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InvestMercados
27/07/2026
6 min

Mercado de capitais movimenta cifra histórica de R$ 362 bi no 1° semestre

Mercado de capitais movimenta cifra histórica de R$ 362 bi no 1° semestre

O mercado de capitais brasileiro registrou um volume recorde de R$ 361,8 bilhões em ofertas no 1° semestre de 2026. De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), trata-se do maior valor da série histórica da iniciada em 2012. Os dados dos primeiro seis meses foram divulgados nesta segunda-feira, 27.

De acordo com a entidade, a renda fixa permaneceu como a principal fonte de financiamento das empresas, somando R$ 288,8 bilhões. Mas o avanço é atribuído ao desempenho de outros instrumentos, como fundos imobiliários (FIIs), Fundos de Investimento em Cadeias Agroindústrias (Fiagros) e ofertas de renda variável, que compensaram adesaceleração observada nas emissões de debêntures.

Os instrumentos híbridos, que englobam os FIIs e Fiagros, movimentaram R$ 47,8 bilhões, enquanto a renda variável respondeu por R$ 25,2 bilhões, volume que já supera todo o registrado em 2025, quando as ofertas somaram R$ 15,5 bilhões.

Para a Anbima, o recorde reflete um mercado mais "maduro", que foi capaz de substituir instrumentos que perderam força por alternativas mais adequadas ao cenário econômico.

"Apesar da renda fixa ainda permanecer como principal fonte de financiamento, vemos a evolução e o amadurecimento do mercado. A composição dos instrumentos muda de forma bastante importante para se adequar ao cenário que a gente viveu, um pouco mais restrito em relação ao crédito, mas ao mesmo tempo bastante favorável aos híbridos", afirmou Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima.

Na avaliação de Maranhão, os principais destaques do semestre foram justamente os FIIs, Fiagros e as emissões internacionais, que alcançaram quase US$ 25 bilhões, o maior volume desde 2014.

A titulo de comparação, nos primeiros seis meses do ano passado, as operações com títulos híbridos R$ 21,5 bilhões. Esse crescimento dos FIIs e Fiagros foi impulsionado principalmente por pessoas físicas, que subscreveram R$ 20,7 bilhões (43,4% do total), e pelos fundos de investimento, com R$ 18,9 bilhões (39,6% do total).

"A parte mais interessante é que essa pequena queda foi mais do que compensada por outros instrumentos, mostrando essa resiliência e essa diversificação que o mercado de capitais brasileiro vem desenvolvendo. Mesmo com um mercado de crédito mais desafiador, o mercado de capitais voltou a bater recorde", disse Cesar Mindof, diretor da Anbima, durante a coletiva de divulgação dos dados.

Redução no volume de debêntures

Mesmo permanecendo como principal fonte de financiamento das empresas, a renda fixa apresentou uma acomodação após dois anos de volumes excepcionalmente elevados. As emissões de debêntures totalizaram R$ 169,8 bilhões, abaixo dos R$ 193,1 bilhões registrados no primeiro semestre de 2025.

Segundo Maranhão, a redução reflete principalmente um ambiente de crédito mais cauteloso, marcado porreestruturações de dívidas e aumento dos spreads.

"A gente passou por um momento de acomodação. Tivemos alguns casos de reestruturações creditícias e isso naturalmente levou a um ajuste de spreads. Muitas companhias preferiram esperar condições melhores para acessar o mercado, enquanto empresas menores continuaram emitindo operações de menor volume", afirmou.

Ao mesmo tempo, instrumentos voltados a empresas de menor porte ganharam espaço. As notas comerciais movimentaram R$ 27,1 bilhões, com aumento expressivo para 123 operações, enquanto a CPR-F (Cédula de Produto Rural Financeira) estreou como destaque ao captar R$ 11 bilhões em dez operações.

Na avaliação de Maranhão, a CPR-F amplia as alternativas definanciamento do agronegócio. "Ela passa a ser um instrumento importante para trazer mais empresas do agro ao mercado de capitais e reduzir a dependência exclusiva do crédito bancário".

