Magazine Luiza tem prejuízo de R$ 50 mi no 2º tri, mas descarta crescer a qualquer custo
Magazine Luiza atribui prejuízo ao aumento das despesas financeiras e afirma que seguirá priorizando margens em vez de expandir as vendas a qualquer custo

O Magazine Luiza (MGLU3) encerrou o 2° trimestre de 2026 com prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão registrado um ano antes, e dando continuidade ao resultado líquido negativo dos três primeiros meses do ano, quando a companhia também somou prejuízo de R$ 33,9 milhões.
A companhia afirma, porém, que a estratégia continua voltada para priorizar a rentabilidade em detrimento do crescimento acelerado das vendas, mesmo em um ambiente marcado por juros elevados e aumento dos custos globais de eletrônicos.
"O que não vai mudar é a postura que a gente tem de priorizar a preservação das margens em detrimento do crescimento. Preferimos uma venda que venha com mais qualidade do que crescer a qualquer custo e impactar o nosso resultado", afirmou a diretora de Relações com Investidores do Magazine Luiza, Vanessa Rossini, em entrevista à EXAME.
Segundo a executiva, o prejuízo foi provocado principalmente pelas despesas financeiras, que aumentaram em razão da necessidade de antecipar recebíveis após a companhia reforçar estoques para atender à demanda da Copa do Mundo e enfrentar a alta dos custos de componentes eletrônicos.
"O principal ponto foram as despesas financeiras. Como compramos mais no primeiro trimestre, pagamos mais fornecedores agora no segundo trimestre, o que exigiu uma antecipação maior de recebíveis", disse.
Apesar do prejuízo, o Magazine Luiza registrou Ebitda ajustado, indicador que mede o resultado da operação antes de juros, impostos, depreciação e amortização, de R$ 708,8 milhões no trimestre, queda de 2,5% em relação ao mesmo período de 2025. A margem Ebitda permaneceu estável em 8%, refletindo, segundo a companhia, maior disciplina comercial e controle de despesas.
Rossini atribuiu a estabilidade das margens é resultado de uma estratégia construída ao longo dos últimos trimestres.
"Tem sido uma prioridade muito grande para o Magalu preservar as margens. A gente trouxe mais um trimestre de expansão de margem bruta e um controle de despesas muito rigoroso. Mesmo com queda de receita, conseguimos diluir despesas e manter uma margem operacional saudável."
A receita líquida somou R$ 8,9 bilhões entre abril e junho, queda de 2,6% na comparação anual. O desempenho refletiu principalmente a retração do comércio eletrônico, cujas vendas recuaram 11,9% no período.
Segundo Rossini, a queda não está relacionada à perda de competitividade, mas à decisão deliberada de repassar aos consumidores o aumento dos custos provocado pela escassez global de chips de memória, que elevou os preços de produtos de informática, telefonia e hardware. "Nós vamos repassar esse aumento para os preços de forma gradual e isso acaba tendo reflexo nas vendas. Faz todo sentido dentro da nossa estratégia de preservar margens".
A diretora de RI afirmou que o impacto é mais intenso nas categorias vendidas pelo estoque próprio do Magalu, especialmente telefonia e KaBuM!, mas acredita que o mercado tende a se adaptar aos novos preços. "O cliente sente no primeiro momento quando você aumenta o preço, mas depois entende que essa é a nova realidade. O impacto tende a diminuir ao longo dos próximos trimestres", disse.
E-commerce volta a cair e loja física a crescer
As lojas físicas voltaram a ser o principal destaque operacional da companhia. As vendas presenciais cresceram 10,3% no trimestre, com avanço de 9,7% nas mesmas lojas, impulsionadas principalmente pela Copa do Mundo.
No período do evento, as vendas de televisores cresceram 39%, enquanto linha branca avançou 15% e móveis registraram alta de 10%.
"O trimestre foi excelente para a Copa. Mas não foi só TV. Linha branca, móveis e praticamente todas as categorias ganharam participação de mercado. A nossa loja está muito bem posicionada, muito bem abastecida e com uma equipe de vendas preparada", afirmou.
