Lula ou Flávio? Para Kinea, a verdadeira disputa começa depois da eleição
Quem vencer o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro, herdará um desafio que pode definir os rumos da economia brasileira nos próximos anos: encontrar uma forma de equilibrar as contas públicas sem provocar novos choques na atividade ou nos juros. Essa é a principal conclusão da nova carta mensal da gestora […]

Quem vencer o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro, herdará um desafio que pode definir os rumos da economia brasileira nos próximos anos: encontrar uma forma de equilibrar as contas públicas sem provocar novos choques na atividade ou nos juros.
Essa é a principal conclusão da nova carta mensal da gestora Kinea, intitulada “Highlander, o guerreiro imortal“.
Na avaliação da gestora, o mercado está menos preocupado com o nome que sairá vitorioso das urnas, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e mais atento ao plano que será apresentado para enfrentar o desequilíbrio fiscal.
Segundo a Kinea, a eleição não terminará efetivamente no dia da votação. O verdadeiro teste de confiança virá quando o próximo presidente apresentar medidas concretas para estabilizar a trajetória da dívida pública.
“Para o mercado, a eleição não se encerra em outubro: encerra-se quando o vencedor disser, com números, como pretende fechar essa conta”, afirma a gestora.
Ajuste de até 2% do PIB
A preocupação da Kinea parte do cenário fiscal projetado para 2027. O Orçamento enviado ao Congresso prevê apenas um superávit primário simbólico, enquanto a dívida bruta segue nos maiores níveis observados fora do período da pandemia.
Nas contas da gestora, seria necessário um resultado primário próximo de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para estabilizar a dívida e abrir espaço para uma queda mais consistente dos juros reais.
O obstáculo, porém, não é apenas o tamanho do ajuste. A Kinea destaca que boa parte do gasto discricionário já está nas mãos do Congresso, o que reduz a capacidade de manobra do Executivo.
“O Executivo herda a responsabilidade pelo resultado sem herdar o controle sobre a despesa”, diz o relatório.
Como as medidas adotadas em 2027 precisam ser aprovadas ainda no primeiro semestre do ano para produzirem efeitos fiscais relevantes, a gestora avalia que as negociações entre o futuro presidente e o Legislativo precisarão começar antes mesmo da posse.
O que acontece se o ajuste não vier?
No cenário base da Kinea, o próximo governo anuncia logo no início do mandato um pacote fiscal equivalente a cerca de 1,5% do PIB.
Sob essa hipótese, a economia desaceleraria, mas sem entrar em uma deterioração mais grave. A projeção da gestora para 2027 é de crescimento de 1% do PIB, inflação de 4,7% e taxa Selic encerrando o ano em 12,5%.
Por outro lado, a ausência de um anúncio robusto ou a adoção de medidas consideradas populistas poderia gerar uma piora das expectativas, elevando a percepção de risco e dificultando a continuidade dos cortes de juros.
“Se atacar o fiscal primeiro, o próximo governo navegará melhor o restante do mandato e comprará tempo para endereçar os demais temas”, afirma a Kinea.
Fed ouviu o mercado e voltou a subir juros
No cenário internacional, a gestora avalia que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) reagiu a sinais que já vinham sendo emitidos pelo mercado de renda fixa americano.
Com dados fortes de emprego, inflação acima das expectativas e petróleo em alta, o banco central dos Estados Unidos promoveu sua primeira elevação de juros desde 2023. A decisão foi unânime e, segundo a Kinea, novos aumentos dependerão da evolução dos indicadores econômicos.
A movimentação ajudou a impulsionar o rendimento dos títulos de dez anos do Tesouro norte-americano, os Treasuries de 10 anos, para acima de 5%, patamar não visto há cerca de duas décadas.
Diante desse cenário, a gestora mantém uma posição favorável ao dólar frente às moedas europeias, apostando na resiliência da economia americana em comparação ao crescimento mais fraco da Europa.
Inteligência artificial precisa mostrar receita
Mesmo com juros mais altos, as ações americanas voltadas para tecnologia continuaram sustentando o desempenho do mercado em setembro.
No entanto, a Kinea vê um desafio importante para o setor de inteligência artificial: transformar o entusiasmo dos investidores em crescimento efetivo de receita.
Segundo a gestora, os principais laboratórios de IA precisariam ampliar o faturamento anualizado de aproximadamente US$ 150 bilhões para algo próximo de US$ 450 bilhões até o fim de 2027.
Para isso, seria necessário um crescimento sequencial próximo de 25% durante cinco trimestres consecutivos.
“Só teremos clareza sobre o real ritmo de crescimento da receita quando as empresas divulgarem números auditados”, afirma a carta.
Por isso, apesar de continuar exposta ao setor de tecnologia, a Kinea adota uma postura mais cautelosa em relação às expectativas para a inteligência artificial.
Bolsa brasileira, petróleo e commodities
No Brasil, a gestora montou uma posição tática comprada em bolsa por meio do ETF, ou fundo de índice, EWZ, refletindo a percepção de que aumentaram as chances de vitória de uma candidatura considerada mais comprometida com o ajuste fiscal.
Já no mercado de commodities, o destaque segue sendo o diesel, impulsionado pelos impactos da guerra na Ucrânia e dos conflitos envolvendo o Irã.
De acordo com a Kinea, a combinação entre ataques a refinarias russas, restrições às exportações e dificuldades logísticas na região do estreito de Ormuz provocou um aperto relevante na oferta global.
A preocupação é que o combustível tenha impacto disseminado sobre a economia.
“O diesel permeia toda a atividade econômica de transporte de mercadorias”, ressalta a gestora.
Apesar do cenário desafiador, a Kinea acredita que o aumento gradual do fluxo de petróleo pela região de Ormuz reduz o risco de um choque extremo nos preços da commodity.
Para atravessar o período de incertezas, a casa mantém uma estratégia baseada em quatro pilares: exposição tática ao Brasil na hipótese de avanço do ajuste fiscal, posições aplicadas em juros onde vê distorções de preço, cautela com inteligência artificial e uma cesta de proteção formada por agrícolas, petróleo, ouro e cobre.
“Em períodos turbulentos, prudência e controle de risco não são o oposto da ambição: são o que garante chegar ao dia seguinte para exercê-la”, conclui a carta.
