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Mundo
11/09/2026
6 min

Líbano e Arábia Saudita entram no radar da guerra no Irã; entenda

Apesar do timing macabro, escaladas simultâneas têm pouca relação com Teerã e com o conflito por Ormuz, e refletem dinâmicas mais amplas da região como um todo

Líbano e Arábia Saudita entram no radar da guerra no Irã; entenda

A escalada simultânea de confrontos no Oriente Médio, em decorrência da guerra no Irã, viu a renovação de hostilidades no sul do Líbano e na Arábia Saudita.  Em duas frentes distintas, grupos apoiados por Teerã — chamados de proxies — estão enfrentando aliados de Washington, elevando os riscos militares e econômicos no Oriente Médio.

Apesar do timing e dos riscos, Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, em entrevista à EXAME,  acredita que as ofensivas não devem desestabilizar drasticamente a região "Eu acho que os incidentes não necessariamente estão correlacionados. É importante lembrar que nós não temos informação sobre o que tá acontecendo", afirma.

Paz continua "Quando eu olho pro caso do Líbano, estamos diante de uma questão que já está em um contexto de conflito com Israel e com Gaza; ou seja, Israel expandiu o conflito para além da região. O Líbano tem sido muito duramente atingido em função desse conflito", diz.

Paz nota ainda a postura de Israel, incomum mesmo em conflitos armados, o que suscita uma resposta mais intensa do Hezbollah. "[Israel está] basicamente ocupando todo o sul do Líbano, atacando fortemente o Hezbollah, atacando inclusive a capital, Beirute, coisa que não fazia de forma tão aberta, tão sistemática", afirma.

"Então, eu acho que há um elemento de resposta do Hezbollah às ações recentes de alguns meses e à presença israelense na região", diz.

Ondas de violência, amplo contexto, pouca conexão

Apoiador da causa Houthi ergue míssil em protesto à ocupação israelense na Palestina (Yahya Arhab/EFE)

No Líbano, ataques israelenses contra posições do Hezbollah nesta segunda, 7, deixaram ao menos 11 mortos, incluindo duas crianças e dois paramédicos, segundo a agência estatal libanesa. As ofensivas ocorreram no sul do país e representam uma nova deterioração do cessar-fogo negociado pelos Estados Unidos em junho.

Nesta quinta, 10, a embaixada americana em Beirute expressou suporte às autoridades libanesas, reiterando que qualquer decisão de conflito contra o Hezbollah deve ser tomada exclusivamente pelo governo.

“Todos os dias, o povo libanês deixa claro que prefere as instituições do Estado libanês às armas do Hezbollah.”

A embaixada também afirmou que o sul do Líbano — atualmente ocupado por Israel — “não pertence a atores regionais ou milícias” e expressou apoio ao objetivo declarado do governo libanês de exercer sua soberania na região.

Adiciona que o Exército libanês deve fazer valer essa soberania e garantir que “as decisões sobre guerra e paz caibam exclusivamente ao Estado libanês”.

Por sua vez, o Hezbollah acusa Israel de intensificar as operações, enquanto o Exército israelense afirma estar reagindo a ataques com drones lançados pelo grupo. Segundo Israel, os ataques violaram o acordo de trégua e exigiram uma resposta militar contra instalações da milícia.

No domingo, ataques israelenses já haviam matado ao menos sete pessoas no sul do Líbano, segundo o Ministério da Saúde libanês, citado pela Reuters. A sequência de ofensivas fez de agosto e do início de setembro dois dos períodos mais violentos desde a entrada em vigor do cessar-fogo.

O presidente libanês, Joseph Aoun, classificou a nova onda de ataques como uma “escalada perigosa” e pediu aos Estados Unidos e à comunidade internacional que intervenham para interromper as hostilidades. Desde março, segundo autoridades libanesas, a guerra matou pelo menos 4.300 pessoas e deixou mais de 12 mil feridos.

Houthis, Iêmen e Arábia Saudita

Ao mesmo tempo, a violência se espalhou pelo sul da Península Arábica. Ataques dos houthis, proxy iraniano que atua no Iêmen, atingiram cidades e instalações econômicas da Arábia Saudita, deixando ao menos 73 feridos e provocando incêndios em instalações de petróleo e em serviços públicos.

O Paquistão alertou, na terça-feira, que a continuidade dos ataques dos houthis poderia acionar o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, assinado recentemente — um pacto de segurança mútua que envolve a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão.

No dia seguinte, a agência de notícias estatal saudita Saba informou que pelo menos três crianças, incluindo um bebê, morreram em um ataque de artilharia dos Houthis na província central de Marib. Outras seis pessoas ficaram feridas no ataque, que, segundo a Saba, foi o segundo em 48 horas.

Mesmo assim, de maneira semelhante, Paz associa a escalada não aos males de Teerã e ao imbróglio com os EUA, mas sim a um contexto mais específico: "Basicamente, esses ataques dos Houthis ao território saudita estão no contexto de uma reação dos Houthis a uma onda de ataques, agora que os Houthis coordenam o que era o governo do Iêmen quando tomaram o poder ali em 2014."

Paz explica que o Iêmen tinha um governo formal, muçulmano sunita, apoiado e reconhecido pela Arábia Saudita, que foi derrubado pelos Houthis. Com a queda do governo, os rebeldes conseguem acesso ao Mar Vermelho, que, como o Estreito de Ormuz, é uma importante rota marítima para o transporte de petróleo, gás natural liquefeito e outras commodities.

"Nesse contexto, os Houthis, uma milícia xiita, dão poder e apoio ao Irã; eles vão derrubar esse governo sunita, apoiado pela Arábia Saudita. E que, desde então, já tem mais de 10 anos essa história de que a Arábia Saudita bombardeia frequentemente as posições dos Houthis, ou seja, a Arábia Saudita] já está envolvida militarmente há bastante tempo."

"Eu acho que houve um momento, nesses últimos dias, em que essa oposição, esse regime derrubado [...] tenta uma nova contraofensiva para ganhar parte do território, especialmente ali, ligado, como eu disse, ao litoral, que lida com o Estreito [de Bab-el-Mandeb] e com a capital, Saná."

Os ataques retaliatórios, frutos de semanas de conflitos entre os Houthis e forças do governo reconhecido pela Arábia Saudita, atingiram as cidades sauditas de Abha, Jazan, Najran e Khamis Mushait, segundo as autoridades locais.

O Ministério da Energia afirmou que algumas operações em instalações de petróleo e em serviços essenciais precisaram ser temporariamente interrompidas enquanto equipes combatiam os incêndios.

A região abriga ativos estratégicos, incluindo a refinaria de Jazan, com capacidade de processamento de cerca de 400 mil barris por dia. Os houthis afirmaram ter lançado dezenas de mísseis balísticos e drones contra instalações da Aramco, centros industriais e uma base aérea no sul da Arábia Saudita.

Riad classificou os ataques como uma grave escalada e prometeu retaliar. Os houthis, por sua vez, afirmaram que a ofensiva foi uma resposta aos ataques sauditas no Iêmen, depois de uma nova sequência de combates ter rompido a trégua que vinha mantendo a frente relativamente estável desde 2022.

A deterioração no Iêmen também ameaça atingir populações civis. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, cerca de 18.500 pessoas foram deslocadas nas províncias de Taiz e Hodeida durante a nova onda de confrontos, o que aumenta a pressão sobre comunidades já deslocadas diversas vezes.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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