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NegóciosMPOL
16/10/2026
10 min

'Ler voltou a ser chique': aos 63 anos, rede abre novas livrarias e acelera rumo aos R$ 420 milhões

Com 63 anos de história, grupo paranaense criou nova bandeira para avançar pelo Sul e Sudeste, enquanto aposta em jovens leitores e diversificação de produtos

'Ler voltou a ser chique': aos 63 anos, rede abre novas livrarias e acelera rumo aos R$ 420 milhões

Durante anos, o futuro das livrarias físicas foi colocado em dúvida. A concorrência do comércio eletrônico, o avanço dos livros digitais e a crise de grandes redes alimentaram a percepção de que o modelo tradicional estava com os dias contados. Mas, enquanto algumas das empresas mais conhecidas do setor fecharam as portas, outras encontraram espaço para crescer. É o caso do Grupo Livrarias Curitiba, que está preparando uma nova fase de expansão nacional.

Fundada há 63 anos no Paraná, a companhia encerrou 2025 com receita bruta de R$ 385 milhões, alta de 9,53% em relação ao ano anterior. A projeção de crescimento para este ano é de 10%, fazendo a rede encerrar 2026 com mais de R$ 420 milhões em faturamento. 

Hoje, são 27 lojas distribuídas por quatro estados brasileiros. Até 2027, o plano é chegar a 33 unidades, ampliando a presença principalmente no Sul e no Sudeste.

O movimento ganhou força em agosto, quando o grupo inaugurou sua primeira loja no Rio Grande do Sul. A operação, instalada no Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre, estreou uma nova bandeira: a Libris, marca que deverá acompanhar a expansão da companhia para outros mercados.

À frente da estratégia está Rute Pedri, diretora de Varejo do grupo e filha dos fundadores. Para ela, um dos fatores que ajudam a explicar o momento do negócio está na mudança de comportamento das novas gerações, que passaram a consumir e compartilhar literatura também pelas redes sociais.

“Agora ler voltou a ser uma coisa chique. Está na moda ler. Todo mundo quer mostrar que está lendo, que ler é bacana, que ler é chique”, diz a executiva.

A avaliação contrasta com fechamentos de livrarias na última década. A Saraiva, que chegou a operar mais de uma centena de lojas, teve a falência decretada em 2023. A Livraria Cultura, outro nome tradicional do mercado, encerrou suas últimas operações em fevereiro de 2026.

A trajetória das duas redes, no entanto, não impediu que novos modelos de livrarias ganhassem espaço.

Para o grupo paranaense, a oportunidade está em combinar a venda de livros com entretenimento, convivência e uma operação financeiramente sustentável.

Como surgiu a rede de livrarias

A história do grupo começou em 1963, quando Valentim Pedri e sua mulher, Myrian, decidiram trocar o sonho da casa própria pela abertura de uma livraria no centro de Curitiba.

O casal vinha de famílias de origem simples e economizava dinheiro para comprar o primeiro imóvel. Até que Valentim apresentou uma proposta diferente à esposa: usar os recursos acumulados para abrir um negócio e deixar a compra da casa para depois.

A primeira unidade da Livrarias Curitiba nasceu em um pequeno espaço, com quatro funcionários, dedicada principalmente à venda de livros didáticos e jurídicos. O empreendimento começou com a participação de um sócio, cuja parte Valentim compraria posteriormente.

A expansão para fora do Paraná começou apenas dois anos depois, em 1965, com uma filial em Florianópolis. Como o nome Livrarias Curitiba não tinha a mesma identificação com os consumidores catarinenses, a família decidiu criar uma segunda bandeira, a Livrarias Catarinense.

Ao longo das décadas seguintes, a rede avançou por cidades como Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Blumenau, Joinville e Balneário Camboriú. Também acompanhou as transformações do varejo, passando das lojas de rua e grandes unidades de vários andares para uma presença mais concentrada em shopping centers.

As antigas megastores incorporavam cafés, CDs, DVDs e materiais de papelaria. Com o passar dos anos, parte desses produtos perdeu relevância, enquanto novas categorias ganharam espaço.

Hoje, a operação é administrada por quatro mulheres da família Pedri. A segunda geração preservou o controle do negócio, mas ampliou a atuação para segmentos que vão além dos livros.

