MCMV impulsiona venda de imóveis novos em 5% no 1⁰ semestre
Mercado vendeu 226,5 mil unidades no primeiro semestre, enquanto MCMV atingiu maior participação em 7 anos

O mercado residencial brasileiro comercializou 226.536 unidades novas entre janeiro e junho de 2026, alta de 5,4% sobre as 214.910 unidades vendidas em igual período de 2025. O avanço ocorreu em meio à Selic mantida em patamares elevados, cenário que normalmente encarece o crédito imobiliário e reduz a demanda por moradia.
A resistência do mercado está concentrada no avanço do Minha Casa, Minha Vida (MCMV). No segundo trimestre, as unidades enquadradas no programa responderam por 58% de todos os lançamentos do país, a maior participação registrada desde o início da série histórica, em 2019.
Mas a venda geral de imóveis novos também cresceu 5,3% no ano a ano somente no segundo trimestre, com o mercado comercializando 113.676 unidades. "Os números mostram um mercado saudável e estável", na visão do presidente da CBIC, Eduardo Aroeira Almeida.
Os dados fazem parte dos Indicadores Imobiliários Nacionais, pesquisa divulgada nesta segunda-feira, 24, pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e pelo Serviço Social da Indústria (Sesi). O levantamento foi elaborado pela Brain Inteligência Estratégica com base em dados de 221 municípios brasileiros.
MCMV ganha espaço com juros altos
Para o economista-chefe do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis do Estado de São Paulo (Secovi-SP) e conselheiro da CBIC, Celso Petrucci, a concentração do mercado no MCMV ainda pode aumentar.
Ele projeta que o programa pode alcançar cerca de 60% do mercado nacional de unidades caso a taxa básica de juros permaneça alta. Já as taxas de financiamento com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) seguem sendo, na visão dele, um dos principais argumentos das famílias na decisão de compra.
O apetite por crédito também aparece nos dados do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). As concessões para aquisição de imóveis por pessoas físicas somaram R$ 67,2 bilhões no primeiro semestre, alta de 12% ante igual período do ano passado.
"O novo modelo do SBPE já apresenta resultados concretos, com avanço do crédito imobiliário e perspectivas positivas para o mercado", conforme Almeida.
Já os financiamentos destinados à construção, voltados às incorporadoras, praticamente dobraram de tamanho. O volume avançou 107%, de R$ 12,8 bilhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 26,5 bilhões no primeiro semestre de 2026.
O vice-presidente da Indústria Imobiliária da CBIC e presidente do Secovi-SP, Ely Wertheim, vê que o avanço do financiamento é um sinal importante. "Mais crédito amplia a capacidade de compra das famílias, fortalece a demanda e contribui para manter o ritmo das vendas, com efeitos positivos para toda a cadeia imobiliária."
Efeito MCMV reduz valor médio das vendas
A maior participação do MCMV também alterou os valores médios movimentados pelo setor. Como as unidades do programa têm teto de valor mais baixo que os imóveis de padrão médio e alto, o aumento de sua fatia no mercado pressionou para baixo o valor médio das operações.
O ticket médio das vendas recuou 10,3% na comparação anual e fechou o segundo trimestre em R$ 581,9 mil. O Valor Geral de Vendas (VGV) somou R$ 66,2 bilhões, queda de 5,5% ante igual trimestre de 2025.O Valor Geral de Lançamentos (VGL) teve retração ainda maior, de 23,1%, para R$ 62,4 bilhões entre abril e junho.
Imóveis menores ganham espaço
O mercado imobiliário brasileiro segue concentrado em imóveis de dois dormitórios, que continuam liderando tanto os lançamentos quanto as vendas. No segundo trimestre, eles responderam por 62,4% das unidades lançadas e 65,2% das comercializadas.
A preferência permanece estável. Desde o terceiro trimestre de 2025, os imóveis de dois dormitórios representam mais de 62% dos lançamentos e mais de 63% das vendas. Já os imóveis de um dormitório aparecem na segunda posição e ganharam espaço na oferta.
No segundo trimestre, responderam por 26,6% dos lançamentos, maior participação dos últimos quatro trimestres, e por 23,1% das vendas. O desempenho acompanha a busca por unidades menores, especialmente entre compradores que priorizam praticidade e moradia individual nos grandes centros urbanos.
As unidades maiores, por outro lado, mantêm participação mais restrita. Os imóveis de três dormitórios representaram 8,5% dos lançamentos e 10% das vendas no segundo trimestre, enquanto os apartamentos de quatro dormitórios ou mais responderam por apenas 2,5% das novas unidades e 1,8% das comercializadas.
Estoque e cenário regional desigual
Entre as regiões, o comportamento também é desigual. Nordeste e Centro-Oeste se destacaram pelo avanço dos lançamentos, de 24,6% e 19,1%, respectivamente. Cidades como Fortaleza e Salvador vêm registrando maior liquidez e valorização dos imóveis de alto padrão.
Na direção oposta, Sul e Norte registraram quedas nos lançamentos, de 25,1% e 35,2%, respectivamente. No Sul, a menor participação do Minha Casa, Minha Vida, responsável por 29% dos lançamentos, pesou sobre o resultado.
Já o Sudeste manteve um ritmo resiliente (1,2%) de vendas em diferentes faixas de padrão.
No geral, o volume de lançamentos no primeiro semestre ficou praticamente estável, com retração de 0,3%, para 211.651 unidades. Ainda assim, o ritmo de vendas foi suficiente para reduzir a oferta disponível no mercado.
Ao final de junho, o estoque de imóveis novos não vendidos somava 355.290 unidades, queda de 2,1% ante o trimestre anterior e alta de 8,2% na base anual.Intenção de compra em 52%; eleições não preocupam
Mesmo com o crédito mais caro, a intenção de compra de imóveis para os próximos 24 meses atingiu 52% das famílias entrevistadas pela pesquisa. O resultado representa avanço de três pontos percentuais ante os 49% registrados em igual trimestre de 2025.
Além disso, os especialistas descartam um efeito significativo das eleições de 2026 no mercado imobiliário. Argumentam que a jornada de compra mudou, com maior peso da busca digital e que as decisões de moradia seguem necessidades pessoais, como casamentos e filhos, não o calendário eleitoral.
Embora alguns empresários adiem lançamentos por cautela, a demanda permanece resiliente. A Taxa Selic e as políticas fiscais futuras, por outro lado, exercem influência muito maior sobre o mercado do que o pleito eleitoral propriamente dito, acrescentam.
