Marrocos investe US$ 6 bilhões na Copa do Mundo de 2030 e constrói o maior estádio do mundo

A Copa do Mundo de 2026 acabou para Marrocos, nesta quinta-feira, 9, após perder para a França de 2x0, mas o sentimento no país africano está longe de ser o de fim de jogo. Marrocos já entrou em campo para disputar um projeto ainda maior: a preparação para o Mundial de 2030.
“Marrocos é um país em transformação e a Copa do Mundo de 2030 estimula esse movimento”, afirma Alexandre Guido Lopes Parola, embaixador do Brasil no Marrocos.
Marrocos será uma das principais sedes da Copa do Mundo de 2030, ao lado de Espanha e Portugal. Argentina, Paraguai e Uruguai também receberão partidas comemorativas pelo centenário da competição, mas a principal aposta marroquina é receber a final do torneio no Grand Stade Hassan II, que está sendo construído nos arredores de Casablanca.
Ainda não há confirmação da Fifa sobre o palco da decisão, mas o Marrocos já está finalizando aquele que deverá ser o maior estádio do mundo, com capacidade para 115 mil pessoas.
“Estamos acabando agora esse que vai ser o maior estádio do mundo e onde esperamos que seja a final. Ainda não está decidido, mas deve ser lá', afirma o embaixador.
Alexandre Guido Lopes Parola, embaixador do Brasil no Marrocos: “Marrocos é um país em transformação” (Arquivo pessoal/Divulgação)
O investimento bilionário na Copa do Mundo
No total, o país africano investirá cerca de US$ 6 bilhões na Copa do Mundo de 2030 (esse valor faz parte do pacote de investimento de US$ 20 bilhões dos países sede da Copa 2030), segundo Parola, que mora na capital Rabat.
Somente o maior estádio do mundo (Grand Stade Hassan II) receberá 5 bilhões de dirhams, cerca de US$ 500 milhões, sendo aproximadamente US$ 320 milhões destinados apenas à segunda fase da construção. A conclusão está prevista para 2028.
Mas a arena é apenas uma parte de um amplo ciclo de investimentos do Mundial. Os recursos serão destinados principalmente aos setores como turismo, hotéis e logística, diz o embaixador.
“Você vê, dia a dia, as coisas mudando e acontecendo aqui em Marrocos. Muitos hotéis estão sendo construídos, as linhas de trem de alta velocidade estão sendo ampliadas e as cidades estão sendo modernizadas”, afirma Parola.
Os aeroportos, por exemplo, receberão cerca de US$ 4,2 bilhões em investimentos.
A expectativa é também ampliar a capacidade da rede hoteleira entre 100 mil e 150 mil novos leitos e elevar o fluxo anual de visitantes para 26 milhões de turistas até 2030.
Design do Grand Stade Hassan II: Copa do Mundo 2030 será disputada em Portugal, Espanha e Marrocos além de 3 países da América do Sul
Reprodução: Populous/Oualalou + Choi (Populous/Oualolou + Choi/Reprodução)
A Copa Africana de Nações que preparou o país para a Copa do Mundo de 2030
Antes da Copa do Mundo, Marrocos utilizou a AFCON (Africa Cup of Nations ou ‘Copa Africana de Nações’) como uma primeira prova de sua capacidade de receber grandes eventos esportivos.
O torneio, segundo o embaixador, gerou mais de € 1 bilhão (US$ 1,17 bilhão) em impacto econômico para o país, impulsionou a chegada de 19,8 milhões de turistas em 2025 (recorde histórico e crescimento de 14% sobre o ano anterior) e criou aproximadamente 100 mil empregos diretos e indiretos.
O evento também acelerou a economia. O PIB do país cresceu cerca de 4,5% durante o período, aproximadamente 3 mil empresas marroquinas participaram da cadeia de fornecimento da competição.
Um dos resultados mais importantes, segundo Parola, foi a velocidade das obras.
"Projetos que normalmente levariam dez anos ficaram prontos em aproximadamente dois anos. Hoje, podemos dizer que cerca de 80% da infraestrutura necessária para 2030 já está encaminhada," diz o embaixador.
