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Sacre Investimentos
Exame INACS
08/08/2026
5 min

Lucro recorde da Petrobras injeta R$ 93,6 bi nos cofres públicos, mas efeito é limitado

Montante equivale a mais de 55% da receita de vendas do trimestre, que somou R$ 169,5 bilhões

Lucro recorde da Petrobras injeta R$ 93,6 bi nos cofres públicos, mas efeito é limitado

A Petrobras fechou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 52,4 bilhões, alta de 96,8% na comparação anual. Como uma empresa de economia mista, controlada pelo Governo Federal brasileiro, parte do resultado retorna aos cofres públicos. No período, a empresa injetou R$ 93,6 bilhões nas contas do Governo.

O montante equivale a mais de 55% da receita de vendas do trimestre, que somou R$ 169,5 bilhões. Um trimestre de resultados recordes, impulsionado pelo Brent mais alto e pelo aumento da produção de óleo e derivados.

A origem desse valor é mista. A tributação à empresa totalizou R$ 88,6 bilhões, conforme declarado. Já o papel do governo como detentor de 29% das ações será responsável por adicionais R$ 6,3 bilhões, parte proporcional dos R$ 17,4 bilhões que a Petrobras relatou que distribuirá a todos os acionistas.

Além da União, o BNDES receberá R$ 1,39 bilhão da petrolífera enquanto acionista, completando um repasse total ao setor público de R$ 95 bilhões.

Para o Governo Federal, que registrou um rombo de R$ 92,2 bilhões até junho, o bom resultado da Petrobras fortalece os cofres públicos, mas o efeito é limitado.

Como o Estado teve esse repasse

O dinheiro que a Petrobras passa ao Estado chega por dois caminhos distintos.

O primeiro é a tributação. Como qualquer empresa que opera no país, a Petrobras paga participações governamentais sobre a exploração de petróleo, PIS/Cofins, Imposto de Renda, CSLL e outros tributos à União, estados e municípios — um fluxo que independe de o governo ser ou não acionista da companhia.

No segundo trimestre, esse total somou R$ 88,6 bilhões, conforme divulgado pela própria Petrobras, sem abertura por ente federativo.

O segundo caminho é o de acionista. Segundo a composição acionária da Petrobras com data-base em junho de 2026, o Governo Federal detém 29% do capital total da companhia, via ações ordinárias.

O BNDESPar participa com 6,98%, e o BNDES detém uma fatia adicional e direta de 1%, ambas via ações preferenciais. Juntos, os três braços do setor público somam 36,26% do capital da empresa.

Aplicando esses percentuais sobre os R$ 17,4 bilhões em proventos aprovados pela Petrobras relativos ao resultado do trimestre, o Governo Federal teve direito a uma fatia de aproximadamente R$ 5 bilhões.

O BNDESPar ficou com cerca de R$ 1,08 bilhão, e o BNDES direto, com R$ 182,7 milhões — o que eleva a fatia combinada do banco de fomento a aproximadamente R$ 1,26 bilhão em dividendos no trimestre.

Origem do recurso Beneficiário Valor no 2T26
Tributos (União + estados + municípios) Setor público em geral (sem abertura por ente) R$ 88,6 bilhões
Dividendos/proventos (participação acionária) Governo Federal (29,02% do capital) R$ 5,05 bilhões
Dividendos/proventos (participação acionária) BNDESPar (6,98% do capital) R$ 1,21 bilhão
Dividendos/proventos (participação acionária) BNDES direto (1,05% do capital) R$ 0,18 bilhão
Subtotal BNDES (BNDESPar + direto) BNDES (7,24% do capital) R$ 1,39 bilhão
Total Governo Federal (tributos + dividendos) Governo Federal R$ 93,65 bilhões
Total geral repassado ao setor público Governo Federal + BNDES/BNDESPar R$ 95,04 bilhões

O lucro líquido da Petrobras no trimestre de R$ 52,4 bilhões, ou R$ 55,8 bilhões sem itens não recorrentes, não é integralmente repassado a acionistas. Parte fica retida na companhia para investimentos, reservas e reforço de caixa; outra parte é distribuída na forma de dividendos, proporcionalmente à participação de cada acionista no capital da empresa.

No segundo trimestre, a empresa aprovou a distribuição de R$ 17,4 bilhões em proventos aos acionistas. Além dos dividendos direcionados aos órgaos estatais, o restante dos proventos — cerca de R$ 11,1 bilhões — será destinado aos demais acionistas, entre eles investidores brasileiros, investidores não-brasileiros e ADRs negociados na bolsa de Nova York, que juntos somam mais de 63% do capital em free float da companhia.

Com o gasto público crescendo em ritmo mais que o dobro do das receitas — as despesas primárias avançaram 12,3% em termos reais no semestre, contra alta de 5,6% na receita líquida —, o resultado da petrolífera ajuda, mas não consegue reverter o desequilíbrio fiscal do governo.

O que isso representa para as contas públicas

Diante do rombo fiscal brasileiro, o repasse da Petrobras pode funcionar mais como um alívio pontual, de efeito limitado. A arrecadação federal chegou chegou a R$ 810 bilhões no segundo trimestre de 2026, um valor 8,6 vezes maior que os R$ 93,65 bilhões que a petrolífera distribuirá ao Governo pelo mesmo período.

Além disso, o crescimento das despesas superou o das receitas, resultando no rombo primário do semestre.

O Governo Federal apresentou em junho um déficit primário de R$ 48 bilhões, resultado R$ 4 bilhões acima do de junho do ano passado, e acumulou no ano um débito deR$ 92 bilhões, o segundo pior resultado da série histórica do Tesouro Nacional, iniciada em 1997, atrás apenas de 2020.

O Tesouro Nacional e o Banco Central, juntos, fecharam o semestre com superávit de R$ 144 bilhões. Já a Previdência Social (RGPS) acumulou déficit de R$ 236 bilhões no mesmo período, o principal fator de pressão sobre o resultado consolidado do Governo Central.

Com o gasto público crescendo em ritmo mais que o dobro do das receitas — as despesas primárias avançaram 12,3% em termos reais no semestre, contra alta de 5,6% na receita líquida —, o resultado da petrolífera integra os altos ganhos do Governo, mas não compensa as perdas.

 

AutorPaloma Lazzaro
FonteExame
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