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Sacre Investimentos
InvestMercadosCMDT
03/11/2026
7 min

Lucro da Isa Energia vai a R$ 1,9 bilhão e receita cresce 41% no trimestre

Sem ganho contábil, lucro recorrente sobe 13,7%, para R$ 625,5 milhões

Lucro da Isa Energia vai a R$ 1,9 bilhão e receita cresce 41% no trimestre
  • A Isa Energia (ISAE4) teve lucro líquido regulatório de R$ 1,9 bilhão no terceiro trimestre, mais que o triplo de um ano antes.
  • Desse total, R$ 1,28 bilhão é efeito contábil da troca de participações com a Axia, sem entrada de dinheiro no caixa.
  • Sem esse efeito, o lucro foi de R$ 625,5 milhões, alta de 13,7%, e é essa base que servirá para calcular os dividendos.
  • A receita líquida cresceu 40,9%, para R$ 1,51 bilhão, com a consolidação da IE Madeira e três novos projetos em operação.
  • O CEO Rui Chammas diz que a empresa não tem como objetivo voltar ao greenfield e mantém cautela com o leilão de baterias.

A Isa Energia (ISAE4) registrou lucro líquido regulatório de R$ 1,905 bilhão no terceiro trimestre de 2026, alta de 246,3% sobre os R$ 550 milhões de um ano antes. O número, no entanto, é inflado por um ganho contábil que não passa pelo caixa da transmissora e que, por decisão da própria companhia, ficará fora da conta dos dividendos.

O efeito vem do descruzamento de participações com a Axia Energia, concluído em 31 de julho. Na operação, a Isa ficou com 100% da IE Madeira, concessionária de 2.385 quilômetros de linhas em corrente contínua, e deixou a IE Garanhuns. Excluído esse ganho, já líquido de impostos, o lucro do trimestre foi de R$ 625,5 milhões, R$ 75,5 milhões acima do terceiro trimestre de 2025, uma alta de 13,7%.

"É um trimestre em que a gente está entregando uma foto muito clara daquilo que a gente vem prometendo", afirmou Rui Chammas, CEO da companhia, em entrevista à EXAME.

De onde vem o lucro bilionário

O descruzamento gerou um efeito contábil positivo, não recorrente e sem impacto no caixa de R$ 1,938 bilhão antes de impostos. A maior parte, R$ 1,211 bilhão, corresponde à reavaliação a valor justo dos 51% que a Isa já tinha na IE Madeira. Outros R$ 655,2 milhões são o chamado ganho por compra vantajosa dos 49% adicionais, e R$ 72,1 milhões vêm da venda da fatia em Garanhuns.

Descontados R$ 659 milhões de imposto de renda e contribuição social associados à operação, sobra um ganho líquido de R$ 1,279 bilhão, cerca de dois terços do lucro reportado. Para fechar o negócio, a Isa pagou uma torna de R$ 1,2 bilhão à Axia.

Receita cresce com novos projetos e IE Madeira

A receita líquida somou R$ 1,511 bilhão, alta de 40,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Pesaram a favor o início do recebimento de R$ 478,9 milhões em Receita Anual Permitida (RAP) dos projetos Riacho Grande, Jacarandá e Piraquê, energizados entre outubro de 2025 e junho de 2026, e a consolidação integral da IE Madeira a partir de agosto, que acrescentou R$ 144,5 milhões. O reajuste do ciclo tarifário pela inflação de 4,72% também contribuiu.

Para o ciclo 2026/2027, a RAP da companhia chegou a R$ 7,08 bilhões após o descruzamento, R$ 708,9 milhões a mais que no ciclo anterior. Só a IE Madeira adicionou R$ 390,4 milhões, enquanto a saída de Garanhuns tirou R$ 84,3 milhões.

O Ebitda regulatório chegou a R$ 3,19 bilhões. Sem o efeito contábil, ficou em R$ 1,252 bilhão, também com alta de 40,9%. Os custos gerenciáveis de pessoal, materiais e serviços subiram 17%, para R$ 217 milhões, pressionados pelo acordo coletivo e pela incorporação da IE Madeira.

Dividendos não vão incorporar o ganho contábil

A Isa tem como prática distribuir ao menos 75% do lucro líquido regulatório. Neste ano, a base de cálculo será o lucro sem o efeito do descruzamento, que somou R$ 1,157 bilhão nos nove primeiros meses, alta de 1,2% sobre o mesmo período de 2025.

Em setembro, o conselho aprovou R$ 398,7 milhões em juros sobre capital próprio (JCP), ou R$ 0,566877 por ação, referentes ao primeiro semestre. O valor foi dividido em três parcelas de R$ 0,188959. A primeira ficou ex-direito em 9 de outubro. As demais têm data-base em 9 e 25 de novembro, com ações negociadas ex-direito nos dias seguintes. Todo o pagamento está previsto para 7 de dezembro.

