Manifestantes iranianos ameaçam boicotar jogo de abertura do Irã hoje

A presença do Irã na Copa do Mundo deste ano está permeada de controvérsias e debates, abrangendo desde questões relacionadas à guerra e aos vistos para os atletas e a equipe nacional até o regime autoritário que governa o país. E, apesar de um aparente fim ao conflito com os Estados Unidos (EUA), o jogo de abertura da seleção iraniana hoje, contra a Nova Zelândia, ainda não está livre de problemas.
Alguns iranianos-americanos, sejam imigrantes ou descendentes de imigrantes, têm protestos programados antes do jogo, que acontecerá às 22 horas de Brasília. Os manifestantes ameaçam boicotar a partida, protestando contra o regime autoritário em frente ao Estádio de Los Angeles, cidade que abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã.
Muitos dos iranianos-americanos do sul da Califórnia chegaram após a Revolução Islâmica de 1979, e um centro de restaurantes, lojas e mercados, a cerca de 16 quilômetros do estádio, é conhecido como "Tehrangeles", em um trocadilho com o nome da capital iraniana, Teerã (Tehran, em inglês). Os manifestantes se vestirão com a bandeira do "leão e sol", a flâmula oficial do país antes da revolução, atualmente proibida pelo regime dos aiatolás.
Segundo os manifestantes, os jogadores da equipe iraniana estão sob pressão para aderir às posições do governo, e não podem competir de maneira livre. Devido a isso, prometeram interromper a partida para demonstrar seu descontentamento, planejando, inclusive, vaiar o hino nacional e virar as costas para exibir as bandeiras pré-revolucionárias.Caso isso aconteça, há chances de a partida ser interrompida, já que o técnico da seleção iraniana, Amir Ghalenoei, recebeu instruções específicas do governo para interrompê-la se bandeiras pré-revolucionárias forem exibidas ou se cânticos considerados negativos forem ouvidos.
Futebol e política
Irã e Nova Zelândia se enfrentam hoje em jogo de abertura para ambas as equipes (Imagem gerada por IA/Exame)
Apesar da mensagem propagada pelo futebol ser a de paz, é impossível separar totalmente um evento do calibre da Copa do Mundo do contexto político dos países anfitriões e dos participantes, e a situação no Irã é particularmente importante.
Além das manifestações, a equipe enfrentou diversos obstáculos em sua chegada aos EUA, como problemas com vistos, fãs perdendo ingressos e a necessidade de estabelecer sua base de operações no México, do outro lado da fronteira.
Em uma conferência de imprensa, o técnico do time, Amir Ghalenoei, acompanhado pelo capitão e atacante Mehdi Taremi, abordou algumas perguntas, apesar de instruções claras da FIFA para repórteres evitarem assuntos políticos. O diálogo com a mídia aconteceu apenas horas antes deum acordo de paz entre o Irã e os EUA.
A preparação da seleção iraniana para a Copa do Mundo foi marcada por uma série de entraves logísticos que dificultaram a chegada da equipe ao país-sede. Em meio às restrições, o time acabou sendo instalado em um centro de treinamento no México, do outro lado da fronteira, o que gerou críticas da delegação.
O técnico afirmou que decisões adotadas pelos Estados Unidos durante a organização do torneio, incluindo a recusa em receber o centro de treinamento da equipe em território americano, criaram obstáculos adicionais e desnecessários para a seleção iraniana. Segundo ele, esse tipo de postura compromete o espírito esportivo que deveria nortear a competição.
"Esse tipo de comportamento afetará negativamente o espírito do futebol”, disse Ghalenoei aos repórteres. “Quer ganhemos, quer percamos, é um sentimento difícil."
As críticas foram ecoadas pelo atacante Mehdi Taremi. O jogador destacou que os problemas enfrentados não se restringem ao Irã e citou, como exemplo, a negativa de entrada ao árbitro somali Omar Artan.
Para Taremi, as dificuldades impostas contrastam com os valores de integração, celebração e convivência pacífica tradicionalmente associados à Copa do Mundo. O atacante avaliou ainda que o clima de tensão prejudica a experiência esperada por torcedores e participantes, enfraquece a atmosfera de alegria que caracteriza o torneio e compromete a mensagem de união promovida pela FIFA.
“Não estamos vivenciando a mesma experiência maravilhosa da qual sempre falamos – a paz, a alegria”, disse Taremi. “A sensação que as pessoas têm ao aguardar a Copa do Mundo, acho que desta vez, talvez, não foi a mesma… Esse tipo de tensão mina essa alegria. Mina a mensagem da FIFA.”
“Senti a tensão desde o primeiro momento em que chegamos a esta Copa do Mundo”, continua Taremi. “Esse tipo de tensão mina a alegria e a mensagem da Fifa e do nosso povo, que é a de que o futebol traz paz. Acho que esta Copa do Mundo poderia ter proporcionado uma atmosfera melhor do que proporcionou.”
