Lula venceu, e a festa da bolsa pode acabar: o que esperar dos investimentos agora?
A vitória contrariou as apostas de parte dos investidores e deve provocar grandes ajustes em ações, dólar e juros; veja o que os gestores recomendam para a carteira

O mercado brasileiro vinha embalado pela expectativa de uma mudança no comando do país. Após o resultado do primeiro turno, a bolsa engatou um rali e chegou a superar os 200 mil pontos, enquanto o real ganhou força e os juros futuros recuaram. A histórica reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, que contrariou as apostas de parte dos investidores, virou o jogo. Agora, o mercado precisa recalibrar as expectativas e avaliar quanto desse otimismo pode ficar pelo caminho.
"O resultado das eleições é surpreendente e marca uma das grandes viradas políticas da nossa história. É a primeira vez que um candidato a Presidente que liderou no primeiro turno não se elege", afirma Marcelo Lyra, sócio e portfolio manager da O3 Capital, em entrevista ao Seu Dinheiro.
A expectativa é de um início de semana turbulento, com pressão sobre as ações, o câmbio e a curva de juros. Na noite deste domingo, as negociações no exterior já antecipavam parte da reação que pode chegar à bolsa brasileira na segunda-feira (26).
Mais do que reagir ao resultado das urnas, o mercado quer entender o que vem pela frente: quem comandará a equipe econômica, qual será o compromisso do governo com as contas públicas e até onde Lula está disposto a conter os gastos.
“O mercado estava apostando num cenário... houve a reversão. Ele vai devolver tudo o que tinha apostado e mais”, afirma Alexandre Vasarhelyi, diretor de investimentos (CIO) da B2V Crypto.
A questão, portanto, não é apenas o tamanho da correção na abertura, mas quanto do rali eleitoral pode ser devolvido — e como o investidor deve se posicionar enquanto o mercado tenta decifrar a política econômica do novo mandato.
O mercado apostou em Flávio; Lula levou. E agora?
A vitória de Lula contrariou as expectativas que vinham sustentando parte da valorização recente dos ativos brasileiros.
Com Flávio Bolsonaro fora da disputa pela Presidência, posições montadas na expectativa de uma mudança de governo e de uma agenda econômica mais liberal devem ser revistas, ampliando a volatilidade nos próximos pregões.
Luiz Forjaz, CIO da Legend Wealth, destaca que o resultado contrariou o cenário-base dos investidores, que, segundo ele, atribuíam cerca de 80% de probabilidade à vitória de Flávio Bolsonaro.
Já Felipe Balassiano, responsável pela área de multimercados do ASA, também espera pressão sobre a bolsa, desvalorização do real e abertura da curva de juros até que o governo reforce seu compromisso com a responsabilidade fiscal.
Por sua vez, Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, também prevê uma semana de correções e forte volatilidade no câmbio e nos contratos de juros futuros.
O movimento, porém, não depende apenas do resultado das urnas. A escolha do ministro da Fazenda, as primeiras sinalizações sobre a política fiscal e a proposta de Orçamento para 2027 estarão entre os fatores observados pelos investidores para avaliar o risco de manter recursos aplicados no Brasil.
“O discurso do Lula agora deve ser de cautela, porque não vai dar para falar em herança maldita no segundo mandato. A dinâmica vai ser clara: os agentes vão devolver o risco que estavam apostando e o governo vai ter que acalmar o mercado”, avalia Vasarhelyi.
"O mercado claramente está posicionado para não dar nenhum benefício da dúvida", diz Vasarhelyi. "O teste já começa amanhã. Não tem dia muito mais nervoso do que esse."
Problema fiscal volta ao centro das atenções
Por trás da possível correção dos mercados está uma preocupação antiga: a trajetória das contas públicas.
Com a continuidade do governo Lula, os investidores vão avaliar se haverá medidas de contenção de despesas ou se a estratégia seguirá mais apoiada no aumento da arrecadação e nos investimentos das estatais.
“Com a continuidade do governo atual, provavelmente teremos uma preocupação muito grande com a questão fiscal”, afirma Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos.
Na avaliação dela, uma política fiscal expansionista dificulta o trabalho do Banco Central. Se os gastos pressionarem a demanda e as expectativas de inflação, haverá menos espaço para reduzir os juros.
A incerteza sobre as contas públicas também pode pressionar o dólar e, por consequência, os preços da economia.
Forjaz considera mais provável um esforço para elevar receitas do que um ajuste expressivo nas despesas, com manutenção do atual arcabouço fiscal.
Nesse cenário, a trajetória da dívida pública continuaria no radar, mantendo os juros reais elevados e limitando o potencial de crescimento.
O desafio é que o próximo governo terá pouco espaço no Orçamento, em que grande parte das despesas é obrigatória. Sem mudanças capazes de conter o avanço dos gastos, avalia o gestor, o país pode conviver por mais tempo com juros altos e crescimento modesto.
Assim, a escolha da equipe econômica será um dos primeiros sinais concretos a serem observados. Para os especialistas, um ministro com credibilidade junto ao mercado e medidas que deem sustentação às contas públicas podem ajudar a reduzir a tensão.