Dívida maior, custo menor

A dívida líquida encerrou setembro em R$ 17 bilhões, alta de 20,5% em relação a dezembro, puxada por novas emissões de debêntures e pela incorporação da dívida da IE Madeira. O aumento foi parcialmente compensado pelo follow-on de julho, que levantou R$ 1,2 bilhão com a venda de 44,4 milhões de ações preferenciais a R$ 27 cada. Metade desse dinheiro foi usada na torna paga à Axia e a outra metade irá para reforços e melhorias.

A despesa financeira líquida subiu 18,7% no trimestre, para R$ 348,1 milhões. Ainda assim, o custo médio nominal da dívida recuou para 11,80% ao ano, ante 12,36% em dezembro, com a troca de dívidas mais caras feita no primeiro trimestre.

Silvia Wada, diretora financeira da Isa, minimiza o risco de juros. "A nossa dívida, só um terço é indexada ao CDI. 60% é IPCA", diz. Segundo ela, como a receita das transmissoras também é corrigida pela inflação, a empresa tem um hedge natural. "Se for uma economia mais inflacionária, a gente pesa nessa despesa financeira, mas também corrige as nossas receitas."

A alavancagem medida pela metodologia do BNDES ficou em 3,50 vezes em setembro, ante 3,63 vezes em dezembro. Os contratos com o banco, que somam R$ 649,9 milhões, preveem limite de 3 vezes, apurado anualmente, e o BNDES formalizou em novembro de 2025 sua anuência em relação ao indicador do exercício passado.

Para Silvia, um patamar ao redor de 4 vezes dívida líquida sobre Ebitda é "bastante adequado, saudável para uma transmissora" com receitas estáveis e reguladas.

Menos greenfield, mais reforço

Os investimentos totalizaram R$ 1,103 bilhão no trimestre, queda de 8,5%. Com menos obras novas em andamento, o aporte em projetos greenfield caiu 31,6%, para R$ 524,9 milhões. Já os reforços e melhorias, que modernizam ativos já existentes, cresceram 32,1%, para R$ 578,5 milhões. A carteira autorizada nessa frente chegou a R$ 7,6 bilhões, alta de 5,1% sobre junho.

Restam em construção os projetos Serra Dourada, com 64% de avanço físico, e Itatiaia, com 35%, que somam RAP de R$ 596,9 milhões e cerca de R$ 4,1 bilhões em investimentos a realizar. "Temos 12 bilhões para investir nos próximos anos, não é pouco dinheiro", diz Chammas.

O CEO afasta a ideia de que a empresa precise retomar o apetite por leilões de novas linhas. "A gente não tem o objetivo de voltar para o greenfield. Nosso objetivo é construir uma infraestrutura de transmissão, operar e manter com qualidade, alocando o capital da melhor maneira possível", afirma. "A gente brinca muito entre nós que o leilão gera frisson."

Cautela com o leilão de baterias

A mesma prudência vale para o leilão de reserva de capacidade em baterias. Segundo Silvia, ainda há incerteza regulatória sobre o rateio do encargo, tema de uma consulta pública e de um projeto de lei que tramita em regime de urgência na Câmara, além de uma discussão sobre modicidade tarifária na participação de transmissoras.

Ela cita também a volatilidade econômica e a espera pela proposta do novo governo para a política fiscal. "Estamos estudando com bastante cautela e ponderação e não temos uma definição nesse sentido", diz.

Sobre a oscilação das ações no pós-eleição, Chammas diz evitar acompanhar a tela de perto. "Se eu ficar olhando a ação, eu vou ter fortes emoções. Prefiro guardar minhas emoções para o que a gente está fazendo no dia a dia, que é criar valor de verdade." No terceiro trimestre, a ISAE4 recuou 1,8%, para R$ 27,59, enquanto o Ibovespa subiu 8,3%. No período, o papel passou a integrar índices MSCI de mercados emergentes como small cap.

Disputa bilionária com São Paulo

A empresa segue em mediação com o governo paulista na ação de cobrança contra a Secretaria da Fazenda (Sefaz), que discute a complementação de aposentadorias de ex-funcionários paga pela Isa desde 2005. O valor registrado no balanço é de R$ 2,87 bilhões. Quatro audiências foram realizadas em 2026 e a próxima ficou para 2027, ainda sem data.

Segundo Chammas, o ritmo das conversas desacelerou durante a campanha para o governo do estado, como já se esperava. "Passado o processo eleitoral, a gente deve retomar uma velocidade maior, como a gente já teve no passado."

 

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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