Lojas esvaziadas e conta bloqueada: os detalhes da crise de R$ 265 milhões do Habib's
Dona de Habib's, Ragazzo e Tendal, a Gennius diz que a Selic e os aplicativos de entrega derrubaram o movimento nas lojas — e que perder o sistema da Oracle levaria a operação ao colapso

Dois mesesdepois de recorrer à Justiça para negociar com os bancos, o grupo dono do Habib's acionou o mecanismo da recuperação judicial para se reestruturar de uma dívida de 265,2 milhões de reais.
Por trás da crise, a empresa aponta três motivos: o esvaziamento dos centros urbanos na pandemia, o avanço dos aplicativos de entrega sobre as lojas físicas e a alta dos juros.
O Grupo Gennius controla três marcas conhecidas do brasileiro:
- O Habib's, fundado em 1987 e apresentado no processo como a maior rede de comida árabe do mundo.
- O Ragazzo, das coxinhas e salgados.
- As churrascarias Tendal.
Entraram no pedido 119 lojas do Habib's, 26 do Ragazzo, seis churrascarias, 17 sociedades de estrutura operacional e dez franqueadoras e holdings, empresas que controlam participações em outras companhias. Cada pedaço da operação tem seu próprio CNPJ.
A decisão que aceitou o pedido é do juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo, e saiu na manhã de 25 de agosto, um dia depois do protocolo. O magistrado deferiu o processamento, nomeou a KPMG Corporate Finance como administradora judicial e suspendeu as execuções contra o grupo.
Mas negou dois pedidos que a empresa havia colocado como urgentes.
O primeiro deles era liberar o dinheiro que os bancos retêm em contas vinculadas a empréstimos. A defesa do grupo argumentou que a proteção judicial não pode se limitar a máquinas e equipamentos. "Com o perdão da franqueza, não é maquinário algum, por mais importante que seja, que paga a folha de funcionários das Requerentes", diz a petição.
Agora o relógio corre. O grupo tem 60 dias improrrogáveis para apresentar o plano de recuperação, o documento que vai dizer aos credores quanto e quando pretende pagar.
Uma esfirra de 50 centavos e 178 empresas
A petição dedica um capítulo inteiro a explicar como o grupo se organizou.
A resposta é verticalização: em vez de comprar de terceiros, produzir tudo. Na bib'sfiha de queijo, segundo o documento, o grupo faz desde a massa até o queijo do recheio. A massa é aberta na hora, o que a inicial descreve como atípico para uma rede de fast-food.
Foi essa estrutura que bancou as campanhas de preço que marcaram a marca. O documento lembra que o grupo já vendeu quibes e esfirras a 50 centavos cada.
A contrapartida é uma teia societária difícil de desatar. A inicial afirma que as empresas do grupo têm avais e garantias cruzadas entre si, de modo que a dívida de uma é, em boa parte, dívida das outras. Por isso o pedido foi feito em conjunto, com um único plano para todas.
Entraram no processo também dois nomes de pessoa física: Alberto Saraiva e Belchior Saraiva Neto, os administradores da empresa.
"Alberto e Belchior são os responsáveis por toda a ideologia do Grupo Gennius – tendo sido pioneiros na implementação do conceito de verticalização no ramo de
alimentação, buscando um controle total de toda a cadeia produtiva e buscando oferecer produtos de qualidade e preço justo para atrair o consumidor e proporcionar uma boa experiência. Assim, além do grande foco em suas lojas, também possuem indústrias, laticínios, panificadoras, e ainda se vocacionaram a atividade agropecuária", diz a petição.
Em 1977 eles herdaram, junto com a mãe, a Estância Santa Edina, propriedade rural registrada no Paraná onde criam gado. Por serem classificados como produtores rurais, e sendo avalistas de boa parte das operações financeiras do grupo, a defesa sustentou que o patrimônio deles precisa da mesma proteção.
Quais foram os motivos da crise
A explicação da empresa para a crise tem três camadas, e todas passam pela pandemia.
"Ali, sem dúvidas, começou a se verificar um descompasso entre os investimentos feitos – lojas e mais lojas do Grupo Gennius para atender à demanda aos grandes centros de aglomeração, como shoppings centers e centros urbanos das principais cidades brasileiras – e a receita obtida", diz a petição.
