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CiênciaCMDT
12/10/2026
4 min

Menos açúcar na infância: o que aconteceu com a saúde 70 anos depois?

Estudos associaram menor exposição nos primeiros 1.000 dias a riscos reduzidos de diabetes, hipertensão e ansiedade décadas depois

Menos açúcar na infância: o que aconteceu com a saúde 70 anos depois?

Consumir menos açúcar nos primeiros anos de vida pode estar associado a diferenças na saúde que permanecem por mais de sete décadas. A conclusão é de uma série de estudos que analisou pessoas nascidas durante o racionamento de açúcar no Reino Unido e comparou os resultados com indivíduos nascidos após o fim das restrições.

Entre as associações encontradas estão menores riscos de diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, demência e ansiedade, além de diferenças em indicadores de envelhecimento.

As pesquisas utilizam principalmente informações do UK Biobank, banco de dados que reúne informações de saúde de milhares de britânicos. As informações foram destacadas pelo jornal The Guardian.

Racionamento criou experimento natural

O açúcar permaneceu racionado no Reino Unido mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Adultos tinham acesso a aproximadamente 40 gramas por dia, enquanto crianças recebiam quantidades menores. Bebês e crianças muito pequenas deveriam consumir pouco ou nenhum açúcar adicionado.

As restrições para docese chocolates terminaram em fevereiro de 1953. O racionamento específico do açúcar chegou ao fim em setembro do mesmo ano. No segundo semestre de 1954, o consumo médio do alimento quase dobrou.

A mudança abrupta permitiu comparar pessoas expostas a diferentes quantidades durante períodos importantes do desenvolvimento. Alguns participantes tiveram contato com o ambiente de baixo consumo apenas durante a gestação. Outros permaneceram sob as restrições durante meses ou anos após o nascimento.

De acordo com as análises, pessoas concebidas depois do fim do racionamento não passaram pela mesma condição.

Diabetes e hipertensão apresentaram diferenças décadas depois

Um dos principais estudos sobre o período foi publicado na revista científica Science. Tadeja Gračner, da Universidade do Sul da Califórnia, e colaboradores analisaram dados do UK Biobank. Quanto maior o período vivido sob o racionamento nos primeiros anos, menores foram alguns riscos registrados posteriormente.

Participantes expostos durante os primeiros 1.000 dias de vida apresentaram risco 35% menor de diabetes tipo 2 em comparação com pessoas sem exposição ao racionamento. O risco de hipertensão foi 20% menor.

Os primeiros 1.000 dias correspondem aproximadamente à gestação e aos dois primeiros anos após o nascimento. As descobertas motivaram novas pesquisas sobre possíveis associações com outras condições de saúde.

Estudos posteriores encontraram associações envolvendo diferentes partes do organismo. Pesquisas conduzidas por Jiazhen Zheng, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, em Guangzhou, relacionaram a menor exposição ao açúcar a diferenças em doenças cardiovasculares, hepáticas e respiratórias, além dedemência.

Outra análise investigou indicadores relacionados aoenvelhecimento. Participantes expostos ao racionamento apresentaram menor incidência geral de doenças associadas ao envelhecimento e medidas de idade biológica ligeiramente menores.

Em diferentes indicadores, a idade biológica ficou cerca de um ano abaixo da registrada entre participantes sem a mesma exposição. Os pesquisadores também identificaram diferenças em proteínas relacionadas a mecanismos utilizados pelas células para responder aos nutrientes.

Saúde mental também apresentou diferenças

Outra pesquisa analisou possíveis efeitos relacionados à saúde mental. Nophar Geifman, da Universidade de Surrey, e colaboradores encontraram risco 33% menor de diagnóstico de ansiedade entre participantes que passaram os primeiros 1.000 dias sob racionamento.

O grupo também apresentou menor probabilidade de relatar preferência por alimentos doces décadas depois. Segundo Geifman, o ambiente nutricional durante os primeiros anos pode ter relevância prolongada para a saúde mental.

Por que os primeiros 1.000 dias podem ser decisivos?

Os mecanismos responsáveis pelas diferenças observadas ainda não estão esclarecidos. Uma possibilidade envolve a formação precoce das preferências alimentares. Outra hipótese considera alterações metabólicas desenvolvidas nos primeiros anos.

Uma pesquisa da equipe de Gračner, ainda em processo de revisão por pares, também investiga a interação entre alimentação e predisposição genética ao peso corporal.

Os resultados preliminares sugerem que o racionamento pode reduzir a influência de variantes genéticas relacionadas a um peso mais elevado. Entre os mecanismos investigados estão programação metabólica, sensibilidade à insulina, regulação do apetite e desenvolvimento do tecido adiposo.

No caso da ansiedade, pesquisadores consideram que o rápido desenvolvimento cerebral durante a gestação e a primeira infância pode aumentar a sensibilidade ao ambiente nutricional. As possíveis explicações ainda precisam de novas pesquisas.

O que os estudos ainda não explicam

Grande parte das pesquisas recentes utiliza grupos sobrepostos de participantes do UK Biobank. Por isso, os resultados não representam replicações totalmente independentes. Gračner aponta a necessidade de comparar os achados com outros conjuntos de dados e diferentes desenhos de pesquisa.

Os estudos atuais também não determinam uma quantidade específica de açúcar capaz de provocar as diferenças observadas.

As evidências indicam possível importância da exposição durante a gestação. Algumas associações ficam mais fortes quando o racionamento continua após os seis meses, período próximo à introdução de alimentos sólidos.

Os pesquisadores também destacam que o racionamento britânico não representou privação alimentar severa. A restrição atingia principalmente o açúcar, enquanto a alimentação geral permanecia relativamente adequada. Por isso, os resultados não indicam que restrições alimentares severas durante a infância sejam benéficas.

AutorVanessa Loiola
FonteExame
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