Brasil ainda ocupa espaço pequeno em Marrocos
Embora o Marrocos tenha ampliado significativamente sua abertura econômica, a presença empresarial brasileira ainda é considerada reduzida.
Segundo Parola, enquanto França e Espanha possuem, cada uma, cerca de 800 empresas em operação no país, o Brasil ainda não conta com uma grande companhia instalada de forma consolidada no mercado marroquino.
A principal expectativa está em torno da Embraer. A fabricante brasileira de aeronaves já possui uma pequena estrutura no país, ainda em caráter inicial, e avalia ampliar sua presença no mercado. O setor aeroespacial é considerado estratégico para o Marrocos, que já reúne operações de grandes companhias internacionais e uma cadeia crescente de fornecedores e fabricantes de componentes.
“A Embraer tem uma pequena estrutura, quase como um projeto-piloto, mas está se instalando e tem planos de vir para cá. Acho que é uma iniciativa importante”, afirma o embaixador.
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A exportação bilateral entre Brasil x Marrocos
A relação comercial entre Brasil e Marrocos ganhou força a partir do fim da década de 1990 e se consolidou nos anos 2000, impulsionada pela complementaridade entre as duas economias. De um lado, o Brasil ampliou as vendas de produtos agrícolas e alimentos, como açúcar, milho, carnes e café. Do outro, o Marrocos se tornou um fornecedor estratégico de fertilizantes fosfatados, fundamentais para o agronegócio brasileiro.
A cooperação também cresce na pesquisa agrícola. Universidades brasileiras e a Embrapa desenvolvem projetos conjuntos com instituições marroquinas, como a OCP, voltados à agricultura em regiões áridas, segurança alimentar, fertilizantes e uso eficiente da água.
"O relacionamento precisa ir além da compra e venda. Precisamos de empresas brasileiras investindo aqui e empresas marroquinas investindo no Brasil," diz o embaixador.
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A expectativa do país em que a economia cresce apoiada em infraestrutura
Com cerca de 40 milhões de habitantes, o Marrocos tem um Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 194 bilhões, impulsionado principalmente pelos setores de indústria, turismo, construção civil, agricultura, mineração, logística e energias renováveis.
Para o embaixador, o ciclo de investimentos do país africano ocorre em um momento de expansão econômica.
A AFCON, por exemplo, ajudou a impulsionar o crescimento do PIB para aproximadamente 4,5%, enquanto a Copa do Mundo de 2030 deverá acrescentar entre 1% e 1,5% ao crescimento econômico durante o evento, segundo Parola.
O mercado de trabalho também apresentou melhora. Após registrar desemprego próximo de 13% entre 2023 e 2025, a taxa caiu para 10,8% no primeiro trimestre de 2026, diz o embaixador, considerando os dados mais recentes.
“Em 2025 foram criados 193 mil empregos, principalmente nos setores de serviços, construção e indústria”, diz. “Marrocos é um país em transformação”.
Ainda assim, desafios permanecem. O desemprego entre os jovens continua elevado, em 29,2%, enquanto entre as mulheres permanece em 16,1%, acima da taxa de 9,4% registrada entre os homens, segundo dados públicos. A distribuição de água e a desiguladade social ainda são outros desafios que o país enfrenta há décadas.
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Copa como estratégia de desenvolvimento
Até a Copa do Mundo de 2030, o Marrocos seguirá disputando duas partidas simultâneas. Dentro de campo, tentará superar o protagonismo conquistado por sua seleção nos últimos Mundiais. Fora dele, trabalha para transformar o torneio em uma vitrine para sua infraestrutura, indústria, turismo e capacidade de atrair investimentos.
“O que esperamos é construir sobre uma base já sólida um futuro ainda melhor. As oportunidades estão dadas, e não podemos perdê-las”, afirma Parola. “Marrocos é a porta de entrada para a África e para outros mercados globais”.
Até 2030, Marrocos seguirá como o embaixador resumiu nesta entrevista: um país em transformação. A nação que prepara o campo para receber o mundo é, ao mesmo tempo, o país que busca atrair empresas, investimentos e novas parcerias, inclusive com empresas brasileiras.
