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22/09/2026
4 min

Ligga: Vale paga US$ 190 mi para ser sócia de mineradora que foi aposta da Cosan

Mina fica próxima à ferrovia da Vale em Carajás e dá acesso a minério de qualidade sem custo de abrir projeto do zero

Ligga: Vale paga US$ 190 mi para ser sócia de mineradora que foi aposta da Cosan

A compra de 30% da Ligga Mineração pela Vale tem o tamanho de uma nota de rodapé no balanço da maior mineradora de ferro do mundo. São US$ 190 milhões por 30% de uma empresa que produz 2 milhões de toneladas por ano, número bem pouco expressivo perto dos 336 milhões que a Vale extraiu em 2025. O que torna a aquisição estratégica é a trajetória da empresa e o motivo que levou a mineradora a preferir ser sócia do que abrir uma mina do zero.

A Ligga opera a mina Ferro Sul, entre Parauapebas e Curionópolis, no coração de Carajás. Foi criada em 2011 como Rio Minas Mineração pelo grupo Santa Elina, para reunir os direitos minerais de ferro da família Brito no Pará. A mesma família controla a Aura Minerals, mineradora de ouro listada no exterior, e mantém operações de zinco e chumbo em Rondônia.

A planta experimental do Ferro Sul só entrou em operação em 2022, começando com 600 mil toneladas e subindo aos poucos até os atuais 2 milhões.

O trunfo da Ligga está na localização. A mina fica próxima á Estrada de Ferro Carajás, a mesma ferrovia que a Vale usa para levar seu minério até o terminal de Ponta da Madeira, em São Luís. Comprar uma fatia da vizinha e travar um contrato de fornecimento de longo prazo dá à Vale acesso a um volume de minério de qualidade sem os anos de licenciamento e o capital pesado de um projeto greenfield.

No comunicado enviado à CVM, a companhia descreve a lógica de incorporar reservas já consolidadas com baixa intensidade de capital e integração à infraestrutura que já existe.

A relação entre as duas não começou agora. Todo o minério fino que a Ligga produz já era vendido para a Vale. O acordo transforma essa relação comercial em societária e amarra num contrato exclusivo a compra de 100% da produção atual e futura.

A capacidade da mina da Ligga está em expansão e deve chegar a 8 milhões de toneladas por ano, com entrada em operação estimada para junho de 2028, nova planta de beneficiamento e uma solução ferroviária para eliminar o transporte por caminhão até a ferrovia.

"Essa operação é um passo natural na relação que construímos com a Vale e reforça nosso compromisso com a expansão sustentável do Projeto Ferro Sul", disse Gerson Petterle, CEO da Ligga, em comunicado.

O mercado de minério de ferro atravessa um período de preços pressionados e custos de frete em alta. Adicionar volume barato e logisticamente conveniente, sem obra de grande porte, é o tipo de movimento que cai bem num cenário assim.

Antes da Vale, a Cosan

A parte mais curiosa está no capítulo anterior da Ligga. Em 2021, a Rio Minas foi rebatizada quando a Santa Elina se juntou à Cosan numa joint venture ambiciosa. O plano era montar uma companhia integrada de mineração e logística, com porto próprio em São Luís.

A Cosan chegou a ofertar R$ 720 milhões pelo TUP Porto São Luís, comprado de um grupo chinês, e assinou um memorando com a família Brito para explorar minério de ferro no Pará, escoando pela mesma Estrada de Ferro Carajás. A nova empresa nasceria mirando cerca de 10 milhões de toneladas por ano, com plano de triplicar o volume. A entrada da Cosan na mineração foi anunciada em agosto daquele ano.

Na prática, era um projeto pensado para crescer por fora do corredor da Vale, com estrutura própria de escoamento. Não avançou.

Em outubro de 2022, a Cosan comprou 4,9% da Vale, numa operação avaliada em cerca de R$ 17 bilhões, com ambição de chegar a 6,5% e um desembolso total perto de R$ 22 bilhões. A holding mirava uma fatia bilionária na mineradora. Virar acionista relevante da Vale esvaziou o sentido de bancar uma operação que competiria com ela, e a joint venture ficou parada.

O nó só se desfez quando a Cosan zerou sua fatia na Vale, em janeiro de 2025, vendendo a participação restante por cerca de R$ 9 bilhões na maior venda de ações em bloco da história da B3. A sociedade entre Santa Elina e Cosan foi encerrada em 2026, segundo o Estadão, abrindo espaço para a Vale entrar direto no capital da Ligga.

A conclusão da operação ainda depende do aval do Cade.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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