Malvinas: entenda por que Argentina, Reino Unido e Trump voltaram a se enfrentar
Disputa territorial ganhou novo capítulo após declarações de Trump, ameaça de sanções de Milei e avanço de projeto de petróleo nas ilhas

As Ilhas Malvinas voltaram ao centro de uma disputa diplomática entre Argentina e Reino Unido depois de declarações recentes de Donald Trump, novas medidas anunciadas por Javier Milei e o avanço de um projeto de exploração de petróleo no arquipélago.
O episódio reúne uma disputa territorial que dura quase dois séculos, interesses econômicos e uma nova pressão sobre a relação entre Washington e Londres.
O Reino Unido reafirmou nesta sexta-feira, 4, que as ilhas “são britânicas e continuarão sendo”. A declaração veio depois de Milei afirmar que existem “ventos de mudança” favoráveis à reivindicação argentina sobre o território.
O que está acontecendo agora
A tensão mais recente começou a ganhar força com o projeto de exploração de petróleo Sea Lion, desenvolvido pela britânica Rockhopper e pela israelense Navitas em águas próximas às Malvinas.
Para o governo argentino, a exploração é ilegal porque Buenos Aires considera as ilhas parte de seu território. Milei anunciou que pretende sancionar empresas envolvidas em operações não autorizadas e aumentar as punições para companhias que atuem no arquipélago.
O presidente argentino também anunciou a construção de uma base naval na província da Terra do Fogo, no extremo sul do país, como parte de uma estratégia para ampliar a presença argentina no Atlântico Sul.
A reação teve impacto imediato no mercado. As ações da Rockhopper chegaram a cair 7% na Bolsa de Londres nesta sexta-feira antes de reduzirem parte das perdas.
Onde Trump entra nessa história
A disputa ganhou uma dimensão adicional depois de Donald Trump questionar a relação do Reino Unido com os Estados Unidos e sinalizar que poderia rever a posição americana sobre as Malvinas.
Em entrevista à emissora britânica GB News, Trump voltou a criticar o governo britânico por seu apoio militar aos Estados Unidos na guerra contra o Irã. Também evitou confirmar se Washington apoiaria Londres caso houvesse um novo conflito entre Argentina e Reino Unido.
Historicamente, os Estados Unidos reconhecem que o Reino Unido administra as ilhas, mas mantêm neutralidade em relação à disputa de soberania. Por isso, qualquer mudança na posição de Washington teria peso diplomático para os dois países.
É nesse contexto que Milei fala em “ventos de mudança”. A declaração não significa que a Argentina tenha obtido um novo reconhecimento internacional de sua reivindicação, mas reflete a percepção do governo de que as declarações de Trump podem alterar o equilíbrio político em torno da disputa.
Por que Argentina e Reino Unido brigam pelas ilhas
A Argentina reivindica as Malvinas como parte de seu território. O Reino Unido controla o arquipélago desde 1833 e o considera um território britânico ultramarino. Os argentinos chamam as ilhas de Malvinas; os britânicos, de Falklands.
A disputa chegou ao campo militar em 1982, quando a Argentina ocupou as ilhas. O Reino Unido enviou forças para retomá-las, dando início a uma guerra de 74 dias que terminou com a rendição argentina. O conflito deixou 649 argentinos e 255 britânicos mortos.
Mais de quatro décadas depois, não houve acordo sobre a soberania. Em 1965, uma resolução das Nações Unidas reconheceu a existência da disputa e pediu que os dois países buscassem uma solução por meio de negociações.
O que dizem os moradores das ilhas
O principal argumento britânico atualmente é que os habitantes das Malvinas querem permanecer ligados ao Reino Unido.
Em um referendo realizado em 2013, 99,8% dos participantes votaram pela manutenção do status das ilhas como território britânico. A Argentina, por sua vez, contesta a aplicação do princípio de autodeterminação à população local e afirma que os habitantes formam uma população implantada em um território que considera ocupado.
Essa diferença é central para a disputa: enquanto Londres enfatiza a vontade dos moradores, Buenos Aires sustenta que a questão deve ser resolvida a partir da disputa de soberania entre os dois Estados.
Por que o petróleo mudou o peso da disputa
O petróleo adicionou um interesse econômico direto a uma disputa que durante décadas esteve concentrada principalmente na soberania territorial.
O Sea Lion é considerado um dos projetos com maior potencial de exploração de petróleo nas águas próximas às ilhas. A operação é conduzida pela Navitas, em parceria com a Rockhopper, e conta com autorização das autoridades das Malvinas e respaldo britânico.
A Argentina já havia sancionado as duas empresas em anos anteriores e agora ameaça ampliar as medidas para atingir acionistas, diretores e fornecedores. O governo também pretende impedir que companhias envolvidas nesses projetos operem no território continental argentino.
*Com AFP e EFE
