Mais proteína, IA e Oriente Médio: o plano global da Seara de R$ 10 bilhões

A Seara entra em uma nova fase de crescimento depois de concluir um dos maiores ciclos de investimentos de sua história. Entre 2021 e 2025, a companhia destinou R$ 10,2 bilhões para ampliar sua capacidade industrial, acelerar a produção de alimentos de maior valor agregado e modernizar suas operações.
O resultado foi um aumento de 40% na capacidade de suínos, 15% em aves e 18% em produtos de valor agregado, além de ganhos de eficiência que, segundo a empresa, já renderam R$ 3 bilhões entre 2024 e 2025. O ciclo também elevou em 33% o volume de desossa e em 17,5% a produtividade da operação.
Agora, o objetivo é capturar o retorno desse investimento. A estratégia passa por ampliar a presença da marca no Brasil, acelerar a expansão internacional — especialmente no Oriente Médio —, lançar produtos alinhados às novas tendências de consumo e intensificar o uso de inteligência artificial para aumentar a eficiência da cadeia produtiva.
Em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME, João Campos, CEO da Seara, afirma que o investimento foi estruturado em três pilares.
"Fizemos um investimento de CAPEX nos últimos anos acima de R$ 10 bilhões. Esse investimento foi feito em três blocos: capacidade para aumentar os nossos volumes, mix de valor, com embalagens, cortes específicos e inovações, e eficiência, com produtividade e automação", afirma.
À frente da companhia desde o início de 2022, Campos diz que a Seara entra agora em uma etapa de consolidação. A expectativa é transformar o ciclo de investimentos em crescimento de receita, ganho de rentabilidade e fortalecimento da operação que faturou no último ano US$ 9,17 bilhões (aproximadamente R$ 51 bilhões na conversão média da época).
Brasil ainda tem espaço para crescer
Apesar da presença internacional, o Brasil segue como mercado central para a Seara.
“Hoje, a operação brasileira representa cerca de metade dos negócios da companhia. A outra metade vem das exportações”, afirma o CEO. “Eu vejo muita oportunidade no mercado brasileiro”.
No país, a empresa atende cerca de 210 mil pontos de venda diretamente e vê espaço para ampliar a distribuição, melhorar a presença nos supermercados e acelerar o lançamento de produtos de maior valor agregado.
Entre as apostas estão cortes de frango e suínos, refeições prontas, produtos para air fryer, snacks, marmitas clean label e linhas com maior teor de proteína.
Para além da produção: o investimento no varejo
A companhia também tem investido em programas dentro do varejo. Um deles é o açougue de suínos da Seara, presente em mais de 1.300 lojas, com cortes que aproximam a carne suína de ocasiões tradicionalmente ocupadas pela carne bovina, como picanha, alcatra e cubos para preparo.
"O brasileiro vê muito suíno como um lombo, uma bisteca. Então a gente está trazendo cortes diferenciados para ele poder usar em outras ocasiões, de outros preparos. Vai desde uma alcatra suína, uma picanha suína para o seu churrasco, cubinhos para fazer um estrogonofe”, diz o CEO que trabalhou por anos na área de marketing de grandes companhias, como Pepsico.
Outro projeto é a Seara Rotisseria, com mais de 1.000 operações dentro de supermercados, onde a marca ajuda varejistas a preparar e vender frango assado.
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Oriente Médio já fatura US$ 500 milhões
Fora do Brasil, uma das principais apostas da Seara é o Oriente Médio. A região, que historicamente já era relevante para as exportações da companhia, passou a receber uma operação própria da marca. Segundo Campos, a empresa começou em 2021 com duas fábricas e depois construiu uma nova unidade em Jeddah, na Arábia Saudita.
“A fábrica de Jeddah dobrou de tamanho em apenas um ano”, diz o CEO.
