Mercado chinês de smartphones cai pelo 5º trimestre e testa nova corrida por IA

As vendas de smartphones na China caíram 4,3% no segundo trimestre de 2026, para cerca de 66 milhões de unidades, no quinto período consecutivo de retração anual, segundo dados preliminares da IDC.
AHuawei assumiu a liderança, com 22,6% dos aparelhos enviados às lojas e crescimento anual de 19,4%. A Apple ficou em segundo lugar, com participação de 18,1% e avanço de 24,4%, enquanto OPPO e vivo empataram na terceira posição, com 16% cada.
O desempenho do país merece atenção porque a China é um dos maiores e mais competitivos mercados nacionais de celulares. Além de reunir fabricantes que disputam consumidores em diferentes regiões do mundo, o país funciona como campo de teste para estratégias de preço, novos componentes, sistemas operacionais e recursos de inteligência artificial.
O recuo do trimestre foi provocado principalmente pelo aumento dos custos de memória e de outros componentes desde o fim de março. A maior parte das fabricantes de aparelhos com Android, sistema operacional do Google, respondeu elevando preços ou reduzindo configurações, o que desestimulou a troca de celulares.
O efeito dos subsídios concedidos pelo governo chinês também perdeu força. Essa combinação apareceu durante o festival promocional “618”, uma das principais temporadas de compras do comércio eletrônico chinês, quando as vendas de celulares caíram perto de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Huawei e Apple seguiram na direção oposta porque mantiveram os preços estáveis enquanto as principais concorrentes aumentavam seus valores, segundo a IDC. As duas empresas também recorreram a promoções direcionadas e se beneficiaram da força de suas marcas.
A Huawei ampliou sua linha de produtos para atender diferentes faixas de preço. Já a expectativa de reajustes nos aparelhos da Apple previstos para o segundo semestre, teria levado parte dos consumidores a antecipar a compra da série iPhone 17.
Entre as demais fabricantes, a Xiaomi registrou a maior queda entre as seis líderes, de 21,7%, e terminou o trimestre com 12,4% do mercado. Honor, OPPO e vivo também recuaram, enquanto a Samsung ficou com apenas 0,1% das vendas e apresentou queda anual de 60,8%.
As seis maiores fabricantes passaram a concentrar aproximadamente 96% do mercado chinês, reduzindo ainda mais o espaço disponível para marcas pequenas e médias. A concentração mostra que, mesmo em um mercado de dezenas de milhões de unidades por trimestre, poucas empresas conseguem sustentar escala, distribuição e investimentos em desenvolvimento de produtos.
Por que a China importa para o mercado global
A China não reproduz exatamente o ranking mundial de fabricantes. A presença reduzida da Samsung, líder em diferentes regiões, contrasta com a força de empresas chinesas como Huawei, OPPO, vivo, Xiaomi e Honor. Ainda assim, os movimentos do país ajudam a indicar tendências que podem alcançar outros mercados.
Como essas fabricantes compram componentes em grande escala e vendem aparelhos em diferentes continentes, alterações nos custos de memória, telas e semicondutores podem afetar seus preços, margens e calendários de lançamento fora da China. O país também concentra uma disputa intensa por consumidores, o que acelera a adoção de novos formatos e funcionalidades.
O desempenho da Apple é outro indicador relevante. A empresa compete na China tanto com fabricantes de aparelhos premium quanto com ecossistemas locais de aplicativos, serviços e sistemas. Uma mudança em suas vendas no país pode influenciar decisões sobre preços, promoções e produção.
No primeiro semestre de 2026, o mercado chinês movimentou aproximadamente 134 milhões de aparelhos, queda anual de 4,2%. A IDC avalia que a pressão de custos deverá aumentar quando terminarem os estoques de componentes comprados anteriormente por preços mais baixos.
Mantidas as condições atuais, a retração anual do mercado chinês pode chegar a cerca de 20% no segundo semestre de 2026, segundo a consultoria. A perspectiva para 2027 também permanece pressionada, porque os preços de armazenamento não devem apresentar uma correção expressiva.
A IDC considera, porém, que parte dos consumidores está apenas adiando a troca de aparelho. Esse movimento pode formar uma demanda represada e sustentar um novo ciclo de substituição entre 2028 e 2029.
Outro ponto de atenção é o desenvolvimento do chamado celular com agente de IA, aparelho capaz de executar tarefas com maior autonomia a partir de comandos do usuário. Para a consultoria, a adoção depende da integração entre quatro elementos: equipamento, sistema operacional, ecossistema de aplicativos e grandes modelos de inteligência artificial.
A China é importante nessa disputa porque reúne fabricantes de aparelhos, desenvolvedores de sistemas, plataformas digitais e empresas de IA. Caso esses participantes consigam integrar suas tecnologias, o mercado chinês pode antecipar o formato da próxima geração de celulares, ou expor os obstáculos que ainda impedem a inteligência artificial de se tornar um motivo concreto para a troca de aparelho.
Os números da IDC são preliminares, arredondados e podem ser revisados.
