Lucros das big techs dependem de promessa ousada da IA no 2º trimestre
Gigantes de tecnologia precisam entregar ganhos de produtividade para justificar gastos

O mercado entrou na temporada de balanços das gigantes de tecnologia apostando que os investimentos bilionários em inteligência artificial (IA) serão acompanhados por um ganho de eficiência sem precedentes.
Mas, para que as projeções de lucro de empresas como Microsoft, Meta, Amazon, Alphabet e Oracle se confirmem, elas terão de aumentar a receita em ritmo muito maior do que o crescimento dos custos, segundo avaliações de especialistas ao Wall Street Journal (WSJ).
Agora, o mercado aguarda os resultados de Microsoft e Meta na quarta-feira, 29, seguidos pelo balanço da Amazon, na quinta-feira, 30.
Já a Alphabet, que é dona do Google, superou as expectativas do 2º trimestre, com lucro operacional de US$ 40,8 bilhões e receita de US$ 119,8 bilhões. Quem também bateu as metas dos analistas no último balanço foi a Oracle, com lucro ajustado por ação de US$ 1,79, acima da média da LSEG de US$ 1,70.
Projeções dependem de uma forte redução de despesas
As estimativas compiladas pela Visible Alpha e divulgadas pelo WSJ indicam que as cinco empresas devem quase dobrar sua receita até 2029. Os analistas esperam, além disso, que as margens operacionais do grupo avancem para cerca de 31% no período, acima dos 27% no ano passado.
Parte dessa melhora depende da expectativa de que os gastos com vendas, administração e gastos corporativos (SG&A, em inglês) consumam uma fatia menor da receita nos próximos anos.
Pelas projeções, esses custos cairiam de 10% para 8% do faturamento na ocasião, mesmo com a rápida expansão das operações, uma economia de cerca de US$ 77 bilhões em 2029, em comparação com um cenário em que essas despesas permanecessem no mesmo peso registrado atualmente.
IA terá de entregar ganhos inéditos de produtividade
Além disso, à medida que data centers e equipamentos de IA entram em operação, as despesas com depreciação tendem a crescer. Caso esses custos avancem acima do esperado, reduzir o SG&A pode não ser suficiente para preservar as margens projetadas por Wall Street.
Fontes consultadas pelo WSJ destacam que parte das estimativas pode ter sido construída a partir das metas de receita e lucro divulgadas pelas próprias empresas, com as despesas sendo ajustadas depois para que as contas fechassem. Essa hipótese é reforçada pelas projeções para a Oracle.
Enquanto as estimativas de receita para o ano fiscal de 2029 apresentam pouca dispersão entre os analistas, as previsões para despesas com vendas, administração e depreciação variam muito mais, indicando maior incerteza nas linhas de custos.
Na Oracle, o consenso prevê margens operacionais próximas de 31% até 2029 e avanço para 33% em 2030. Ao mesmo tempo, as despesas administrativas cairiam de 15% para apenas 6% da receita, mesmo com a expectativa de forte crescimento dos negócios devido à parceria com a OpenAI.
Fluxo de caixa também entra no radar
O professor de contabilidade da Purdue University e fundador da CAE Consulting, Kevin Koharki, complementou, ainda, que as projeções para as despesas administrativas parecem excessivamente otimistas. Ele vê que períodos de crescimento acelerado normalmente exigem aumento proporcional de outros gastos.
"Parece que os analistas, para manter as margens operacionais estáveis ou em leve crescimento, estão presumindo que qualquer aumento na depreciação será diretamente compensado por uma redução nas despesas de SG&A. Não consigo imaginar um cenário em que isso tenha acontecido antes", detalhou ao WSJ.
Caso esses ganhos de produtividade não se concretizem, o impacto não ficará restrito aos lucros. Como boa parte das despesas administrativas representa desembolso em caixa, o especialista relatou que uma alta acima do previsto reduziria o fluxo de caixa operacional necessário para financiar a IA.
Neste cenário, as empresas poderiam precisar recorrer a dívidas ou à emissão de ações para sustentar o ritmo de investimentos. O WSJ destaca que Amazon e Oracle já operam com fluxo de caixa livre negativo. A Alphabet também passou a consumir caixa para financiar seus investimentos.
