Maior empresa de azeite do mundo chega a despencar 23% após venda
Acordo de 520 milhões de euros entre gigantes espanholas provoca tombo e pode redesenhar o mercado mundial de azeite

As ações da Deoleo, maior engarrafadora de azeite do mundo, chegaram a despencar 23,12% nesta quinta-feira, 5, na Bolsa de Madri, após o anúncio de um acordo para sua aquisição pelas espanholas Dcoop e Acesur.
O negócio, avaliado em 520 milhões de euros, promete ampliar o consumo global de azeite, fortalecer agricultores e expandir marcas internacionais.
Na mínima do pregão, os papéis atingiram 0,266 euro, ante 0,346 euro no fechamento anterior, antes de reduzir as perdas. A companhia acumulava valorização de cerca de 55% no ano, beneficiada pela moderação dos preços do azeite e pela recuperação das vendas nos Estados Unidos.
Como surgiu a disputa pela gigante do azeite?
A Deoleo é dona de marcas tradicionais como Carbonell e Carapelli, além de comercializar azeites da marca Bertolli sob licença. A empresa tornou-se alvo de uma disputa internacional que envolveu grupos da Espanha e de outros países europeus.
O consórcio vencedor, formado por Dcoop e Acesur, superou uma proposta da espanhola Migasa e da italiana Coricelli.
A Dcoop é uma cooperativa que reúne mais de 75 mil famílias de agricultores e pecuaristas e tem forte presença na produção de azeite. Já a Acesur atua na indústria e na comercialização do produto, com marcas como La Española e Coosur.
Pelo acordo, cada compradora terá 50% de participação no negócio adquirido. Conforme documento apresentado à Comissão Nacional do Mercado de Valores (CNMV), reguladora espanhola, o contrato abrange inicialmente 91,99% da Deoleo Holding, podendo chegar a 100%.
Por que as ações caíram tanto?
Um dos pontos centrais é que os 520 milhões de euros representam o valor empresarial da operação, e não o montante que será recebido diretamente pelos acionistas da Deoleo.
A companhia listada na bolsa detém 50,99% da Deoleo Holding e estima que essa participação possa valer entre 190 milhões e 200 milhões de euros, antes de retenções e ajustes financeiros. A diferença entre os valores ajuda a contextualizar a reação negativa dos investidores.
A conclusão da venda ainda depende da aprovação dos acionistas e das autoridades concorrenciais da Espanha e dos Estados Unidos, além de autorização na Itália. Também existe uma condição relacionada aos contratos de licença da marca Bertolli.
A Deoleo estima que a obtenção das aprovações regulatórias leve de seis a oito meses.
O que dizem os executivos das empresas?
Apesar da reação negativa da bolsa, os compradores apresentam a aquisição como uma oportunidade de crescimento para o setor. Antonio Luque, presidente da Dcoop, destacou a importância de garantir que as famílias dedicadas há gerações ao cultivo de oliveiras continuem vivendo da atividade.
Em declaração divulgada à imprensa, ele classificou a parceria como o "consórcio da qualidade", em tradução do espanhol, e defendeu a expansão das vendas internacionais.
Já o CEO da Acesur, Gonzalo Guillén, destacou o valor comercial das marcas adquiridas. "Nossa ambição é reforçar esse vínculo e continuar levando o azeite a novos mercados, com qualidade, rastreabilidade e excelência como pilares", afirmou, em tradução.
Cristóbal Valdés, CEO da Deoleo, também havia afirmado à CNBC, em julho, que o difícil período enfrentado pelo setor entre 2022 e 2024, marcado por fortes oscilações nos preços, "ficou definitivamente para trás".
O que está acontecendo com o mercado mundial de azeite?
A operação ocorre após um período de forte instabilidade. Entre 2022 e 2024, secas, escassez de água e problemas nas safras reduziram a oferta de azeite e pressionaram os preços internacionais.
A recuperação da produção espanhola ajudou a aliviar as cotações e estimular novamente o consumo.
Em agosto, a EXAME já havia mostrado como uma disputa internacional pelo controle da Deoleo poderia criar uma gigante com receita superior a 2,2 bilhões de euros, considerando a combinação dos negócios.
A recuperação também chegou ao Brasil, e, nos primeiros cinco meses de 2026, as vendas de azeite em volume cresceram mais de 20% no país.
Embora a aquisição possa alterar o equilíbrio de forças no setor, ainda é cedo para determinar seus efeitos sobre os preços ao consumidor.
