Mercado aposta que nada vai melhorar no Brasil. É justamente por isso que gestores estão comprando renda fixa
A avaliação de gestores é que o mercado já embutiu um cenário ruim demais para o país. Se houver qualquer melhora, os ganhos podem ser relevantes

Os gestores de fundos de investimento estão pessimistas. Não só com o Brasil, mas com o mundo. As premissas conhecidas sobre o crescimento da economia, juros e inflação não estão respondendo como o esperado. Os parâmetros que indicavam dólar forte ou fraco também não.
A percepção geral é de que o mundo mudou e o mercado demorou a entender.
Em painel durante o evento Macro Day, promovido pelo BTG Pactual nesta segunda-feira (31), Fabiano Rios, sócio-fundador da Absolute Investimentos, afirmou que podemos estar vivendo algo parecido com a "exuberância irracional" dos anos 1990.
"O que vemos é uma expectativa de crescimento da atividade mesmo com juros e inflação alta no mundo. Não é um cenário maligno como já foi, mas exige uma paciência maior", disse Rios.
A avaliação do gestor é sobre o cenário global. Para o Brasil, as expectativas são ainda piores.
Tudo depende do fiscal
Além de Rios, participaram do painel Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo, e Rodrigo Carvalho, sócio da BTG Pactual Asset Management.
Os três gestores são unânimes na avaliação de que o país vive uma deterioração fiscal, que sustenta juros muito altos. Os estímulos de créditos, que permitiram a economia continuar crescendo neste ambiente em anos anteriores, já não funcionam mais.
De um lado, Carvalho vê chances razoáveis de um ajuste fiscal em 2027, que dê espaço para cortar mais os juros. O gestor acredita que o governo eleito, seja qual for, deve apresentar reformas focadas da diminuição de gastos.
Entretanto, essa não é uma expectativa compartilhada pelo mercado.
A visão geral dos agentes financeiros é bem mais pessimista. O mercado está estacionado neste momento, sem apostas sobre juros menores no futuro. No entanto, o movimento é de se antecipar aos eventos futuros.
Ou seja, na prática, o mercado está pagando para manter a posição de que nada vai melhorar.
Woelz, da Kapitalo, acredita nisso.
O gestor só vê chances de mudanças diante de uma troca de governo. Caso o governo atual, de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), se reeleja, Woelz acredita que a fórmula atual irá se manter.
No caso: sem cortes de gastos significativos, injeção de capital via crédito e programas sociais.
"Esse ciclo se esgotou. O governo teria que aceitar que é o momento de desacelerar, não pedalar essa bicicleta para sempre. Mas não acredito nessa possibilidade, então prefiro ficar de fora", disse o gestor da Kapitalo.
Onde investir no Brasil
Renda fixa
Carvalho, da BTG Asset, e Rios, da Absolure, apostam no Brasil.
Mais especificamente, na renda fixa.
O fato de o mercado não esperar juros menores no futuro e precificar isso na curva de juros é uma oportunidade para Rios.
Os preços dos títulos de renda fixa seguem as precificações da curva para o vencimento do papel. Se o mercado não ajusta essas apostas e os juros, de fato, cair no futuro, o potencial de valorização é grande, segundo o gestor.
"Um ajuste fiscal pequeno já vai derrubar os juros de curto prazo. A economia está capengando e qualquer susto positivo vai causar uma reação mais forte. É uma grande oportunidade", disse o gestor.
Para ele, essa assimetria é muito positiva nos títulos prefixados e nos indexados à inflação, que são mais sensíveis aos movimentos da curva de juros.
Nesta segunda-feira (31), o título prefixado do governo com vencimento em 2029 está oferecendo 14,13% ao ano. Entretanto, não é esperado que a taxa Selic esteja nos mesmos 14% atuais daqui a três anos.
"Tem muito pouco precificado. E, em algum momento, seja em um novo governo ou na continuidade desse, vai ter correção desses preços", disse Rios.
Ibovespa
As expectativas em relação à bolsa foram bem menos entusiasmadas.
Isso não significa, entretanto, que eles estejam evitando ações — mas a escolha tem sido mais seletiva.
Na Absolute, por exemplo, a preferência está longe dos setores que dependem diretamente do crescimento da economia brasileira. A aposta é em exportadoras e em empresas que podem se beneficiar de juros reais (acima da inflação) mais baixos no futuro.
O BTG também trabalha com alguns setores mais seguros da bolsa. O gestor destaca que, neste ano, a volatilidade está menos do que o histórico de eleições de anos anteriores. Para ele, isso mostra a cautela dos mercados em se posicionar.
Outra aposta da asset do banco é na expectativa de valorização do dólar nos próximos meses. A casa está comprada na moeda norte-americana como estratégia de proteção.
