Máquinas da China equipam academias brasileiras em um negócio de R$ 100 milhões no interior de SP
Com R$ 60 milhões em equipamentos no estoque, companhia vende de uma única esteira a projetos completos de até R$ 4 milhões

RESUMO +
A fornecedora de equipamentos de academia WTM Fitness projeta faturar R$ 100 milhões em 2026, ante R$ 30 milhões em 2025, dois anos após sua fundação em Franca. Para acelerar entregas, mantém quase 7 mil metros quadrados de estoque, com R$ 60 milhões em máquinas importadas da China, e financia clientes em até 60 parcelas.
Há cerca de R$ 60 milhões em equipamentos de academia parados em um estoque de 7 mil metros quadrados em Franca, no interior de São Paulo. São esteiras, bicicletas, aparelhos de musculação e outras máquinas importadas da China que chegaram ao Brasil antes mesmo de terem um comprador definido.
É justamente aí que está a aposta da WTM Fitness. Em vez de esperar uma academia fazer o pedido para só depois importar os equipamentos — processo que pode levar de quatro a cinco meses —, a empresa compra antecipadamente, mantém as máquinas no país e tenta ganhar o cliente pelo prazo de entrega.
A estratégia exige capital, mas ajudou uma companhia fundada apenas em 2024 a chegar a mais de 3 mil clientes. Depois de faturar cerca de R$ 30 milhões em 2025, a WTM projeta alcançar R$ 100 milhões neste ano.
O negócio também passou a financiar os próprios compradores e hoje vende desde uma única esteira até projetos completos que podem custar entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões.
“Quando o cliente está com um projeto para daqui a um ou dois meses, não consegue esperar 120 ou 150 dias por uma importação. Ele procura prazo”, diz Wellington Tiago, CEO da WTM Fitness.
Antes de entrarem nesse mercado, porém, Wellington e seus dois sócios, Maycon Vinicius, CMO da empresa, e Taigon Veiga, CFO, tinham negócios bastante diferentes — e a ideia de vender equipamentos de academia sequer estava nos planos.
Como os três amigos entraram no mercado de academias
Os três se aproximaram em Franca e passaram a treinar juntos. Cada um, naquele momento, seguia uma trajetória empresarial própria.
Wellington vinha do setor calçadista, uma das atividades econômicas mais tradicionais da cidade. Trabalhou na indústria e depois montou um escritório de vendas, com o qual começou a atender clientes em diferentes partes do país.
Maycon estava mais próximo do mercado que posteriormente daria origem à WTM. Formado em educação física, era proprietário de uma academia e conhecia de perto o custo de montar e manter uma operação desse tipo.
Taigon, por sua vez, tinha uma indústria ligada ao setor automotivo.
Foi justamente um investimento nesse negócio que levou Taigon à China em 2023. Ele pretendia comprar máquinas para sua fábrica e convidou Wellington para acompanhá-lo. Os dois passaram pela Canton Fair e começaram a conhecer fornecedores e a dinâmica do comércio exterior chinês.
Quando retornaram ao Brasil, Maycon estava planejando ampliar sua academia e praticamente dobrar o tamanho da operação. Pediu ajuda aos amigos para procurar equipamentos na China.
A ideia inicial não era criar outra empresa.
“A princípio, a gente entrou nisso para ajudar na expansão da academia. Quando começamos a pesquisar fornecedores e concorrentes no Brasil, percebemos que existia uma oportunidade”, afirma Taigon Veiga, CFO da WTM.
O trio passou a procurar fabricantes, comparar máquinas e estudar o mercado. A experiência de Maycon como dono de academia abriu as primeiras portas entre empresários do setor.
A procura apareceu rapidamente. Segundo os sócios, antes mesmo de o primeiro contêiner desembarcar no Brasil, já havia compradores para o equivalente a cinco contêineres de equipamentos.
Em 2024, os três decidiram transformar aquela operação em uma empresa.
Wellington Tiago, CEO, Maycon Vinicius, CMO, e Taigon Veiga, CFO: negócio criado em Franca já atendeu mais de 3 mil clientes pelo país. (WTM Fitness/Divulgação)
Por que eles compram as máquinas antes de encontrar o cliente
Ao estudar o setor, os empresários identificaram um ponto que consideravam especialmente problemático: o tempo entre a encomenda e a entrega.
Parte dos importadores trabalhava praticamente sob demanda. O cliente escolhia as máquinas por catálogo, pagava uma entrada e esperava o fornecedor organizar a compra na China. Entre fabricação, embarque e desembaraço, o equipamento poderia levar 120 a 150 dias para chegar.
Os sócios decidiram inverter essa lógica. A WTM passou a fazer grandes encomendas antecipadamente e a assumir o risco de manter as máquinas em estoque no Brasil.
Hoje, a companhia ocupa uma estrutura de quase 7 mil metros quadrados em Franca e estima ter R$ 60 milhões em produtos disponíveis, sem contar equipamentos que ainda estão a caminho do país.
Esse estoque atende a uma característica do próprio mercado. Uma academiaem construção ou uma rede prestes a inaugurar outra unidade nem sempre planeja a compra das máquinas com cinco meses de antecedência. Há também clientes que precisam substituir equipamentos ou ampliar rapidamente uma operação existente.
