Menos China, menos gado: o que está segurando o preço do boi gordo
Com menos gado disponível e China comprando menos, mercado se equilibra entre preços firmes e demanda mais fraca, diz Itaú BBA

As restrições impostas pela China às importações de carne bovina brasileira passaram a pesar sobre os embarques do setor e devem limitar movimentos mais fortes de alta do boi gordo no curto prazo. A análise é do Itaú BBA, braço de agro do banco.
Em julho, o Brasil exportou 228 mil toneladas de carne bovina in natura, queda de 19% em relação a junho e de 18% ante o mesmo período de 2025. A retração foi puxada principalmente pelo mercado chinês. Os embarques brasileiros para a China recuaram 48% na comparação anual, em um momento em que o país asiático passou a administrar as compras por meio de cotas de importação.
No final de 2025, a China estabeleceu uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira. Dentro desse limite, o produto segue sujeito à tarifa padrão de 12%. O volume que ultrapassar a cota passa a pagar sobretaxa adicional de 55%, o que encarece a carne excedente e tende a reduzir a competitividade das exportações brasileiras.
Amedida funciona como uma salvaguarda comercial para proteger a produção e os pecuaristas chineses de oscilações mais intensas de preços. Para o Brasil, principal fornecedor de carne bovina ao mercado chinês, a mudança passou a representar um novo fator de limitação para os embarques.
Parte da queda das vendas para a China foi compensada pela expansão para outros destinos. As exportações para os Estados Unidos cresceram 106% em um ano, enquanto os embarques para o Chile avançaram 88%.
A alteração no mix de destinos também afetou os preços. O valor médio da carne bovina exportada caiu 2,8% em relação a junho. Em contrapartida, o custo do boi gordo convertido em dólar recuou 3,7% no mesmo período.
Com isso, o spread das exportações permaneceu próximo de 11%, em linha com a média dos últimos cinco anos, segundo o Itaú BBA. Apesar da queda dos embarques e da menor participação chinesa, portanto, a rentabilidade das exportações ainda se mantém próxima dos padrões históricos.
Para agosto e setembro, o Itaú BBA espera um ambiente de liquidez reduzida e menor suporte das exportações, principalmente em razão da China. Ao mesmo tempo, a oferta de animais deve continuar relativamente ajustada, com menor disponibilidade de bovinos vindos dos confinamentos.
A perspectiva melhora quando o horizonte avança para os últimos meses do ano. O banco avalia que a normalização da originação de animais para atender ao mercado chinês tende a criar um ambiente mais positivo para o boi gordo no quarto trimestre.
Esse cenário pode ganhar força caso a oferta continue restrita. Segundo o Itaú BBA, a combinação entre menor disponibilidade de animais e recuperação da demanda externa pode tornar o fim do ano mais construtivo para as cotações.
O mercado futuro já chegou a incorporar parte dessa expectativa. Em 21 de julho, o contrato de boi gordo com vencimento em novembro era negociado próximo de R$ 370 por arroba, cerca de R$ 26 acima do mercado físico.
Em meados de agosto, porém, o prêmio havia diminuído para aproximadamente R$ 10 por arroba. A redução mostra que os contratos continuam projetando preços firmes no fim do ano, mas com menor otimismo do que algumas semanas antes.
Para o Itaú BBA, os próximos meses continuarão divididos entre duas forças. De um lado, a oferta restrita sustenta os preços. De outro, a fraqueza das exportações para a China limita movimentos mais expressivos de valorização.
O banco mantém uma visão positiva para o último trimestre, mas destaca a importância da gestão de risco. Entre os pontos de atenção estão eventuais oportunidades no mercado futuro e possíveis descolamentos entre os contratos e os preços físicos, especialmente com a aproximação do fim do período de proteção do gado a ser entregue.
Por que o preço do boi gordo sobe
Mesmo com o enfraquecimento das exportações, a menor disponibilidade de animais prontos para abate voltou a dar sustentação ao mercado doméstico. Em São Paulo, a arroba do boi gordo acumulou alta de 7% nos 30 dias encerrados em 13 de agosto.
A recuperação começou na segunda quinzena de julho e avançou no início de agosto. Segundo o Itaú BBA, o movimento ocorreu diante da redução da oferta de animais terminados, levando frigoríficos mais expostos ao mercado interno a elevar as ofertas para recompor as escalas de abate.
Apesar da valorização do boi, a carne no atacado não acompanhou o movimento na mesma intensidade. A carcaça casada subiu cerca de 2% no mesmo período, ante os 7% registrados pelo animal.
Com isso, o spread da indústria no mercado interno ficou mais pressionado, embora permaneça em patamar considerado historicamente sustentável pelo Itaú BBA. A indústria, portanto, precisa disputar uma oferta menor de gado sem conseguir repassar integralmente a alta dos custos para a carne.
Essa diferença ajuda a explicar por que a valorização da arroba encontra resistência mesmo diante de escalas mais curtas. A menor disponibilidade de animais estabelece um piso para os preços, enquanto o comportamento da demanda limita movimentos mais fortes de alta.
O mercado de reposição também exige atenção. Embora o preço do bezerro em Mato Grosso do Sul tenha subido menos que o boi gordo nos últimos 30 dias, a relação de troca segue desfavorável para as operações de recria e engorda.
Em julho, essa relação atingiu o pior nível dos últimos cinco anos, segundo o relatório, reforçando a pressão sobre as margens dessa etapa da cadeia pecuária.
