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29/06/2026
6 min

Liquidada pelo BC, Sefer aparece em ação do Banco Master sobre ocultação de patrimônio

Liquidada pelo BC, Sefer aparece em ação do Banco Master sobre ocultação de patrimônio

A liquidação extrajudicial da Sefer Investimentos, decretada na última sexta-feira (26), lança luz sobre uma ação judicial em que a administradora aparece ligada a uma estrutura “espalhada por diversas jurisdições” que, segundo o liquidante do Banco Master, foi utilizada para movimentar recursos entre Brasil, Estados Unidos e Ilhas Cayman.

Uma ação movida pelo liquidante do banco de Daniel Vorcaro aponta uma estrutura que envolve o Dublin Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não-Padronizados (FIDC NP), administrado pela Sefer, uma empresa nos Estados Unidos e um veículo registrado nas Ilhas Cayman.

Na petição, o liquidante afirma que recursos transferidos pelo ecossistema do banco teriam percorrido essa estrutura e pede medidas para preservar ativos que poderão ser alvo de futuras ações de recuperação.

A liquidação da Sefer foi determinada pelo Banco Central sob o argumento de comprometimento da situação econômico-financeira da instituição, com risco anormal aos credores quirografários, além de graves violações às normas que regem sua atividade.

O processo que envolve o Dublin e a administradora foi protocolado em março na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo por empresas do Grupo Master em liquidação. O liquidante pede o chamado protesto contra alienação de bens, medida que dá publicidade à disputa e busca dificultar a venda ou transferência de patrimônio que poderá ser alvo de futuras medidas para recuperação de valores considerados potencialmente desviados.

A Sefer não é autora nem a principal ré da ação. Ela aparece no processo como administradora do Dublin e como representante, no Brasil, da Investments Horizon LLC, empresa estrangeira que, segundo o liquidante, integra a estrutura ligada ao veículo registrado nas Ilhas Cayman. A petição pede que a Sefer seja notificada nessa condição, assim como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a gestora Acura.

Na petição, o liquidante afirma haver “fundadas evidências” de que o Dublin integrou uma “estrutura espalhada por diversas jurisdições”, supostamente utilizada por “pessoas interpostas” para movimentação de recursos.

Segundo a ação, entre 2023 e 2025 o fundo recebeu “transferência de valores milionários” do Banco Master e de veículos de seu ecossistema em operações registradas como compra de direitos creditórios. O liquidante sustenta que parte desses recursos “não permaneceram no Brasil” e pede medidas para preservar futuras tentativas de recuperação de “valores potencialmente desviados”.

Ainda de acordo com o liquidante, os livros contábeis do Banco Master registram repasses recorrentes ao Dublin para suposta aquisição de direitos creditórios. A petição também afirma que parte das instruções de tesouraria relacionadas às operações teria sido encaminhada por Dino Garcia, descrito pelo liquidante como profissional contratado por Daniel Vorcaro após deixar a Sefer.

Segundo o liquidante, os recursos saíam do ecossistema do Banco Master para o Dublin FIDC e, a partir dali, passariam pela Investments Horizon LLC, empresa representada pela Sefer no Brasil, chegando à Centara Multimarket Fund Ltd. SPC, registrada nas Ilhas Cayman. Na visão apresentada na ação, essa estrutura internacional teria sido utilizada para fazer circular recursos por diferentes jurisdições.

Em resumo, a cadeia descrita pelo liquidante é:

Banco Master → Dublin FIDC → Investments Horizon LLC → Centara Multimarket Fund Ltd. SPC (Cayman).

A Centara Multimarket Fund possui CNPJ brasileiro ativo e aparece em bases cadastrais como empresa domiciliada nas Ilhas Cayman, com endereço em Willow House, Cricket Square, Georgetown — o mesmo citado na ação judicial.

