Mata Atlântica paulista bate recorde de fauna enquanto desmatamento cai 29%

Um dos biomas mais devastados do planeta dá sinais de recuperação em São Paulo.
A Mata Atlântica, que perdeu 88% de sua cobertura original no Brasil, registrou simultaneamente dois resultados bastante promissores no estado: queda expressiva no desmatamento e recorde no monitoramento de fauna silvestre.
É o que revelam dados da Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), e obtidos em primeira mão pela EXAME: a plataforma Monitora Bio SP identificou mais de 166 mil registros individuais de animais em unidades de conservação.
Já o Atlas da Mata Atlântica, produzido pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE, aponta redução de 29% na supressão de vegetação nativa entre 2024 e 2025, quando o estado passou de 49 para 35 hectares desmatados no período, e zerou a perda de manguezais e restingas.
O sinal mais concreto dessa recuperação, no entanto, não está nos hectares preservados, mas nos animais que voltaram a circular depois de muito tempo.
Recorde de fauna histórica
O muriqui-do-sul, maior primata das Américas e um dos mais ameaçados da Mata Atlântica, teve 1.340 indivíduos monitorados e 253 avistamentos registrados entre 2023 e 2026, nas regiões do Vale do Ribeira e da Serra do Mar.
A onça-pintada — espécie dependente de grandes extensões contínuas de floresta — acumulou mais de 700 registros individuais nas áreas monitoradas.
As queixadas, animais-chave na dispersão de sementes e na regulação da floresta, saltaram de 4,4 mil para mais de 16 mil registros entre 2023 e 2025, crescimento de 264%. As antas ultrapassaram 14 mil ocorrências no mesmo período.
Entre as demais espécies monitoradas estão lobo-guará, cachorro-vinagre, raposinha-do-campo, cervo-do-pantanal, mico-leão-preto, mico-leão-da-cara-preta e outros felinos silvestres.
Somente no recorte da Mata Atlântica paulista, o programa contabilizou mais de 43 mil registros independentes de mamíferos e mais de 74 mil registros individuais de animais.
Esses animais têm em comum a sensibilidade à fragmentação florestal e é aí que entram os corredores ecológicos. Mantidos pelas unidades de conservação paulistas, eles permitem que espécies como onça, anta e muriqui circulem, encontrem parceiros reprodutivos e mantenham populações geneticamente viáveis.
A presença simultânea de onças, antas, muriquis e queixadas em uma mesma paisagem é considerada rara na Mata Atlântica atual e funciona, para os pesquisadores, como "termômetro da saúde ecológica" do bioma.
Com o fortalecimento da base científica, algumas espécies já apresentam reclassificações positivas no estado.
O que está por trás dos números positivos
O Monitora Bio SP opera desde 2022 e ampliou sua cobertura de 38 para 48 unidades de conservação entre 2023 e 2026. E
Essas áreas integram uma rede de 157 unidades administradas pela Fundação Florestal, que somam quase 5 milhões de hectares e representam cerca de 20% do território paulista.
São Paulo possui hoje 2,3 milhões de hectares de remanescentes preservados da Mata Atlântica, a segunda maior área absoluta do bioma no Brasil.
Os dados produzidos pelo programa já alimentam a atualização da Lista Estadual de Espécies Ameaçadas e os Planos de Ação Nacional (PANs), instrumentos que orientam políticas de conservação a nível nacional.
Para os especialistas envolvidos, a combinação entre proteção territorial, conectividade florestal e monitoramento científico contínuo explica por que um bioma tão pressionado ainda consegue sustentar fauna de grande porte e detacam por que escalar esse modelo pode ser decisivo para o futuro da biodiversidade brasileira.