FIIs e Fiagros registraram o maior volume da série histórica

A principal novidade do semestre foi o avanço dos instrumentos híbridos. FIIs e Fiagros registraram o maior volume da série histórica para um primeiro semestre, impulsionados tanto pelo interesse dos investidores quanto pelas características desses veículos.

O presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima avalia que, além da maturidade desses produtos, o cenário favoreceu esse tipo de captação.

"São instrumentos que permitem uma captação faseada ao longo do tempo. Você não precisa entrar no mercado e captar todo o volume de uma vez só. Isso facilitou as emissões e aproveitou oportunidades no mercado imobiliário, como aquisição de ativos, compra de papéis e refinanciamentos."

Mindof acrescentou que, no caso dos Fiagros, o crescimento também reflete a busca do agronegócio por fontes alternativas de financiamento em um momento de crédito mais restrito."O setor passa por um momento mais desafiador do ponto de vista de crédito e cenário macroeconômico. O Fiagro tem se mostrado uma alternativa importante para reduzir a concentração do crédito bancário".

Renda variável movimentou R$ 25,2 bi

Depois de praticamente três anos sem novas ofertas iniciais, o mercado de ações voltou a registrar IPOs. No primeiro semestre, a renda variável movimentou R$ 25,2 bilhões, sendo R$ 3 bilhões em ofertas iniciais e R$ 22,2 bilhões em follow-ons.

Para Maranhão, embora a janela para IPOs ainda seja bastante seletiva, osfollow-ons continuam encontrando demanda. "O custo de oportunidade diminuiu e tivemos um IPO neste ano, mostrando que existe uma janela aberta. Ainda há uma concentração grande nos follow-ons, mas eles continuam bastante fortes."

Ainda assim, o diretor da Anbima observa que a perspectiva dequeda gradual dos juros tende a favorecer novas operações de renda variável nos próximos trimestres. "Os juros continuam exercendo um papel muito importante nessa decisão entre renda fixa, híbridos e ações. Se esse cenário de redução das taxas se confirmar de forma mais consistente, devemos ver uma retomada mais firme dos IPOs no médio prazo".

Além do desempenho das emissões, a Anbima destacou o fortalecimento do mercado secundário de debêntures. O volume negociado cresceu 20,6% no semestre, chegando a R$ 494,6 bilhões, sendo R$ 275,8 bilhões em debêntures corporativas e R$ 218,8 bilhões em debêntures incentivadas.

Segundo os executivos, o desempenho foi um dos principais sinais de amadurecimento do mercado brasileiro.

"O mercado secundário permaneceu funcional durante todo o período mais desafiador para o crédito. Em nenhum momento ele fechou. Pelo contrário, foi ele que deu sustentação para que os investidores pudessem reposicionar suas carteiras", afirmou Mindof.

Na avaliação da entidade, a liquidez do mercado secundário é um fator essencial para manter o mercado primário ativo, pois aumenta a segurança dos investidores para assumir novas posições mesmo em momentos de maior volatilidade.

Emissões internacionais de renda fixa batem recorde

As emissões internacionais de renda fixa somaram US$ 24,8 bilhões, o maior volume desde 2014. Desse total, US$ 14,6 bilhões foram emissões soberanas, US$ 7,7 bilhões de empresas e US$ 2,5 bilhões de instituições financeiras.

Segundo Maranhão, parte desse resultado foi impulsionada pelo maior uso do mercado internacional pelo Tesouro Nacional, mas as emissões externas também seguiram funcionando como alternativa para empresas em um cenário de crédito doméstico mais seletivo.

Ao fazer um balanço do semestre, os representantes da Anbima afirmaram que o principal aprendizado foi a capacidade do mercado brasileiro de continuar funcionando mesmo diante de um ambiente mais desafiador. "Esse primeiro semestre foi um teste importante. A gente viu um mercado que permaneceu funcional, forte e ativo, tanto no mercado primário quanto principalmente no secundário. Isso mostra o quanto o nosso mercado amadureceu e segue resiliente", concluiu Mindof.

AutorClara Assunção
FonteExame
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