Maioria dos motoristas de app depende de financiamento para comprar carro, diz estudo

O financiamento deverá ser o principal caminho para a compra de veículos entre motoristas de aplicativo e taxistas nos próximos 12 meses. Levantamento inédito da GigU, compartilhado com exclusividade à EXAME, mostra que 53,7% dos trabalhadores que pretendem adquirir um automóvel dependerão de crédito para realizar a compra.
A pesquisa ouviu 1.576 trabalhadores de aplicativos em todos os estados brasileiros. Entre os entrevistados, 53,7% afirmaram que pretendem adquirir um veículo financiado no próximo ano. Outros 41,7% disseram não ter intenção de comprar um automóvel nesse período, enquanto apenas 4,6% responderam que fariam a aquisição à vista.Os números reforçam queo financiamento é o principal caminho para que esses profissionais consigam adquirir o principal instrumento de trabalho. De acordo com Luiz Gustavo Neves, CEO da GigU, o veículo é encarado menos como um patrimônio e mais como um ativo capaz de gerar renda.
"O crédito acaba tendo um papel central nessa dinâmica de trabalho, já que o carro funciona muito mais como ferramenta de geração de renda do que como um ativo, considerada a tendência de desvalorização após a compra que, no caso da categoria, é intensificada pelo maior uso do automóvel na rotina do motorista", afirma Neves.
"A decisão acaba estando menos ligada ao potencial valor de revenda e mais associada à capacidade do veículo de gerar renda ao longo do tempo e ao valor das parcelas do financiamento", complementa.
Ao mesmo tempo, a parcela de 41,7% dos entrevistados que não pretende comprar um veículo no curto prazo também chama atenção. Segundo a GigU, esse grupo pode refletir restrições financeiras, custos elevados de operação ou a necessidade de prolongar a vida útil dos carros atualmente utilizados.
Governo aposta em financiamento para os motoristas
Os resultados aparecem poucas semanas após o lançamento do Move Brasil Táxi e Aplicativos, iniciativa do governo federal voltada à renovação da frota da categoria.
O programa, lançado em maio, prevê financiamento para veículos novos de até R$ 150 mil, com prazo de até 72 meses, carência de seis meses para o início dos pagamentos e juros estimados em 12,6% ao ano para homens e 11,6% ao ano para mulheres — patamares inferiores tanto à taxa Selic, atualmente em 14,5% ao ano, quanto às taxas cobradas hoje pelo mercado.
Levantamento realizado anteriormente pela EXAME com base em dados do Banco Central mostrou que o financiamento tradicional de veículos cobra, em média, 26,23% ao ano de juros. Nas simulações feitas pela reportagem, essa diferença reduz em mais de R$ 78 mil o gasto total com juros ao longo de um contrato de 72 meses para um veículo no limite do programa.
O CEO da GigU observa, porém, que a efetividade do programa dependerá da diferença prática entre as condições oferecidas e as disponíveis no mercado tradicional."O financiamento pode parecer uma solução imediata de acesso a recursos, mas ele carrega uma complexidade que muitas vezes é subestimada. Como os ganhos do motorista de app variam conforme a categoria e as regras das plataformas estão em constante mudança, como temos visto recentemente, é indispensável analisar com profundidade tanto as condições do contrato quanto à elegibilidade de categoria do veículo ao longo do tempo", diz.
Acesso ao crédito não é o único desafio do motorista
O acesso ao crédito, porém, não é o único desafio enfrentado pelos trabalhadores do setor. Reportagem publicada anteriormente pela EXAME mostrou que muitos motoristas esbarram justamente na dificuldade de conseguir aprovação junto às instituições financeiras, mesmo apresentando elevado faturamento mensal.
Outros enfrentam restrições cadastrais ou acabam recorrendo ao aluguel de veículos por não conseguirem financiamento.
Dados da própria GigU mostram que 25,4% dos motoristas de aplicativo ainda trabalham com carros alugados, enquanto 74,6% utilizam veículos próprios, quitados ou financiados. Para quem consegue contratar crédito, o desafio passa a ser o peso das parcelas e dos demais custos da atividade.- Carro alugado, crédito negado, nome sujo: o 'corre' do motorista de app para ter o próprio veículo
Segundo Henrique Soares, planejador financeiro CFP pela Planejar, um motorista de aplicativo com renda mensal de R$ 8 mil deveria comprometer entre 20% e 30% da renda líquida com a parcela do veículo, o equivalente a prestações entre R$ 1,6 mil e R$ 2,4 mil. Nas simulações do próprio Move Brasil, entretanto, as parcelas previstas superam esse intervalo.
"Quando falamos de motoristas de aplicativo, o ideal é ter ainda mais cautela com financiamento, porque a renda costuma ser variável e o carro gera outros custos, além da parcela. O motorista ainda precisa lidar com combustível, manutenção, seguro, pneus e períodos de menor faturamento", afirma.
"O principal risco é olhar apenas para a aprovação do crédito e não para a sustentabilidade financeira da operação no longo prazo", acrescenta.
