Mercado esperava mais corte de juros. Ganhou um reajuste do Bolsa Família
Reajuste de 15,04% eleva a percepção de risco fiscal e pode pressionar inflação e expectativas, mas analistas divergem sobre o impacto na trajetória da Selic

Um dia depois de o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduzir a taxa básica de juros, a Selic, para 13,75% ao ano e manter aberta a possibilidade de novos cortes, o governo federal anunciou nesta quinta-feira, 17, um reajuste de 15,04% no Bolsa Família. Já no próximo mês, o benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio subirá de R$ 675 para R$ 777.
A medida terá impacto estimado de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de cerca de R$ 22 bilhões em 2027.
Para parte dos agentes do mercado financeiro consultados pela EXAME, o reajuste, sozinho, não é suficiente para interromper o ciclo de queda dos juros. Mas o problema está no efeito combinado sobre a demanda, as expectativas de inflação e a percepção sobre as contas públicas e, principalmente, o momento em que o anúncio foi feito.A reação dos mercados apareceu ainda pela manhã. O Ibovespa, que iniciou o pregão em alta, virou para queda e chegou a recuar mais de 1%, enquanto dólar e juros futuros avançaram. O movimento ocorreu apesar da alta das bolsas em Nova York, reforçando, na avaliação dos analistas, o peso do anúncio doméstico sobre os ativos brasileiros.
No início da tarde, porém, o índice recuperou as perdas e passou a subir, apoiado principalmente pelo avanço das ações da Vale (VALE3).
De acordo com Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos, a virada da bolsa teve como gatilho o anúncio do reajuste. "A bolsa subia, até que o anúncio saiu e poucos minutos depois o Ibovespa chegou a cair 1,1%, uma virada de cerca de 2,5 mil pontos, ao mesmo tempo em que o dólar virou para alta", afirma.
Segundo o especialista, o mercado passou a incorporar principalmente o risco fiscal associado à medida e ao momento em que ela foi anunciada. O reajuste começa a valer na folha de outubro, o mês da eleição.
"O que o mercado está precificando principalmente é o risco fiscal, em um contexto de eleição e de maior atenção ao chamado trade eleitoral. O governo, por sua vez, afirma que o aumento cabe dentro das regras fiscais. Por enquanto, portanto, o mercado está incorporando um prêmio adicional de risco diante da possibilidade de que a medida altere a trajetória esperada para a Selic", disse Trotta.
O benefício atende atualmente cerca de 19,3 milhões de famílias. O governo afirma que o reajuste recompõe a inflação acumulada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) desde 2023 e que a medida tem amparo na legislação. Ogoverno também diz que o impacto será acomodado no Orçamento sem alterar a trajetória das metas fiscais.
Ajuste do Bolsa Familia impede que o BC faça novos cortes?
Mas o ponto central para a política monetária, porém, é outro. Os especialistas apontam que quanto maior o estímulo à demanda em um momento em que a inflação ainda está acima da meta, menor tende a ser a margem para o Banco Central acelerar ou prolongar os cortes de juros.
"Reduz um pouco, mas sozinho não fecha a porta", afirma o sócio da Valor Investimentos, ao avaliar o efeito do reajuste sobre novos cortes da taxa de juros. Para Trotta, os R$ 22 bilhões previstos para 2027 representam cerca de 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB) e, isoladamente, não seriam suficientes para alterar a trajetória da dívida.O problema, segundo o analista, é que o dinheiro será transferido para a economia justamente no período que está no horizonte das decisões atuais do Copom. "Esse dinheiro entra na economia justamente em 2027, que é o período que o Banco Central tem em vista nas decisões agora e vai direto para o consumo", afirma.
Esse efeito ocorre porque o BC não avalia apenas o custo fiscal de uma medida, mas seus possíveis impactos sobre a inflação. Trotta aponta dois canais, cujo primeiro é a demanda, com o dinheiro recebido pelas famílias tende a ser destinado ao consumo, o que pode aumentar a pressão sobre os preços. O segundo, que ele considera mais relevante, é o das expectativas.
"Se o mercado passa a acreditar que o gasto vai continuar subindo, ainda mais em ano eleitoral, dólar, juros longos sobem e a expectativa de inflação se afasta da meta", afirma Trotta. "O dólar mais caro encarece tudo, não só a comida".
Na avaliação do especialista em investimentos, foi justamente esse mecanismo que apareceu nos mercados nesta quinta-feira. "Hoje deu para ver isso na prática: o dólar virou para alta, juros longos subiram e o Tesouro chegou a sair do ar. Então, para o Banco Central, os R$ 22 bilhões pesam menos pelo valor e mais pelo sinal que passam".
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, também destaca o efeito sobre a demanda. Segundo Perri, o reajuste de 15% "não é pouca coisa" e terá impacto sobre o consumo.