Hoje, a operação no Oriente Médio já fatura cerca de US$ 500 milhões e a Seara se tornou a terceira marca da região em menos de cinco anos. Apesar das incertezas geopolíticas, a companhia mantém o plano de expansão. Para Campos, o potencial de consumo da região continua justificando os investimentos.
“O Oriente Médio é um mercado extremamente importante para o consumo de frango. Se olharmos toda a população halal no mundo, são quase 2 bilhões de pessoas”, afirma o CEO.
Além do Oriente Médio, a empresa exporta para mais de 140 países. Entre os principais mercados estão Europa, Japão, China e México.
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IA entra da granja ao ponto de venda
A inteligência artificial também entrou no plano de crescimento da Seara. Segundo Campos, a tecnologia já é usada para aumentar produtividade e identificar gargalos na cadeia produtiva.
Nas fábricas, a IA ajuda a monitorar o desempenho das linhas de produção e apontar pontos que estão abaixo da performance esperada. Nas granjas, a tecnologia pode apoiar o controle de temperatura, iluminação e outros indicadores operacionais.
No varejo, a companhia vê oportunidade de usar dados para definir o mix ideal de produtos em cada loja. A lógica é que cada ponto de venda tenha uma combinação diferente, de acordo com o perfil do consumidor da região.
“Vai chegar o momento em que cada loja terá a definição do mix que melhor vende para ajudar o varejista a capturar melhor”, afirma.
Canetas emagrecedoras e a nova corrida pela proteína
A mudança no comportamento do consumidor também entrou no radar da Seara. Com o avanço dos medicamentos para emagrecimento, como as chamadas canetas emagrecedoras, a companhia vê uma oportunidade de reforçar sua atuação no mercado de proteínas.
A empresa já lançou refeições com mais de 25 gramas de proteína e agora prepara uma nova linha com pratos do dia a dia, como pizza e lasanha, mas com maior teor proteico.
“Hoje a proteína está na cabeça de todo mundo. Estamos trazendo a comida que o consumidor gosta no dia a dia com a proteína que ele precisa”, afirma Campos.
A companhia também aposta em uma linha de marmitas clean label (rótulo limpo) que é uma tendência na indústria de alimentos e cosméticos que prioriza listas de ingredientes curtas, naturais e conhecidas pelo consumidor. A ideia é atender à busca por conveniência, mas sem perder o apelo de saudabilidade.
Copa do Mundo deve impulsionar vendas
Outro fator que já está ajudando a Seara neste ano é a Copa do Mundo. Segundo Campos, a companhia viu na última edição um aumento de cerca de 30% no consumo de linguiça frescal e cortes de frango. Para este ano, a expectativa é ainda maior.
“Estamos vendo um crescimento acima de 40%, porque a marca trouxe um olhar diferente para o churrasco neste ano de Copa do Mundo”, afirma.
A estratégia é ocupar o que o executivo chama de “primeiro tempo do churrasco”: linguiças, cortes de frango e pão de alho, produtos que antecedem a carne bovina nos encontros em grupo.
“Para ter um bom churrasco, você tem que começar ganhando no primeiro tempo”, diz.
O plano para os próximos anos
Para Campos, o desafio da Seara é sustentar a agenda de crescimento acelerado, ampliar a presença no Brasil, sem deixar de fortalecer a marca fora do país.
A empresa tem 62 fábricas, cerca de 95 mil funcionários, mais de 10 mil granjas integradas e presença em mais de 140 mercados.
No primeiro trimestre de 2026, a Seara registrou receita de US$ 2,3 bilhões e EBITDA de 15%, segundo o CEO.
“Nosso papel é ajudar a JBS no crescimento e na rentabilidade”, afirma o CEO.
Com o ciclo de investimentos concluído, a aposta da Seara deixa de ser a expansão da capacidade produtiva e passa a ser a captura de valor: transformar fábricas maiores, tecnologia e inovação em crescimento de receita e rentabilidade nos próximos anos.
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