Lucro dos bancões cresce no 3T26, mas a conta dos juros chega: Santander perde força, Bradesco desacelera e Itaú mantém a dianteira
A temporada terminou com lucro conjunto de R$ 22,61 bilhões, mas a pressão sobre consumidores e empresas deixou marcas diferentes nas três instituições

O lucro dos três maiores bancos privados de varejo do Brasil cresceu no terceiro trimestre, mas o resultado não foi igual para todo mundo. Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB11) somaram R$ 22,61 bilhões no período, avanço de 2,4% em relação ao mesmo trimestre do ano passado.
Por trás do número, porém, os balanços mostram como cada instituição vem lidando com o crédito mais caro e a pressão sobre o orçamento de famílias e empresas.
O Santander sentiu os efeitos com mais intensidade, com queda do lucro e da rentabilidade.
O Bradesco manteve a trajetória de recuperação, embora o cenário econômico tenha limitado a melhora dos indicadores.
Já o Itaú preservou resultados mais estáveis e seguiu com o maior retorno sobre o patrimônio entre os três.
Juros altos e incerteza fiscal no radar dos bancos
O cenário econômico ajuda a explicar as diferenças entre os resultados e também representa um desafio para os próximos trimestres.
Com a renda das famílias comprometida por dívidas e o custo dos empréstimos ainda elevado, consumidores e empresas têm menos espaço no orçamento para honrar seus compromissos.
Para os bancos, isso se traduz em maior risco de inadimplência e na necessidade de reforçar as provisões para eventuais calotes.
A perspectiva de alívio também ficou mais distante. A reação dos mercados à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trouxe novamente as preocupações com a trajetória das contas públicas.
Até agora, o governo deu poucos sinais de que pretende promover um ajuste fiscal significativo, considerado uma das condições para que o Banco Central tenha espaço para reduzir a Selic, atualmente em 13,75% ao ano, em um ritmo mais acelerado.
Na avaliação de analistas do Citi, a perspectiva de juros elevados por mais tempo também influencia a forma como o mercado avalia os bancos.
"O contexto pós-eleitoral reforça um cenário de taxas de juros elevadas por um período prolongado, aumentando a atratividade de negócios [bancários] com lucros previsíveis, forte retorno de capital e geração de caixa no curto prazo", afirmam.
Nesse contexto, a capacidade de preservar a rentabilidade sem comprometer a qualidade da carteira ganha ainda mais importância. E os balanços do terceiro trimestre mostram que cada instituição parte de uma situação diferente.
Bradesco avança na recuperação, mas cenário limita melhora
O Bradesco, que abriu a temporada de balanços dos grandes bancos, manteve a sequência de avanços em sua recuperação. A instituição registrou o 11º trimestre consecutivo de crescimento do lucro líquido na comparação com o período imediatamente anterior, chegando a R$ 7,1 bilhões.
O resultado foi sustentado pela resiliência das receitas com serviços e pelo controle das despesas. Ainda assim, a melhora do lucro não se traduziu em avanço da rentabilidade: o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) recuou para 15,6%.
Parte desse movimento, porém, está relacionada ao aumento de capital de R$ 10 bilhões realizado pelo banco. Sem o efeito da operação, o indicador teria ficado praticamente estável, em 16,1%.
Ao apresentar os resultados, o presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, reconheceu que o ambiente econômico exige cautela. "Com comprometimento da renda das famílias maior e endividamento das empresas, temos que ter mais cautela e andar mais devagar", afirmou.
Santander registra queda de lucro e rentabilidade
No Santander Brasil, a pressão sobre os resultados foi mais intensa. O lucro líquido caiu 28% em relação ao terceiro trimestre do ano passado, para R$ 2,9 bilhões. O retorno sobre o patrimônio líquido também recuou, para 11,9%, uma queda de 5,6 pontos porcentuais na comparação anual.
O desempenho fica distante da meta estabelecida pela matriz espanhola, que pretende elevar a rentabilidade da operação brasileira a 20% até 2028.
Os números também repercutiram na Europa: as ações do grupo Santander negociadas em Madri recuavam 5%, influenciadas em parte pelo desempenho no Brasil.
Entre os desafios da operação estão a deterioração das carteiras de agronegócio e de clientes de baixa renda, segmentos mais sensíveis às dificuldades de pagamento.
O banco também passa por um processo de rebalanceamento de sua carteira, que deve contribuir para a recuperação dos indicadores, mas envolve ajustes ao longo do caminho.
Em teleconferência com analistas, o presidente do Santander Brasil, Gilson Finkelsztain, reconheceu que a rentabilidade está abaixo do patamar desejado, mas ponderou que o resultado precisa ser considerado à luz do cenário econômico e das mudanças em andamento na instituição.
"São números obviamente abaixo do patamar de rentabilidade que buscamos", afirmou. "Ao mesmo tempo, precisam ser considerados o cenário macroeconômico que estamos passando e o processo de rebalanceamento do banco."
O desafio, portanto, é recuperar a rentabilidade sem perder de vista a qualidade do crédito. Em um ambiente de juros elevados, esse processo pode levar mais tempo, especialmente diante da pressão sobre algumas das principais carteiras do banco.
Itaú mantém maior rentabilidade entre os três
O Itaú encerrou o trimestre em uma posição mais confortável. O banco registrou lucro líquido de R$ 12,617 bilhões e ROE de 23,6%, o maior entre as três instituições. O resultado ficou relativamente estável e refletiu a disciplina na gestão do crédito e dos custos.
A estratégia de priorizar linhas de crédito consideradas mais seguras, adotada antes mesmo da piora do ciclo econômico, ajuda a explicar a resiliência dos indicadores. Isso não significa, porém, que o Itaú tenha passado pelo trimestre sem pontos de atenção.
A geração de receitas teve desempenho mais fraco, principalmente na área de banco de investimento, mostrando que a instituição também enfrenta dificuldades em algumas frentes de negócio. Ainda assim, o resultado geral foi considerado positivo pela administração.
Em entrevista à Broadcast, o diretor de Estratégia Corporativa, Relações com Investidores e M&A Proprietário do Itaú, Renato Lulia, destacou o desempenho do banco na comparação com os concorrentes.
"Os resultados vieram muito bem em termos absolutos e melhor ainda em termos relativos, quando comparados com os desempenhos de outros nomes no mercado", afirmou.
*Com informações do Estadão Conteúdo.