Para a WTM, ter o produto no Brasil passou a funcionar como argumento de venda.
O mesmo raciocínio levou à criação de um showroom em Franca ainda no início da empresa. Parte do primeiro lote importado foi separada para exposição, em vez de ser vendida.
A ideia era diminuir outro obstáculo: convencer alguém a gastar centenas de milhares — ou milhões — de reais em máquinas vistas apenas por fotografia.
Como a maior parte da clientela está longe do interior paulista, porém, o showroom resolve apenas parte do problema. Segundo a empresa, cerca de 90% dos compradores não visitam o espaço antes da compra.
Nesses casos, os vendedores fazem apresentações por vídeo ou indicam academias próximas que já utilizam os equipamentos.
Quanto custa montar uma academia
A empresa trabalha com praticamente todas as categorias encontradas em uma academia, de equipamentos cardiovasculares às máquinas de musculação.
As esteiras estão entre os produtos de maior saída porque normalmente são adquiridas em grandes quantidades. Há clientes que compram 25 ou 30 de uma só vez.
Os preços variam conforme a linha. Uma esteira vendida pela companhia pode custar de aproximadamente R$ 13 mil a R$ 50 mil. Os modelos mais caros incorporam telas, carregamento de celular e outros recursos.
A diferença de preço também aparece no desenho completo de uma academia.
Um estabelecimento de bairro pode concentrar o orçamento em linhas mais básicas e acrescentar algumas máquinas premium em pontos específicos. Já projetos voltados a mensalidades mais altas costumam priorizar equipamentos de maior valor.
Maycon diz que, além do desempenho das máquinas, o aspecto visual ganhou importância nas decisões dos donos de academias.
“Hoje o visual manda muito. Todo mundo quer chegar a uma academia que tem um equipamento diferenciado, uma academia vistosa”, afirma Maycon Vinicius, CMO da WTM.
Formado em educação física e proprietário de academia antes da criação da empresa, Maycon participa da avaliação dos produtos que entram no portfólio.
Os sócios já fizeram diferentes viagens à China para visitar fornecedores. Em uma delas, passaram mais de 20 dias percorrendo fábricas e avaliando itens como biomecânica, componentes, pintura e acabamento das máquinas.
A fabricação é feita por parceiros chineses para a marca da empresa brasileira.
Como uma venda passou de algumas máquinas para R$ 4 milhões
Nos primeiros meses, fechar uma academia inteira era difícil.
A WTM era nova e ainda precisava convencer empresários a confiar em uma fornecedora que acabara de entrar no mercado. Por isso, muitos dos primeiros pedidos envolviam somente uma esteira ou algumas máquinas.
Com o aumento da base de clientes, o tamanho das encomendas cresceu.
Segundo os sócios, uma venda para equipar uma academia completa pode atualmente ficar entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões. A companhia afirma fechar hoje o equivalente a aproximadamente uma academia por dia.
É essa mudança no tamanho dos contratos que ajuda a explicar a projeção de crescimento da receita.
Em 2025, a WTM faturou cerca de R$ 30 milhões. Para 2026, espera atingir R$ 100 milhões.
Além dos novos compradores, existe uma parcela relevante de clientes que retorna. A companhia estima que sua taxa de recompra esteja entre 50% e 60%.
Há uma lógica recorrente nesse mercado. Uma academia pode começar pequena, acrescentar novas máquinas, trocar equipamentos antigos e, eventualmente, abrir outra unidade. Redes regionais repetem esse processo em escala maior.
A WTM atende desde studios menores até redes com diversas unidades. Para os executivos, porém, academias independentes e grupos regionais continuam sendo uma parte importante do mercado.
São justamente esses negócios que precisam disputar alunos com grandes redes nacionais, algumas delas com capacidade para negociar diretamente com grandes fabricantes globais.
Por que os vendedores de máquinas também têm uma academia
Mesmo depois de transformar a importação em seu principal negócio no setor fitness, os sócios continuaram ligados diretamente à operação de uma academia.
Eles participam, ao lado de outros investidores, do Forjax, complexo de mais de 6 mil metros quadrados em Franca que recebeu aproximadamente R$ 10 milhões em investimentos.
O empreendimento reúne academia, estacionamento e serviços de saúde, alimentação, fisioterapia e estética. Toda a área fitness utiliza equipamentos vendidos pela WTM.
Para os empresários, a operação tem uma utilidade que vai além de gerar receita.
É ali que conseguem acompanhar diariamente máquinas submetidas a uso intenso. Problemas de manutenção, desgaste de componentes e preferências dos usuários ajudam a orientar decisões sobre produtos que serão comprados nas próximas encomendas.
Também dá à companhia um lugar para mostrar o equipamento funcionando em condições semelhantes às encontradas pelos clientes.
O desafio agora é transformar a estrutura criada nos últimos dois anos em escala.
Ainda em 2025, os sócios adquiriram um galpão maior e fecharam negociações de volume com fabricantes chineses. Como havia meses entre o pedido, a produção e a chegada ao Brasil, parte dessa preparação só começou a aparecer no estoque neste ano.
É um modelo que obriga a empresa a tentar prever o que academias brasileiras comprarão meses depois.
Primeiro chegam as máquinas. Depois, a WTM precisa encontrar quem vai colocá-las para trabalhar.