Segundo a executiva, o crescimento das lojas físicas reflete principalmente ganho de participação de mercado e não apenas um efeito pontual do torneio esportivo. "O mercado físico continua oferecendo uma oportunidade enorme. Quando olhamos os últimos três anos, nossas lojas cresceram, em média, três vezes mais do que o mercado".
Já no e-commerce, a companhia deu sequência à redução de vendas. As vendas totais no marketplace somaram R$ 9,3 bilhões, o que representa uma redução de 11,9% em relação ao mesmo trimestre do ano passado.
O ecommerce 1P, de estoque próprio, totalizou R$ 5,8 bilhões, com queda de 11,5% na comparação anual. Já o Marketplace 3P, de vendas de pareiros, atingiu R$ 3,6 bilhões, uma redução de 12,6% frente ao mesmo período do ano anterior. No geral, o e-commerce representou 64,3% das vendas totais do ecossistema no trimestre, contra 69,3% entre abril e junho do ano passado.
Nos custos, a companhia conseguiu preservar eficiência operacional. O custo total caiu 2,6%, acompanhando a redução da receita, enquanto as despesas com vendas diminuíram para 18,5% da receita líquida, ante 18,7% um ano antes.
A diretora de RI destacou que o foco em rentabilidade também passa pelo fortalecimento das operações financeiras do grupo. A Luizacred registrou lucro de R$ 135,3 milhões no trimestre, enquanto a MagaluPay já concentra 100% das novas operações de CDC realizadas nas lojas.
"Continuamos muito conservador na concessão de crédito. Não estamos ampliando apetite ao risco. O crescimento da carteira vem por melhorias no produto e na experiência do cliente, mantendo a qualidade da carteira", disse.
A companhia também encerrou o trimestre com posição financeira considerada confortável. O caixa líquido ajustado atingiu R$ 806 milhões, sustentado por um caixa total de R$ 5,8 bilhões e redução de R$ 1,3 bilhão da dívida bruta nos últimos 12 meses. A relação entre caixa líquido ajustado e EBITDA permaneceu em 0,3 vez.
O fluxo de caixa operacional foi positivo em R$ 258,8 milhões. Após investimentos de R$ 155,1 milhões, dos quais cerca de 80% destinados à tecnologia, o fluxo de caixa livre ficou positivo em aproximadamente R$ 103,7 milhões.
Embora tenha reduzido o caixa ao longo do trimestre, Vanessa afirmou que o movimento foi consequência do pagamento de fornecedores após a formação antecipada de estoques para a Copa do Mundo.
"Reduzimos mais de R$ 500 milhões em estoques e pagou um volume muito maior de fornecedores. Foi uma sazonalidade desse trimestre. Olhando para frente, esse cenário deve se normalizar."
Amazon ganha protagonismo e varejista planeja novas parcerias
Um dos pilares da estratégia para acelerar o crescimento sem comprometer margens é ampliar as vendas em marketplaces parceiros.
Depois de anunciar uma parceria com a Amazon em junho, o Magazine Luiza afirma que os primeiros resultados superaram as expectativas. "As vendas já estão acima das expectativas e estamos muito felizes com a parceria", afirmou Vanessa Rossini.
Segundo a executiva, os próximos passos incluem a entrada dos produtos do Magalu no selo Prime da Amazon e a utilização da Magalog como operadora logística da plataforma. "O objetivo é ampliar audiência, vender para clientes novos e fazer isso com rentabilidade. Sempre que vendemos por uma plataforma parceira, também aumentamos a densidade da nossa operação logística".
Além disso, a companhia segue apostando em novas frentes de crescimento. O WhatsApp da Lu alcançou R$ 100 milhões em vendas nos primeiros seis meses de operação, enquanto a Netshoes lançou a plataforma Style, focada em moda casual esportiva.
"O trimestre mostra que estamos construindo novos motores de crescimento. Agora vemos muito espaço para acelerar e monetizar todos os ativos que o Magalu construiu".
