Mercado Livre Farma não substitui compra na farmácia física, avaliam bancos
Para BTG, XP e Safra novidade acirra disputa por cliente digital

O anúncio do Mercado Livre de que passará a vender medicamentos com receita médica colocou a companhia no radar das grandes redes de farmácias brasileiras. Mas, para analistas de mercado, a entrada do maior marketplace da América Latina no setor não deve representar uma substituição das lojas físicas — ao menos no curto prazo.
Relatórios da XP, Safra e BTG Pactual convergem em uma avaliação: o principal impacto da estratégia será uma disputa pelo relacionamento digital com o consumidor, e não uma ameaça imediata à infraestrutura física das redes farmacêuticas.
O Mercado Livre começa agora uma nova fase da operação de saúde, com venda de medicamentos sob prescrição, incluindo antibióticos e medicamentos da classe GLP-1, utilizados em tratamentos relacionados à obesidade e diabetes.
A companhia também pretende integrar redes tradicionais ao seu marketplace. A meta é chegar a 20 farmácias parceiras até o fim de 2026, com as primeiras integrações previstas para outubro na região metropolitana de São Paulo.
Para a XP, o movimento é positivo para o Mercado Livre porque abre uma nova fonte de receita em uma categoria de alta frequência de compra, mas representa um risco que precisa ser acompanhado pelas farmácias. Segundo os analistas, o setor tem mais de R$ 200 bilhões em mercado potencial e ainda é fragmentado, o que abre espaço para novos canais de distribuição.
O risco maior é perder o cliente digital, não a loja física
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) avalia que o avanço do comércio eletrônico em farmácias tem mostrado mais uma migração de canais do que uma desintermediação completa.
A tese do banco é que as redes tradicionais mais fortes têm usado suas lojas físicas como parte de uma estratégia omnichannel, transformando unidades em pontos de estoque, retirada e atendimento. No Brasil, essa vantagem aparece principalmente na escala das grandes redes.
A RD Saúde por exemplo, registrou R$ 3,9 bilhões em vendas digitais no segundo trimestre de 2026, equivalente a 31% da receita de varejo, segundo o BTG. Cerca de 83% desse volume veio do aplicativo próprio da companhia.
Além disso, aproximadamente 96% dos pedidos digitais da RD são entregues ou retirados em até 60 minutos, impulsionados por uma rede de cerca de 3.700 lojas.
Para o BTG, o principal risco para as farmácias não é o desaparecimento das lojas, mas uma possível perda da relação direta com o consumidor.
Caso o Mercado Livre se torne o principal ponto de busca e compra de medicamentos, as redes poderiam perder parte do tráfego digital e depender mais de plataformas externas.
O Safra tem uma leitura semelhante. Para o banco, o anúncio era esperado e está alinhado com uma tendência de marketplaces funcionando como canais adicionais de aquisição de clientes.
A avaliação é que o Mercado Livre deve operar principalmente pelo modelo 3P, no qual farmácias parceiras continuam responsáveis pela venda e dispensação dos produtos, enquanto a plataforma oferece tecnologia, tráfego e logística. Nesse cenário, as grandes redes podem até se beneficiar da entrada do marketplace, ao ampliar seu alcance digital.
O banco destaca que as empresas acompanhadas já possuem operações digitais relevantes. Nas companhias analisadas pelo Safra, as vendas online representam entre 24% e 34% da receita, sustentadas por aplicativos próprios, redes de lojas e capacidade de entrega rápida.
A visão é que o marketplace pode acelerar a disputa contra farmácias independentes, que têm menos escala para investir em tecnologia, estoque e logística.
Um dos principais diferenciais anunciados pelo Mercado Livre é a entrega rápida. A companhia lançou o serviço “Chega Agora”, que permite entregas em até uma hora para produtos de até 15 quilos em regiões selecionadas de São Paulo. A iniciativa atende diferentes categorias, mas foi associada pela empresa à expansão em saúde.
Para o consumidor, a disputa passa a envolver não apenas preço, mas conveniência: encontrar o medicamento, enviar a receita, obter validação farmacêutica e receber o produto rapidamente.
A XP avalia que essa estrutura exigirá investimentos iniciais, incluindo frota própria de entregadores, equipe de farmacêuticos e estoque da operação própria.
Por isso, os analistas ponderam que o impacto sobre margens do Mercado Livre ainda é difícil de estimar.
O que aconteceu em outros países
A experiência internacional também reduz a expectativa de uma ruptura imediata.
Nos Estados Unidos, a entrada da Amazon Pharmacy aumentou a competição digital, mas não eliminou a força das redes tradicionais. A CVS manteve sua liderança e operava cerca de 9 mil lojas físicas integradas ao aplicativo, segundo o BTG.
Na Alemanha, o comércio online avançou principalmente em medicamentos sem prescrição. Em 2024, os canais digitais responderam por 22,7% das vendas de medicamentos OTC. Já nos medicamentos sob prescrição, as farmácias físicas mantiveram 98,6% dos gastos do sistema público de saúde.
O México aparece como um caso mais próximo do Brasil porque o Mercado Livre já atua com medicamentos na plataforma. Mesmo assim, grandes redes continuam dominantes pela combinação de lojas físicas, estoque e exigências regulatórias.