A primeira é geográfica. O grupo tinha aberto lojas em shoppings e centros urbanos das principais capitais, e foi justamente ali que o movimento sumiu.
O documento afirma que o trabalho híbrido se consolidou e reduziu de forma estrutural a circulação diária de trabalhadores nessas regiões. Quem passava na frente da loja no caminho do escritório parou de passar.
A segunda é o delivery. Os aplicativos ajudaram a vender, reconhece o documento, mas comprimiram a margem das lojas físicas. A inicial resume assim: "as pessoas deixaram de ir ao restaurante e passaram a pedir mais comida em casa".
A terceira é o custo do dinheiro. Segundo a empresa, a taxa Selic saltou de 4% para números próximos de 15%, e a maior parte das dívidas do grupo havia sido contraída na pandemia, quando os juros estavam baixos. O encarecimento atingiu o capital de giro e gerou atrasos com fornecedores.
"Diante do endividamento bancário elevado, parcela cada vez maior do fluxo de caixa gerado pelas atividades da companhia passou a ser absorvida pelo serviço da dívida, limitando sua capacidade de investimento, restringindo sua flexibilidade financeira e agravando o quadro de desequilíbrio econômico-financeiro que culminou no presente pedido recuperacional", diz.
O passivo listado na recuperação é de 265,2 milhões de reais, divididos em 22,3 milhões de créditos trabalhistas, 241,7 milhões de credores sem garantia real e 1,1 milhão de micro e pequenas empresas.
O bloqueio da conta
O trecho mais concreto da petição descreve o que aconteceu entre junho e agosto, quando o grupo já tinha proteção judicial pela tutela cautelar e negociava com os credores.
Segundo o documento, o Banco Daycoval adotou medidas contra os recebíveis que circulavam em contas do grupo e chegou a bloquear o login de acesso ao internet banking, o que impedia até a consulta ao saldo. O Banco Itaú, ainda de acordo com a inicial, fez débitos automáticos de valores existentes nas contas correntes mesmo estando ciente da proteção em vigor.
A petição usa esses dois casos para argumentar que o risco não era hipotético. E resume o raciocínio em uma frase: "uma empresa sem caixa não sobrevive, independentemente de quantos bens de capital possua".
O medo de perder os dados
Entre os pedidos de proteção contra corte de serviços essenciais, um destoa da lista de água, luz e telefone. É a Oracle.
Todo o sistema interno, os dados e os documentos da operação do grupo são geridos pela empresa americana na modalidade cloud, armazenamento remoto em servidores. A inicial afirma que ali estão não só os documentos de gestão, mas os dados de todos os fornecedores e de toda a cadeia produtiva.
O receio descrito no processo é que uma fatura em aberto seja tratada como inadimplência e leve ao corte do acesso, ou à exclusão do que está guardado. "Trata-se de documentação que, se excluída ou perdida, levaria indubitavelmente ao ocaso do Grupo Gennius", diz o documento.
O que a empresa promete fazer
A inicial trata a situação como passageira. Fala em "momentânea, porém transitória, dificuldade financeira" e afirma que o grupo tem condições de se reerguer.
Entre as medidas listadas para curto e médio prazo estão a reorganização societária do conglomerado, a abertura de pontos em mercados em crescimento e novos formatos de loja, desenhados para delivery, drive-thru e consumo em viagem.
A leitura implícita é que a rede vai deixar de apostar no metro quadrado dos grandes centros que a pandemia esvaziou.
O documento também faz questão de delimitar o que está pedindo. "Não se busca aqui um perdão de dívida, mas tão somente encontrar uma forma capaz de compatibilizar os interesses dos credores com a manutenção da atividade do Grupo Gennius", afirma a petição.
Com o deferimento da recuperação judicial, os passivos ficam bloqueados.
Em nota, a empresa fala que o objetivo da recuperação judicial é preservar a sustentabilidade e a evolução do negócio no longo prazo.
"As operações do Grupo seguem funcionando normalmente, mantendo o atendimento aos clientes, a rotina e a qualidade de suas unidades. Presente na vida dos brasileiros há quase 40 anos, a companhia segue comprometida com a força de suas marcas, a evolução de seu negócio e a continuidade de uma história construída ao lado de milhões de brasileiros", diz.