A estrutura reúne 741 funcionários, centros de distribuição e atividades de atacado, comércio eletrônico e participação em licitações. Com a expansão prevista até 2027, a expectativa é ampliar o quadro de funcionários em aproximadamente 20%. 

Por que a empresa criou uma nova marca

A decisão de lançar a Libris como bandeira de varejoestá diretamente relacionada à ambição de crescer fora dos mercados onde o grupo já é conhecido.

No Paraná, a marca Livrarias Curitiba tem forte reconhecimento. Em Santa Catarina, a mesma situação ocorre com a Livrarias Catarinense. Em outros estados, entretanto, nomes associados a localidades específicas poderiam dificultar a identificação dos consumidores.

A solução foi aproveitar uma marca que já pertencia à empresa e era utilizada na edição de livros infantis. Assim nasceu a Libris como terceira bandeira de livrarias do grupo, com uma identidade que poderá ser utilizada em diferentes regiões brasileiras.

“Resolvemos adotar esse nome como o nome nacional, que ficaria tranquilo para qualquer cidade”, afirma Rute.

A primeira unidade foi aberta no Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre, ocupando o espaço anteriormente utilizado pela livraria A Página.

Foram investidos R$ 1,3 milhão na implantação da operação, que ocupa 478 metros quadrados, no terceiro piso do empreendimento, próximo ao cinema. A nova loja gerou 16 empregos diretos.

Apesar de o imóvel já ter abrigado uma livraria, o grupo decidiu reconstruir o espaço internamente.

Mobiliário, iluminação, disposição das prateleiras e ambientes para crianças foram redesenhados segundo o padrão arquitetônico adotado pela companhia.

A intenção é transformar a visita em uma experiência que vá além da compra de um livro. A unidade reserva espaços para literatura infantil, papelaria, brinquedos, jogos, mangás e produtos voltados ao público interessado em cultura pop.

A marca Libris também poderá substituir gradualmente outras bandeiras do grupo. A mudança, entretanto, não será imediata.

Segundo Rute, a companhia avalia uma transição ao longo dos próximos anos, respeitando a identificação que as marcas tradicionais construíram com os consumidores do Paraná e de Santa Catarina.

“Existe, claro, sempre um plano de futuro de fazer essa coesão, essa transição. Hoje a gente tem no Paraná, principalmente, o nome Livrarias Curitiba bastante forte”, diz.

Onde estarão as próximas livrarias

Com 27 unidades em funcionamento, o grupo pretende adicionar seis lojas à operação até o final de 2027, um crescimento de aproximadamente 22% na quantidade de estabelecimentos.

A estratégia combina o fortalecimento da presença nos estados onde a companhia já atua com a entrada em novos mercados.

O Rio Grande do Sul está entre as prioridades. A estreia em Porto Alegre representou a chegada a um mercado que a empresa avaliava havia anos, mas onde ainda não possuía uma operação física.

Em São Paulo, a rede mantém duas lojas, em São José dos Campos, no Vale Sul Shopping, e em São Bernardo do Campo, no Golden Square Shopping. A intenção é buscar oportunidades tanto no interior quanto na Grande São Paulo. 

Outro mercado analisado é o Rio de Janeiro, onde a companhia ainda não possui lojas.

A expansão, entretanto, deverá seguir critérios financeiros e logísticos. A empresa mantém uma equipe dedicada à prospecção de imóveis, mas não pretende abrir unidades apenas para aumentar sua presença geográfica.

“A gente tem bastante oferta para abrir em vários lugares e cidades, mas não adianta abrir num local em que você sabe que o faturamento não vai sustentar a operação”, afirma Rute.

O cuidado está relacionado ao modelo de gestão adotado pela família, que privilegia a proximidade com as equipes e o treinamento dos funcionários. A companhia procura manter uma estrutura administrativa capaz de acompanhar diretamente a operação das lojas.

Os estabelecimentos possuem tamanhos variados, com aproximadamente 15 funcionários nas unidades pequenas, 20 nas médias e até 30 nas maiores. A estrutura administrativa e logística também concentra uma parcela relevante dos trabalhadores.

Além das novas aberturas, o grupo pretende concluir até 2027 a modernização das unidades existentes.