Mas, assim como Trotta, Perri chama atenção principalmente para o momento do anúncio. "O segundo grande ponto é o timing. O pagamento do Bolsa Família é feito nos últimos 10 dias do mês, e isso, numa grande coincidência, vai acontecer nos mesmos dias em que acontece o segundo turno das eleições".
Na avaliação do economista, a medida também tem impacto sobre a percepção fiscal. "Sem dúvidas, temos um impacto fiscal. O governo vai ter que ajustar o orçamento para o ano que vem. E isso já mexe com os mercados".
Temor é que o reajuste pressione a inflação e as contas públicas
A área de Research da GTF Capital faz uma distinção entre o tamanho do gasto e o sinal transmitido pela decisão. A análise também destaca que os R$ 22 bilhões equivalem a cerca de 0,15% do PIB, mas o ponto de atenção está no fato de que se trata de uma despesa permanente anunciada depois do envio do projeto de Orçamento de 2027.
A Lei Orçamentária Anual (LOA) enviada em agosto previa R$ 157,1 bilhões para o programa, sem a correção. Com o reajuste, o valor estimado passa para cerca de R$ 179 bilhões, segundo as informações fornecidas pelo Ministério da Fazenda. Como o limite de gastos do arcabouço não muda, a análise da GTF aponta que a acomodação do aumento terá de ocorrer dentro das demais despesas.
"Essa notícia [de reajuste do Bolsa Família] é negativa para a visão de que a Selic poderia continuar em queda. Hoje o mercado ele está dividido aentre um fim dos cortes, agora depois desse último Copom, e a continuidade de cortes que podem ir, por exemplo, até 13% esse ano. E o reajuste do Bolsa Família é inflacionário", diz Artur Horta, head de análise da GTF Capital.
"É uma medida que é inflacionária no momento em que os juros já estão pressionados, a inflação segue acima do teto da meta. Então isso vai sim limitar em alguma medida cortes [de juros futuros] que eventualmente poderiam surgir", acrescenta.
Os agentes financeiros também apontam que se os investidores exigirem um prêmio maior para financiar o governo no longo prazo, os juros futuros podem subir mesmo que a Selic continue sendo reduzida pelo Copom. E juros futuros mais altos significam condições financeiras mais apertadas para a economia, o que pode afetar inclusive a bolsa brasileira.
Juros mais altos por mais tempo pressionam empresas e ações
Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, destaca que "quando temos uma expectativa de juros mais altos por mais tempo, a bolsa tende a sofrer mais porque o custo de capital aumenta e a renda fixa fica relativamente mais atrativa", explica.Os setores mais sensíveis costumam ser aqueles que dependem mais de crédito, já que ele fica mais caro, ou aqueles que têm resultados esperados dentro de um horizonte mais longo, como varejo, consumo, construção e empresas mais endividadas.
"Para os bancos, o efeito acaba sendo mais complexo, porque juros mais altos podem beneficiar algumas linhas de receitas, mas também pode aumentar o custo de crédito e de inadimplência. O ponto central é que a curva de juros mais alta reduz o espaço para o crescimento e aumenta o custo de financiamento das empresas", afirma a economista.
O head de renda variável da Fami Capital, Gustavo Bertotti, também vê impacto maior sobre as empresas cíclicas. "A nossa bolsa está muito sensível a juros", afirma. Na visão do especialista, o ambiente já era demaior cautela entre investidores estrangeiros em relação ao Brasil, em razão da discussão fiscal e do cenário eleitoral.
"Muitas empresas que vinham reportando números pouco mais sólidos, começaram a passar bastante preocupação, revisão de guidance e de Capex, então eu diria que essa medida [de reajuste do Bolsa Família] impacta muito, sim, o resultado. E claro que isso também muda a percepção do estrangeiro em relação ao Brasil. As contas públicas são monitoradas e elas veem de um cenário muito ruim", diz o head de renda variável da Fami Capital.
Os agentes também ressaltam, contudo, que aatualização dos valores do Bolsa Família tem base legal e não depende de uma nova autorização do Congresso. A própria análise da GTF Capital destaca que a Lei 14.601 de 2023 permite ao Executivo alterar, por decreto, os valores dos benefícios, dentro das condições previstas na legislação.Para o Banco Central, o caminho daqui para frente dependerá de como os diferentes efeitos da medida aparecerão nos dados.
"O que precisa acontecer para o reajuste não atrapalhar os cortes?" Para Trotta, da Valor Investimentos, há três condições: o governo detalhar como o gasto será acomodado no Orçamento; as expectativas de inflação para 2027 e 2028 não piorarem; e a inflação corrente continuar desacelerando junto com a atividade econômica.
"O governo precisa mostrar com números onde esse gasto cabe", afirma. "Agora o mercado quer detalhe. Qual despesa vai ser cortada e se as metas fiscais de 2026 e 2027 continuam de pé".
