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Sacre Investimentos
EconomiaACS
05/08/2026
5 min

Lula ou Flávio Bolsonaro? Os cenários para a economia em 2027, segundo Samuel Pessoa

Pesquisador do BTG Pactual e do FGV Ibre diz que um eventual governo Flávio Bolsonaro teria uma transição mais suave para o mercado, enquanto Lula enfrentaria maior desafio fiscal

Lula ou Flávio Bolsonaro? Os cenários para a economia em 2027, segundo Samuel Pessoa

A menos de três meses da eleição presidencial, o economista Samuel Pessoa, pesquisador do BTG Pactual e do FGV Ibre, afirma que o principal desafio do próximo governo será conter o crescimento das despesas obrigatórias e avançar em ajustes fiscais para criar condições de redução dos juros no Brasil.

Segundo ele, independentemente do vencedor da eleição, o debate sobre Previdência e controle do gasto público continuará no centro da política econômica.

Em entrevista ao programa Macro em Pauta, da EXAME, Pessoa avaliou os cenários de um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de um governo do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Na análise do economista, o governo Lula já apresenta um diagnóstico mais correto sobre o problema fiscal, mas enfrentará maior dificuldade política para desacelerar o crescimento das despesas obrigatórias.

"Uma economia que cresce 11% e cujo gasto primário cresce 21% é uma economia em que os juros vão ser altos. Não tem jeito", afirmou.

Para o pesquisador, uma das principais sinalizações positivas do atual governo é o discurso do ministro da Fazenda, Dario Durigan, sobre a necessidade de criar mecanismos para reduzir o ritmo de expansão do gasto obrigatório. Segundo ele, esse posicionamento indica que há um diagnóstico correto sobre a origem da pressão fiscal dos auxiliares de quem hoje lidera as pesquisas eleitorais.

Na avaliação de Pessoa, porém, esse diagnóstico esbarra em um Congresso que continua discutindo propostas com potencial de ampliar as despesas públicas ou reduzir a arrecadação.

Para o economista, medidas como a ampliação do teto doSimples Nacional, mudanças no MEI e a criação de novas regras previdenciárias, como a aposentadoria especial para agentes de saúde, caminham na direção oposta ao esforço de ajuste fiscal.

Sobre o Simples, Pessoa afirmou que o regime, criado para simplificar a tributação das pequenas empresas, acabou se tornando um instrumento de planejamento tributário para empresas de maior porte.

"Quando o Congresso aumenta o teto de faturamento para enquadramento no Simples, está permitindo que gente muito rica pague menos imposto", afirmou.

Como Samuel Pessoa vê um eventual governo Lula 4

Na avaliação do economista, um quarto mandato de Lula tende a preservar a preocupação social do governo, mas encontrará dificuldades para realizar mudanças consideradas necessárias na trajetória das despesas públicas.

Pessoa acredita que o governo poderá priorizar mudanças pontuais em programas como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), endurecendo critérios de elegibilidade e reduzindo o ritmo de valorização real do salário mínimo, em vez de promover uma nova reforma ampla da Previdência.

O BPC é um benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda.

Ele também afirmou que será necessário revisar mecanismos de indexação das despesas obrigatórias com saúde e educação para compatibilizar essas regras com o arcabouço fiscal.

"Você não pode ter um arcabouço fiscal com um indexador e os pisos constitucionais funcionando com outro. Essas duas coisas não conversam", disse.

Segundo Pessoa, um eventual governo Lula pode enfrentar momentos de maior volatilidade no câmbio caso o mercado perceba demora na adoção de medidas fiscais. Ainda assim, ele avalia que o presidente costuma reagir quando identifica riscos inflacionários.

"O Lula é um homem pragmático. Ele sabe que inflação é ruim e sabe que existe uma ligação muito estreita entre inflação e câmbio", afirmou.

Economista prevê transição mais suave em eventual governo Flávio Bolsonaro

Ao comentar um eventual governo do senador Flávio Bolsonaro, Pessoa afirmou que o mercado tenderia a antecipar um ajuste fiscal mais intenso.

Segundo ele, esse cenário poderia provocar redução dos juros de longo prazo e valorização do real.

"Para a economia, um governo Flávio Bolsonaro geraria uma transição mais suave, porque os mercados antecipariam um ajuste fiscal mais intenso", afirmou.

O economista disse acreditar que uma equipe econômica com perfil liberal poderia facilitar o controle do crescimento das despesas obrigatórias. Ao mesmo tempo, ressaltou que ainda há dúvidas sobre como seria a relação do senador com o Congresso e qual equipe seria formada em um eventual governo.

Pessoa também afirmou que o governo Jair Bolsonaro desperdiçou uma oportunidade de aprovar reformas estruturais ao priorizar outras agendas.

"A gente perdeu uma oportunidade. Tinha um governo de direita, um Congresso de direita e um país precisando de reformas. Havia um enorme potencial reformista para colocar o país para crescer. Bolsonaro abriu mão de governar e nós perdemos a oportunidade de aprovar as reformas necessárias para arrumar o país e colocá-lo para crescer", disse.

Na área da educação, por exemplo, ele defendeu que um governo de direita teria espaço para discutir modelos de parceria entre os setores público e privado, tema que, segundo ele, não avançou na gestão anterior.

Apesar das diferenças entre os dois cenários, Pessoa afirmou que o desafio fiscal continuará sendo comum ao próximo presidente.

"A gente vai ter que discutir Previdência a cada dez anos", disse, ao defender que o envelhecimento da população exigirá novas revisões das regras previdenciárias independentemente do governo eleito.

AutorAndré Martins
FonteExame
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