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Sacre Investimentos
Mundo
20/09/2026
4 min

Lula chega a Nova York para agenda enxuta na ONU, com artigo pró-multilateralismo no Financial Times

A duas semanas das eleições, presidente concentra a viagem em 48 horas e assina, com outros três líderes, um apelo pela reforma das instituições globais

Lula chega a Nova York para agenda enxuta na ONU, com artigo pró-multilateralismo no Financial Times

Nova York — Neste domingo, 20, o presidente Lula desembarca no aeroporto internacional John F. Kennedy (JFK), em Nova York, por volta das 18h30 (horário local), para uma passagem curta e concentrada pela Assembleia Geral da ONU.

A agenda em solo americano é enxuta. Embora a equipe que acompanha o presidente tenha informado, em briefing para jornalistas em Nova York, ter recebido mais de 30 pedidos de reuniões bilaterais, há poucos compromissos confirmados até agora.

Entre eles está um encontro com o prefeito da cidade, Zohran Mamdani, na segunda-feira, 21, e o discurso de abertura do Debate Geral, na manhã de terça, 22. Logo depois de falar da tribuna, Lula deixa a ONU rumo ao aeroporto, de volta ao Brasil no mesmo dia.

A pouco mais de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras, as preocupações domésticas parecem se sobrepor, neste momento, à agenda internacional e ao próprio multilateralismo que o presidente deve defender do púlpito.

A janela em Nova York, de pouco mais de 48 horas, mede essa escolha de prioridades.

Por que a viagem é tão curta?

Na segunda-feira, 21, um dos primeiros compromissos a reunir chefes de Estado é a cúpula Partners for Multilateralism (P4M), copresidida por União Europeia, Quênia e Canadá.

O encontro, realizado na sede da ONU à margem do Debate Geral, marca o lançamento formal da iniciativa que visa juntar países de diferentes regiões em defesa do sistema multilateral e da prosperidade inclusiva.

Ainda que fique de fora da solenidade mesmo estando em Nova York, Lula formalizou o apoio brasileiro antes mesmo de seu avião pousar neste domingo.

O presidente é um dos quatro signatários de um artigo publicado neste domingo pelo Financial Times, ao lado do presidente do Conselho Europeu, António Costa, do presidente do Quênia, William Ruto, e do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.

O principal objetivo declarado é apoiar a reforma da ONU e de outras instituições para torná-las mais representativas, legítimas e eficazes, além de fortalecer a cooperação entre organizações regionais e aprimorar a governança econômica global.

O texto apresenta a iniciativa P4M, não como um bloco fechado, mas um arranjo aberto e flexível para aproximar países dispostos a trabalhar apesar de suas divergências, em torno de princípios que consideram inegociáveis.

Entre os quais, citam a igualdade soberana, a integridade territorial, a solução pacífica de controvérsias, a proibição do uso da força e o direito internacional humanitário.

O documento parte do que os autores chamam de paradoxo: "A comunidade global é mais interdependente do que nunca, mesmo à medida que se torna mais fragmentada e polarizada", escrevem, rejeitando a ideia de que o sistema multilateral fracassou e defendendo que ele evolua.

"A cooperação não é um ato de idealismo, é uma necessidade prática", afirmam, reforçando que nenhum país, por mais poderoso, dá conta sozinho de crises como a emergência climática, o avanço da inteligência artificial ou as pandemias.

Os argumentos se sustentam em números. Conforme o texto, o comércio mundial atingiu o recorde de US$ 35 trilhões no ano passado e quase três quartos da humanidade estão conectados à internet.

Na direção oposta, 2025 registrou 65 conflitos armados entre Estados, o maior número desde 1946, e os gastos militares chegaram ao recorde de US$ 2,9 trilhões.

"Multilateralismo sob cerco"

O apelo dos quatro líderes chega no momento mais frágil do sistema que defendem. A ONU vive uma crise financeira que o secretário-geral, António Guterres, já descreveu como risco de colapso, agravada por contribuições atrasadas, boa parte devida pelos Estados Unidos.

Maior financiador da organização, os Estados Unidos pagaram parte do que deviam às vésperas da Assembleia, mas ainda acumulam bilhões em atraso.

A gestão Trump retirou o país de dezenas de organismos da ONU, e um conselho de paz paralelo, sob tutela americana, alimentou o temor de esvaziamento da organização. Adicionalmente, a corrida para suceder Guterres segue travada, sem favorito.

O próprio manifesto recorre a uma frase de Guterres para justificar a urgência. "As superpotências estão descobrindo seus limites", cita o texto, antes de defender que a comunidade internacional redescubra o potencial da ação coletiva.

A escolha, escrevem os autores, não é entre preservar ou abandonar a ordem do pós-guerra, mas entre renovar a cooperação num mundo em transformação ou deixar que a lógica da força defina a próxima era.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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