Mais de 680 mil imóveis foram financiados no primeiro semestre e crédito imobiliário cresce 23%, mas exige cautela
Crédito imobiliário avançou acima das expectativas, mesmo com a taxa básica de juros em patamar elevado

Se no início de 2026 o clima era de otimismo no mercado imobiliário, impulsionado pela expectativa de queda da taxa básica de juros, com o passar dos meses essas projeções foram minguando. Ainda assim, no primeiro semestre, a concessão de financiamentos teve um crescimento acima das expectativas, com avanço de 23% em relação ao mesmo período do ano passado.
Segundo dados divulgados nesta terça-feira (28) pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança, os financiamentos alcançaram um valor de R$ 180,9 bilhões no primeiro semestre de 2026.
Entre janeiro e junho do ano passado, a cifra foi de R$ 147,1 bilhões.
Mais de 680 mil imóveis foram financiados considerando empréstimos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), que é a principal fonte de crédito imobiliário, do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), especialmente com o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), e fontes livres — nem poupança nem FGTS, normalmente usadas para imóveis de valor mais alto.
Os números foram acima do esperado pela Abecip, segundo o presidente Michel Cury, que assumiu o cargo em março deste ano.
O desempenho deve levar a associação a revisar as estimativas para 2026. No início do ano, a projeção de crescimento era de 16%.
Em entrevista coletiva, Cury afirmou que o “financiamento imobiliário manteve uma trajetória positiva e foi um semestre muito forte para o crédito voltado à construção e aquisição”.
O presidente da associação enxerga uma resiliência na procura dos brasileiros por imóveis, mesmo com a estimativa de taxa Selic a 14% ao final do ano.
Mas o mercado imobiliário tem um cenário dúbio daqui para frente: de um lado, há demanda aquecida por crédito e o aumento dos incentivos de programas sociais.
Já de outro, ainda existe o desafio dos juros elevados, endividamento das famílias e uma preocupação sobre as fontes de financiamento — chamadas de funding, no jargão financeiro — em um ambiente de retirada de dinheiro da poupança.
Portanto, na visão de Cury, este semestre reserva cautela para acompanhar os dados do mercado.
Por trás da alta de 23%
Os financiamentos com recursos do SBPE foram um dos destaques do semestre, puxados principalmente pelo crédito para construção.
O volume financiado passou de R$ 12,8 bilhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 26,5 bilhões em 2026. Ou seja, mais do que dobrou neste ano com um avanço de 107%.
Mas existe um porém nesses números. A própria Abecip pondera que o crescimento foi sobre uma base de comparação mais fraca e, na verdade, representa um patamar de normalização que volta aos padrões de 2021 e 2024.
Já na compra, os financiamentos chegaram a R$ 67,2 bilhões, crescimento de 12% na comparação anual. O valor é representado principalmente pelos imóveis usados, com 70% da cifra.
Ainda assim, os imóveis novos foram os que tiveram uma alta maior no semestre, com um avanço de 17% em relação ao ano passado.
Outro motor foi o FGTS, especialmente por meio do MCMV. As concessões nessa modalidade chegaram a R$ 77,6 bilhões no primeiro semestre, um aumento de 22% em relação ao mesmo período de 2025.
Foram mais de 350 mil imóveis financiados com recursos do FGTS nos seis primeiros meses do ano.
Na contramão, houve uma queda de 8% nos financiamentos com recursos livres.
Apesar do crescimento expressivo, a Abecip defende que o avanço daqui para frente tem um ponto de atenção: a ampliação das fontes de financiamento do setor.
Poupança não acompanha a demanda
Um dos temas que têm sido acompanhados pelo setor imobiliário com mais cautela é a capacidade de financiamento nos próximos anos.
Atualmente, a poupança é a principal fonte de recursos para os empréstimos ligados à habitação. Porém, as cifras já não crescem no mesmo ritmo da demanda por financiamentos.
Nos últimos cinco anos, a captação líquida do SBPE acumulou perdas de R$ 273 bilhões. Só no primeiro semestre deste ano, as retiradas superaram os depósitos em R$ 31 bilhões.
O saldo entre 2025 e 2026 ficou praticamente estável, passando de R$ 762 bilhões para R$ 764 bilhões.
Na contramão, a carteira de crédito imobiliário ligada ao sistema alcançou R$ 601 bilhões, equivalente a 121% dos recursos da poupança.
Para a Abecip, esse movimento mostra que os bancos têm recorrido cada vez mais a outras modalidades de captação para sustentar a concessão de financiamentos.
“A poupança permanece central para o crédito imobiliário, mas já não consegue sozinha acompanhar toda a expansão da demanda e vem sendo cada vez mais complementada por instrumentos de captação a mercado, como as LCIs”, afirmou Cury ao se referir às Letras de Crédito Imobiliário.
Segundo o presidente da associação, os números não representam uma falta imediata de recursos para financiar os imóveis, mas mostra que existe uma mudança acontecendo no setor. Portanto, na visão da Abecip, a diversificação das fontes de recursos é fundamental para manter o crescimento do crédito imobiliário.