Desde 2019, as inaugurações e reformas seguem um novo padrão de arquitetura, com plantas mais abertas, circulação livre e maior iluminação.

Como a rede ganha dinheiro além dos livros

Embora a literatura continue sendo o centro dos negócios, a diversificação do portfólio tornou-se uma das principais estratégias para aumentar as vendas.

Em 2025, 26,36% da receita do grupo veio de produtos que não são livros. O catálogo reúne mais de 100 mil itens, entre papelaria, brinquedos, tecnologia, jogos e presentes.

A aposta acompanha o comportamento de consumidores que passaram a procurar as livrarias não apenas para comprar uma obra específica, mas também para participar de atividades e descobrir novos produtos.

Os card games, como Pokémon, Magic e Yu-Gi-Oh!, estão entre as categorias utilizadas para atrair novos públicos. O mesmo ocorre com mangás, quadrinhos, RPG e literatura voltada aos jovens adultos.

Na unidade de Porto Alegre, por exemplo, a empresa criou o Geek Point, ambiente dedicado a esses segmentos. A proposta inclui encontros de jogadores, atividades relacionadas à cultura pop e eventos temáticos.

A agenda das lojas também contempla sessões de autógrafos, encontros com escritores e a tradicional Hora do Conto, voltada ao público infantil.

“Quem gosta de música tem a chance de ir a um show e ver o artista preferido. Quem gosta de livro adora falar com o autor preferido”, compara Rute.

O objetivo é aumentar o tempo de permanência do consumidor e criar ocasiões de visita que não dependam exclusivamente da necessidade de adquirir um livro.

A empresa também identificou mudanças no perfil de seus clientes. Segundo pesquisas internas, as mulheres representam uma parcela importante do público, especialmente na faixa de 25 a 35 anos.

Para Rute, a popularização de conteúdos literários no TikTok e no Instagram ajudou a despertar o interesse de uma geração que cresceu cercada por telas.

O fenômeno aparece no consumo de obras de fantasia, romance e literatura jovem adulta, além do interesse por edições especiais, boxes e livros de capa dura, que muitas vezes são comprados para coleção.

O que mudou no mercado brasileiro de livrarias

A recuperação recente do varejo de livros não se restringe à experiência do Grupo Livrarias Curitiba.

Segundo dados da Nielsen BookScan divulgados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o mercado brasileiro comercializou 60,33 milhões de exemplares em 2025, movimentando R$ 3,09 bilhões.

Os números ajudam a explicar por que redes que resistiram à crise voltaram a investir em lojas físicas.
A Livraria da Travessa, por exemplo, inaugurou uma unidade em Porto Alegre em 2025 e anunciou uma nova operação em Pinheiros, em São Paulo, integrada a uma praça com espaços de convivência. Outras empresas do setor, como a Leitura, também seguem presentes na disputa pelo consumidor de livros.

O avanço das livrarias ocorre, porém, em um ambiente de concorrência intensa com as plataformas digitais.

No Grupo Livrarias Curitiba, o comércio eletrônico respondeu por apenas 2,8% das vendas em 2025. A participação relativamente pequena reflete uma estratégia que prioriza a experiência presencial e evita disputar mercado exclusivamente por preço.

Rute afirma que grandes plataformas utilizam os livros para atrair consumidores e estimular a compra de produtos com margens mais elevadas. Segundo ela, essa concorrência dificulta a atuação das livrarias tradicionais, que precisam manter operações físicas, estoques e equipes.

“Tem grandes players que acabam usando o livro como boi de piranha”, diz a executiva.

Na avaliação dela, reduzir agressivamente os preços pode comprometer a sustentabilidade financeira das lojas, especialmente em uma atividade que depende de estoques diversificados e mão de obra especializada.

“Temos uma conta para fechar. A empresa tem que dar lucro, porque senão não funciona. Nós temos hoje quase 800 colaboradores. Se a conta não fechar, é muita gente envolvida que pode sofrer”, afirma.

Isso não significa abandonar a venda pela internet. O grupo mantém o canal digital e permite que o consumidor combine compras online e experiências nas lojas físicas. A prioridade, entretanto, continua sendo construir um negócio que consiga se sustentar sem depender exclusivamente de descontos.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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