama atenção para os efeitos das guerras no Irã e na Ucrânia sobre os preços de energia e agrícolas. O diesel é apontado como o principal ponto de pressão no mercado de combustíveis. A combinação de ataques ucranianos a refinarias russas, restrições às exportações russas e dificuldades de escoamento do petróleo do Oriente Médio elevou a pressão sobre os derivados.
Apesar das incertezas geopolíticas, a Kinea afirma ter se tornado mais construtiva em relação à possibilidade de evitar um cenário extremo para o petróleo, diante da elevação gradual do fluxo pelo estreito de Ormuz e da redução dos prêmios físicos nas últimas semanas.
Estratégia da gestora é controlar a exposição
Diante desse ambiente, a estratégia da Kinea não é baseada em uma única aposta macroeconômica. A gestora afirma priorizar a gestão prudente de riscos, o controle da exposição e posições táticas diversificadas.
No Brasil, isso aparece na posição comprada em bolsa, condicionada à evolução do cenário eleitoral. No exterior, na combinação de tecnologia, biotecnologia e posições em diferentes mercados. Nas commodities, a exposição a agrícolas, petróleo, ouro e cobre também funciona como proteção parcial para posições em juros e ações.
A ideia central é administrar o risco enquanto os mercados atravessam um período marcado por incertezas fiscais, monetárias e geopolíticas. "Em um mercado cujo preço é fixado por duelos alheios, o que se administra não é a previsão: é a exposição", afirma a Kinea.