A estrutura descrita pelo liquidante também dialoga com outros episódios revelados anteriormente. Reportagens mostraram que a Sefer atuava como representante, no Brasil, de empresas estrangeiras ligadas ao ecossistema de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

Não é a primeira vez que a Sefer aparece em episódios envolvendo o ecossistema do Banco Master. Durante a recuperação judicial da Fictor, por exemplo, a administradora foi apontada pela empresa como credora, afirmação que contestou. Segundo a administradora, ela apenas exercia a administração do fundo Krispy, em nome da offshore Master Titan Capital Holding, estrutura ligada a Daniel Vorcaro.

Mais recentemente, em abril, menos de um mês após o Banco Central determinar a indisponibilidade dos bens da offshore Titan Capital Holding, registrada nas Ilhas Cayman, uma nova holding de nome praticamente idêntico — Titan Capital Holdings Ltd. — foi aberta em Londres em nome de um produtor rural brasileiro, mas com objeto social típico de uma holding financeira.

  • Leia mais: Banco Master: Menos de um mês após BC bloquear offshore de Daniel Vorcaro, ‘nova’ Titan foi criada em Londres

O tombo do Dublin

Os informes enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que o Dublin passou a ter um investidor não residente nas cotas subordinadas em setembro de 2025. Os documentos públicos não identificam quem era esse cotista, mas ele permaneceu no fundo até abril de 2026.

O dado chama atenção porque, na ação judicial, o liquidante aponta justamente a Investments Horizon LLC — empresa estrangeira representada pela Sefer no Brasil — como integrante da estrutura utilizada nas operações investigadas. Os informes públicos, porém, não identificam o investidor estrangeiro nem permitem concluir que se trata da mesma pessoa jurídica.

Nos meses seguintes, o patrimônio líquido do fundo encolheu rapidamente. Em dezembro de 2025, o Dublin possuía patrimônio líquido de R$ 521,4 milhões. Em janeiro de 2026, o valor caiu para R$ 389,6 milhões. Em fevereiro, para R$ 352,6 milhões. Em março — o mesmo mês em que o liquidante ajuizou a ação — o fundo registrou um resgate de R$ 626,3 milhões em cotas subordinadas, fazendo o patrimônio líquido despencar para R$ 70,5 milhões. Em abril, permanecia praticamente no mesmo patamar, em R$ 71 milhões.

As cotas subordinadas são a classe que normalmente absorve primeiro eventuais perdas do fundo e costumam concentrar os investidores que assumem maior risco. O resgate dessa classe explica boa parte da redução do patrimônio líquido observada em março.

Paralelamente, o Banco Master passou a aparecer nos informes mensais do Dublin como cedente de direitos creditórios. Em fevereiro, março e abril de 2026, os documentos indicam o banco nessa condição. No último informe disponível, referente a abril, a exposição estimada aos créditos cedidos pelo Master era de R$ 35,6 milhões.

Embora o patrimônio líquido do Dublin fosse de apenas R$ 71 milhões naquele momento, o fundo mantinha ativos totais de R$ 604,9 milhões, carteira de direitos creditórios de R$ 237,5 milhões e passivo de R$ 534 milhões. A diferença decorre justamente da estrutura patrimonial do fundo: o patrimônio líquido corresponde ao saldo remanescente após o desconto dos passivos.

A ação judicial envolvendo o Dublin soma-se a outros processos recentes que mencionam a Sefer, Foco ou Índigo — denominações antigas ligadas à instituição. Em uma produção antecipada de provas no Rio de Janeiro, por exemplo, investidores citam operações envolvendo Benjamin Botelho, Daniel Vorcaro, Banco Master, Máxima e Foco/Índigo DTVM.

Até o momento, a ação possui natureza cautelar e busca preservar ativos para eventual recuperação futura de valores. Na petição, o liquidante sustenta que a medida é necessária para evitar que ativos eventualmente relacionados à estrutura sejam transferidos antes do ajuizamento das ações destinadas à recuperação dos recursos que considera potencialmente desviados.

A reportagem não conseguiu contato com a Sefer e o Banco Master.

AutorVitor Azevedo
FonteMoney Times
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