Menos boi, mais prejuízo: frigorífico dos EUA pode perder até US$ 650 milhões
Escassez de animais para abate derruba volumes, pressiona margens e mantém a divisão de carne bovina como o principal desafio da Tyson Foods nos EUA

O menor rebanho bovino dos Estados Unidos em mais de sete décadas continua cobrando seu preço dos frigoríficos. A Tyson Foods projetou prejuízos entre US$ 500 milhões e US$ 650 milhões em sua operação de carne bovina no ano fiscal de 2026, que se encerra em 30 de setembro, reforçando que o segmento seguirá como o principal desafio da companhia.
Os resultados divulgados nesta segunda-feira, 3, já refletem esse cenário. A receita da divisão de carne bovina caiu 3,9% no terceiro trimestre, pressionada por uma redução de 16% no volume comercializado. A empresa afirma que não pretende esperar pela recuperação do ciclo pecuário para melhorar os resultados.
"Não estamos esperando passivamente que o ciclo do gado mude e continuamos focados em melhorar as variáveis que controlamos", disse Curt Calaway, CFO da Tyson Foods, durante coletiva com investidores.
O desempenho da Tyson reflete o pior momento do ciclo pecuário americano em décadas. A escassez de animais para abate elevou custos e comprimiu as margens dos frigoríficos. O cenário levou grandes frigoríficos como a própria Tyson, Cargill e JBS, fecharem unidades fabris nos EUA.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os EUA perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.
Apesar das perdas na operação de carne bovina, a Tyson Foods apresentou resultados mistos no terceiro trimestre.
A receita ficou praticamente estável em relação ao mesmo período do ano passado, somando US$ 13,87 bilhões. Desconsiderando o impacto de uma contingência judicial de US$ 98 milhões, o faturamento teria avançado 0,6% na comparação anual.
O resultado, no entanto, ficou abaixo da expectativa do mercado, que projetava receita de US$ 14,07 bilhões. Nos nove primeiros meses do ano fiscal, a companhia acumulou receita de US$ 41,83 bilhões, alta de 3,1% sobre o mesmo período do ano anterior.
Segundo Donnie King, CEO da Tyson Foods, o desempenho foi sustentado principalmente pelas divisões de frango e alimentos preparados.
"Apresentamos resultados sólidos no terceiro trimestre, impulsionados pela força contínua em nossos segmentos de frango e alimentos preparados", afirmou.
King deixará o comando da companhia ao fim do ano fiscal, em 30 de setembro, mas permanecerá no conselho de administração. Jeff Schomburger assumirá o cargo de CEO.
Crise da carne
Na análise do mercado, o ciclo ruim da pecuária nos Estados Unidos deve pesar sobre os resultados dos frigoríficos no segundo trimestre de 2026.
Para o BTG, por exemplo, os mercados de carne bovina, frango e suínos passaram a enfrentar dificuldades ao mesmo tempo, tornando o período um ponto de inflexão para frigoríficos como JBS, MBRF, Tyson Foods, Pilgrim's Pride e Minerva, com pressão sobre as margens em praticamente todas as principais operações.
Na prática, segundo o banco, isso significa que empresas presentes em bovinos, aves e suínos terão menos capacidade de compensar a fraqueza de uma operação com o desempenho de outra, tornando a temporada de resultados mais desafiadora.
Entretanto, o mercado americano de carne bovina continua sendo o principal foco de preocupação para o setor.