Sung espera um ajuste fiscal mais moderado do que aquele que poderia ocorrer sob um governo Flávio Bolsonaro. Isso poderia favorecer um crescimento um pouco maior da atividade, mas também manter a inflação mais persistente e limitar o espaço para cortes da Selic.
O que muda para a bolsa e a carteira de investimentos?
A revisão das expectativas atinge de maneiras diferentes a visão dos especialistas para renda fixa, bolsa e câmbio.
Na renda fixa, Forjaz vê maior vulnerabilidade nos títulos prefixados e nos papéis atrelados à inflação de vencimentos longos, que haviam se beneficiado da expectativa de uma mudança de governo e de um ajuste fiscal mais profundo.
Com a reeleição de Lula, parte desse movimento pode ser revertida, elevando as taxas exigidas pelos investidores para carregar esses títulos. A direção dos juros, no entanto, dependerá das próximas sinalizações do governo sobre as contas públicas.
Nesse ambiente, os investimentos pós-fixados tendem a ganhar espaço como núcleo mais defensivo da carteira, por acompanharem a taxa básica de juros.
Papéis atrelados à inflação de prazo curto ou intermediário também podem ajudar a proteger o poder de compra caso a desvalorização do real pressione os preços. Já os prefixados longos ficam mais expostos a uma eventual abertura da curva de juros.
Na bolsa brasileira, a tarefa é distinguir empresas capazes de sustentar seus resultados mesmo com juros elevados daquelas mais sensíveis à piora das condições financeiras.
Forjaz vê possíveis oportunidades em exportadoras, que podem se beneficiar de um real mais fraco, como Embraer (EMBJ3), JBS (JBSS32), São Martinho (SMTO3) e PRIO (PRIO3).
Empresas com caixa líquido, bancos e seguradoras também podem encontrar algum suporte em um ambiente de juros altos. O gestor também destaca incorporadoras ligadas ao Minha Casa Minha Vida (MCMV).
Na outra ponta, companhias mais sensíveis às taxas de longo prazo, como parte das empresas de serviços públicos, podem sofrer com o aumento do custo de capital.
Na avaliação de Lyra, da O3, o mercado pode passar a embutir nos preços uma probabilidade elevada de recessão em 2027, o que pressionaria as expectativas de lucro das empresas.
Ao mesmo tempo, a alta da taxa de desconto — que reduz o valor presente dos ganhos futuros das companhias — seria mais um fator de pressão sobre a bolsa.
“Mesmo o investidor de bolsa de longuíssimo prazo, que aproveita momentos como esse para comprar bons negócios a preços razoáveis, vai sofrer com a volatilidade no curto prazo e pode reavaliar o cenário de investimento do país”, acrescenta.
O gestor destaca que a perspectiva de deterioração das contas públicas pode abalar a confiança dos investidores no real e estimular a busca por moedas estrangeiras.
Ele destaca que o brasileiro médio mantém uma parcela menor do patrimônio em ativos internacionais do que investidores de outros países emergentes, o que abre espaço para uma mudança de comportamento. “Existe a chance grande de iniciarmos um grande movimento de tendência de dolarização”, avalia.
Vasarhelyi recomenda que investidores que montaram posições excessivamente otimistas reavaliem o risco assumido. Em períodos de forte oscilação, reduzir o tamanho das posições pode limitar perdas e evitar decisões precipitadas.
“Quando os fatos mudam, você tem que mudar de opinião”, afirma. Para ele, ignorar a mudança de cenário não é prudente; ao mesmo tempo, a decisão de alterar a carteira deve levar em conta o grau de exposição já assumido e o horizonte de investimento.
O que pode mudar o humor do mercado?
O resultado eleitoral altera as expectativas, mas não determina sozinho o desempenho dos ativos nos próximos meses. A reação dos investidores dependerá, sobretudo, das decisões que o governo tomar a partir de agora.
Para Forjaz, uma equipe econômica considerada confiável, um compromisso claro com a reorganização das despesas e medidas capazes de dar credibilidade ao ajuste fiscal podem melhorar o humor do mercado.
Em contrapartida, uma expansão de gastos sem compensação, mudanças nas metas fiscais ou novas despesas fora do Orçamento podem ampliar a desconfiança.
A relação com o Congresso também estará no radar. Com um Legislativo mais inclinado à direita, a negociação para aprovar medidas econômicas e fiscais pode ser um desafio para o governo.
Kawauti chama atenção ainda para as próximas indicações ao Banco Central. Há duas cadeiras na diretoria vagas desde janeiro deste ano e outras duas que ficarão vagas em 2027, segundo a economista.
Como essas nomeações podem alterar a composição do Comitê de Política Monetária (Copom), o mercado deve acompanhar os nomes escolhidos e os sinais sobre a condução da política monetária.
Para Vasarhelyi, o governo será testado desde os primeiros pregões. Uma reação que desqualifique as preocupações dos investidores pode prolongar a tensão; reconhecer os riscos e apresentar um caminho para enfrentá-los, por outro lado, pode ajudar a estabilizar os mercados.
