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TecnologiaBDR
22/09/2026
6 min

Menos motoristas, mais drones: a estratégia da Amazon para baratear o frete nos EUA

Empresa amplia operação aérea nos EUA com pacotes de até 2,3 quilos e entregas em cerca de 30 minutos

Menos motoristas, mais drones: a estratégia da Amazon para baratear o frete nos EUA

Treze anos depois de Jeff Bezos apresentar a ideia na televisão americana, a entrega por drone da Amazon deixou de ser um experimento. A empresa afirma ter entregado centenas de milhares de pacotes pelo ar só neste ano, com milhares de voos por dia, e anunciou em agosto que o Prime Air vai atender quase 500 cidades nos Estados Unidos até o fim de 2026, seis vezes mais do que hoje.

As "500 cidades" não significam 500 bases. Cada ponto de decolagem cobre cerca de 450 quilômetros quadrados, área suficiente para atender vários municípios vizinhos de uma vez. Hoje, o serviço opera a partir de 11 bases espalhadas por dez regiões metropolitanas, entre elas Phoenix, Tampa, Detroit e Dallas. As regiões metropolitanas de Chicago, Atlanta, Cleveland, Syracuse e Boise devem ser as próximas a receber os drones.

O custo mais caro da compra on-line

A insistência da Amazon em um projeto que levou mais de uma década para sair do papel tem uma explicação financeira. No comércio eletrônico, a etapa mais cara não é armazenar ou separar o produto, e sim levá-lo do centro de distribuição até a porta do cliente, os chamados últimos quilômetros.

Essa fase responde por mais de 60% do custo total de uma entrega, segundo a consultoria Coherent Market Insights, que estima o mercado global de entregas de última milha em US$ 207 bilhões neste ano.

É também a etapa que mais depende de gente. Hoje, esse trabalho é feito por vans e motoristas, e a Amazon é o segundo maior empregador privado dos Estados Unidos, com cerca de 1,2 milhão de funcionários no país, número que triplicou desde 2018. Cada pacote entregue por drone é uma parada a menos na rota de um motorista.

O mercado de drones de entrega ainda é pequeno perto disso. A consultoria MarketsandMarkets calcula que ele deve movimentar US$ 2,9 bilhões em 2026 e chegar a US$ 7,7 bilhões em 2031, com crescimento de cerca de 22% ao ano. Para a Amazon, porém, o valor está menos no tamanho desse mercado e mais no que ele pode economizar dentro do próprio negócio.

Uma peça do plano de automação

Os drones se encaixam num plano mais amplo. Documentos internos revelados pelo jornal The New York Times em outubro de 2025 mostram que a equipe de automação da Amazon quer automatizar 75% das operações da empresa.

A meta permitiria dobrar as vendas até 2033 sem aumentar o quadro de funcionários nos Estados Unidos, o que significaria deixar de contratar mais de 600 mil pessoas. Só até 2027, a automação reduziria em cerca de 30 centavos de dólar o custo de cada item separado, embalado e entregue.

A Amazon diz que os documentos são legítimos, mas incompletos, e que não representam sua estratégia geral de contratação. A empresa afirma que os funcionários atuais não vão perder o emprego para robôs.

Por enquanto, a troca é parcial. O Prime Air só leva pacotes de até 2,3 quilos, embora a Amazon diga que a maior parte dos itens mais pedidos, de remédios a eletrônicos, caiba nesse limite. A empresa também não está sozinha: o Walmart opera entregas por drone com parceiros como a Wing, do Google, e a Zipline, a DoorDash recebeu aval federal para ter sua própria rede, e a Uber fechou parceria com a Zipline.

O freio vem dos bairros

O obstáculo mais imediato não é técnico. Richardson, no subúrbio de Dallas, virou o principal foco de resistência ao Prime Air. Numa audiência pública em março, uma moradora resumiu a queixa que se repetiria nos meses seguintes: disse ouvir o zumbido dos drones o tempo todo e descreveu o som como irritante e nada tranquilo. Outros moradores comparam o barulho ao de um enxame de abelhas.

A insatisfação se transformou até em uma organização. Um grupo de moradores de Richardson e de cidades vizinhas, como Garland e Plano, criou um site para contestar as operações.

O grupo afirma ter registrado 122 voos sobre uma única casa em um dia e distribui modelos de carta para vereadores, orientações para registrar queixas na FAA e sugestões para que associações de moradores restrinjam o recebimento de entregas por drone. Parte dos moradores passou também a alertar autoridades de outras cidades da rota de expansão, segundo o The New York Times.

Moradores também se queixam das câmeras a bordo e da segurança dos voos sobre áreas residenciais. Em fevereiro, um drone do Prime Air atingiu um prédio de apartamentos na cidade.

Nem todos se incomodam. Ryan Tennyson, morador de Richardson, contou à emissora local Spectrum News que recebeu um pedido em menos de 30 minutos e gostou da conveniência, embora entenda a irritação dos vizinhos. Para ele, a cidade pode se acostumar aos drones, assim como quem mora perto de trilhos se acostuma aos trens.

Uma prefeitura sem controle sobre o céu

A prefeitura tem pouca margem de ação porque o espaço aéreo é controlado pela agência de aviação americana, a FAA. O administrador municipal, Don Magner, afirmou que a cidade passou a negociar com a Amazon medidas para reduzir o barulho. A empresa diz ter elevado a altitude média dos voos e ajustado as rotas para concentrá-los sobre áreas comerciais.

A Amazon sustenta que o ruído é breve. Segundo a empresa, cada drone fica audível por cerca de 20 segundos, na descida e na subida, com volume menor que o de um cortador de grama, e as câmeras servem apenas para navegação. Ao NYT, a Amazon afirmou que menos de 1% das consultas sobre o programa neste ano trataram de barulho.

Mas Richardson não é o primeiro caso. Em 2024, o prefeito de College Station, também no Texas, enviou uma carta à FAA relatando queixas de moradores vizinhos à base do Prime Air. Na ocasião, a Amazon pedia autorização para passar de 200 para 469 voos por dia. Numa reunião da Câmara Municipal, um morador chegou a tocar a gravação de uma motosserra para ilustrar o barulho.

A margem para esse tipo de contestação deve diminuir. Em julho, a FAA concluiu que o ruído dos drones não precisa ser avaliado cidade a cidade, o que reduz o espaço para consultas públicas nas localidades que ainda vão receber o serviço, justamente as quase 500 do plano de expansão.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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