Mansueto faz alerta: 2027 pode ser o pior ano da economia brasileira desde a pandemia
O Brasil deve enfrentar um cenário difícil para a atividade econômica em 2027 e pode registrar o menor ritmo de crescimento desde a pandemia, segundo a avaliação de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual. A combinação de juros ainda elevados, desaceleração da economia e incertezas fiscais tende a limitar a expansão do país nos próximos […]

O Brasil deve enfrentar um cenário difícil para a atividade econômica em 2027 e pode registrar o menor ritmo de crescimento desde a pandemia, segundo a avaliação de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual. A combinação de juros ainda elevados, desaceleração da economia e incertezas fiscais tende a limitar a expansão do país nos próximos anos.
“2027 será o pior ano de crescimento do Brasil desde a pandemia”, afirmou o economista durante sua participação no TRX Day, realizado nesta quinta-feira (20), em São Paulo.
De acordo com Mansueto, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve crescer em torno de 2% neste ano, Já para 2027, mesmo em um cenário considerado otimista, a expansão ficaria próxima de 1%. A perspectiva reflete o impacto defasado da política monetária restritiva implementada pelo Banco Central para controlar a inflação.
Com a Selic atualmente em 14% ao ano, as projeções de mercado apontam que a taxa básica encerrará 2026 ainda em patamar elevado, em torno de 13,75%.
“É um juro muito alto. Isso vai machucar a atividade”, destacou.
Brasil não vive crise semelhante à de 2015 e 2016
Apesar da perspectiva de crescimento mais fraco, Mansueto avalia que o país está em uma posição estrutural mais favorável do que a observada há uma década.
Segundo ele, a recessão de 2015 e 2016 foi agravada pela combinação de crises simultâneas em setores estratégicos, como petróleo, energia elétrica e mercado imobiliário, além de inflação elevada, deterioração fiscal e forte aumento do desemprego.
Desta vez, o cenário é diferente: “Não é o Brasil de 10 anos atrás. O Brasil hoje não tem nenhuma grande crise setorial”, afirmou.
Para o economista, a desaceleração esperada para os próximos anos está mais relacionada ao peso dos juros elevados e à deterioração da percepção fiscal do que a problemas estruturais disseminados pela economia.
Problema central está nas contas públicas
Para Mansueto, o principal desafio econômico do país atualmente é fiscal. Ele destacou que o gasto público federal acumulou crescimento real de aproximadamente 21% entre 2023 e 2026, ritmo superior ao observado entre 2014 e 2022, quando houve avanço de cerca de 9%.
Embora o governo tenha conseguido reduzir o déficit primário, que saiu de 2,4% do PIB para cerca de 0,5% neste ano, a melhora não foi suficiente para interromper o avanço da dívida pública.
Isso ocorre porque o custo de carregamento da dívida aumentou com a manutenção dos juros em níveis elevados. Segundo Mansueto, a despesa com juros deve subir de cerca de 6% do PIB, em 2023, para aproximadamente 8,5% neste ano. Como consequência, o déficit nominal poderá alcançar 9% do PIB.
“O desafio do Brasil não é simplesmente gerar superávit primário aumentando carga tributária. O desafio do Brasil é controlar o crescimento dos gastos”, afirmou.
Para ele, o mercado ainda não consegue identificar quando a dívida pública brasileira deixará de crescer e entrará em trajetória de queda. “Com as regras que nós temos hoje, a gente não consegue responder essa pergunta”.
Corte de juros pode ser mais rápido
Apesar do pessimismo coma atividade econômica, Mansueto acredita que uma mudança na condução da política fiscal poderia alterar rapidamente as expectativas dos agentes econômicos.
Como exemplo, ele citou o período do governo Michel Temer, do qual participou como integrante da equipe econômica. Na época, a combinação de reformas e melhora das expectativas fiscais contribuiu para uma forte queda dos juros.
“Em um ano e meio, a gente saiu de uma taxa de 14,25% para uma taxa de juros de 6,5%”, lembrou Mansueto.
Na avaliação do economista, um plano fiscal considerado crível pelo mercado logo no início do próximo governo poderia produzir efeito semelhante.
“Se no início do próximo governo um novo plano fiscal fizer o mercado conseguir enxergar que a dívida continuará crescendo, mas eventualmente, no final do próximo governo, a dívida para de crescer e começa a cair, imediatamente o juro cai”
Segundo Mansueto, uma queda mais acelerada dos juros teria impacto direto sobre empresas e investimentos, reduzindo despesas financeiras, estimulando novos projetos e favorecendo a valorização dos ativos.
“Esse ciclo de corte de juros muito rápido vai favorecer o aumento do valor das empresas e vai reduzir o peso financeiro que hoje machuca o balanço de todas as empresas em qualquer setor.”
Brasil tem fundamentos mais sólidos
Mesmo com as preocupações com as contas públicas, Mansueto ressaltou que o Brasil acumulou avanços importantes nos últimos anos.
Entre os fatores positivos, ele destacou o crescimento da produção de petróleo, que avançou cerca de 25% nos últimos dois anos, e a expansão do agronegócio. Há duas décadas, a produção agrícola brasileira girava em torno de 100 milhões de toneladas por ano; atualmente, supera 320 milhões.
O economista também citou o avanço das concessões e dos investimentos em infraestrutura, além do crescimento do mercado de capitais.
Segundo ele, o volume captado pelas empresas por meio desse mercado saltou de cerca de R$ 120 bilhões anuais em 2015 e 2016 para aproximadamente R$ 800 bilhões atualmente, ampliando as alternativas de financiamento para o setor privado.
Próximo ciclo dependerá de produtividade
Com o desemprego já em níveis baixos, Mansueto avalia que o país não poderá repetir o crescimento dos últimos anos apenas incorporando trabalhadores ao mercado e que dependerá cada vez mais de ganhos de produtividade.
“Daqui pra frente, o desemprego vai ficar mais ou menos estável. O Brasil crescer 2,3% ao ano, nós precisaremos ter crescimento de produtividade.”
Para isso, será necessário ampliar investimentos, renovar o parque produtivo, reduzir a insegurança tributária e criar um ambiente mais previsível para as empresas.
A conclusão de Mansueto é que o cenário de curto prazo é difícil, mas a solução fiscal poderia abrir espaço para um ciclo mais favorável. “Não é tão difícil. É segurar o crescimento do gasto público.”
