Menos cortes nos juros, mais inflação: Focus muda de cara às vésperas do Copom
Após surpresa nas urnas, mercado revê até estimativas paradas há mais de um ano e passa a prever inflação, Selic e dólar maiores, com PIB mais fraco, às vésperas do Copom.

A turbulência que tomou conta dos mercados na esteira da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou às contas dos economistas. No primeiro Boletim Focus apurado após o segundo turno das eleições presidenciais, as projeções passaram por uma revisão quase generalizada: o mercado agora espera inflação, juros e dólar mais altos, com crescimento econômico menor.
A mudança alcançou até estimativas que pareciam esquecidas na gaveta. A previsão para a Selic no fim de 2029 subiu de 10% para 10,25% ao ano, depois de 25 semanas sem alteração. Já a expectativa para a inflação dos preços administrados naquele ano avançou de 3,50% para 3,66%, encerrando uma sequência de 67 semanas de estabilidade.
Entre as quatro principais variáveis do levantamento, 15 das 16 projeções para o período de 2026 a 2029 mudaram em relação à semana anterior. A única que escapou foi a previsão de crescimento de 2029, mantida em 2% pela 85ª semana consecutiva.
O movimento sucede uma semana atípica nos mercados. A reeleição de Lula contrariou as apostas de investidores que se posicionavam para uma vitória de Flávio Bolsonaro. A reação foi uma corrida para ajustar as carteiras: no primeiro pregão após a votação, o dólar disparou 8,21% e o Ibovespa caiu 13,88%, com interrupção temporária das negociações.
A atualização das projeções também ocorre às vésperas de mais uma decisão de juros por parte do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC).
Inflação mais alta
A revisão mais expressiva do IPCA ocorreu em 2027. A expectativa para a inflação do próximo ano saltou de 4,34% para 4,76%, ultrapassando o teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta.
Para 2026, a projeção avançou de 5,19% para 5,22%. A piora também chegou aos horizontes mais distantes: a estimativa para 2028 passou de 3,75% para 4%, enquanto a de 2029 subiu de 3,50% para 3,98%.
O recado das revisões é que os economistas passaram a enxergar uma inflação mais resistente também nos próximos anos.
O câmbio ajuda a entender essa preocupação. Um dólar mais caro pode elevar os custos de produtos importados e de insumos utilizados pelas empresas brasileiras, pressionando os preços ao consumidor.
No Focus, a expectativa para a moeda americana no encerramento de 2026 passou de R$ 5,05 para R$ 5,34. Para 2027, avançou de R$ 5,15 para R$ 5,40. As projeções para 2028 e 2029 também subiram, para R$ 5,40 e R$ 5,45, respectivamente.
Menos espaço para cortar os juros
Com a inflação esperada mais alta, o mercado reduziu o tamanho do alívio que prevê para os juros.
A projeção para a Selic no fim de 2026 subiu de 13,25% para 13,50% ao ano. Para 2027, a revisão foi ainda maior: de 11,75% para 12,50%. Em 2028, a estimativa passou de 10% para 11%.
A mudança ganha peso porque o Copom decide os juros nesta quarta-feira (4), na primeira reunião após o resultado eleitoral. A Selic está em 13,75% ao ano.
Na mediana geral, a previsão para a Selic de novembro continuou em 13,50%, indicando um corte de 0,25 ponto percentual. Mas, considerando apenas as respostas atualizadas nos últimos cinco dias úteis, a estimativa passou para 13,75%, compatível com a manutenção da taxa.
Esse mesmo grupo de respostas mais recentes também aponta Selic de 13,75% no encerramento de dezembro. Ou seja: entre os economistas que atualizaram suas estimativas no período mais próximo da turbulência, a mediana já deixou de apontar novos cortes neste ano.
Crescimento do PIB perde força
Enquanto inflação, dólar e juros foram revistos para cima, as projeções para a atividade seguiram na direção oposta.
A expectativa de crescimento do PIB de 2026 caiu de 1,80% para 1,76%. Para 2027, recuou de 1,31% para 1,20%. Ambas acumulam três semanas consecutivas de redução — portanto, a perda de fôlego esperada para a economia já vinha de antes da eleição.
As respostas mais recentes, porém, mostram um cenário ainda mais fraco: entre os participantes que atualizaram as projeções nos últimos cinco dias úteis, a mediana é de 1,70% para 2026 e de 1% para 2027.
