Mercado Livre, iFood e as farmácias: quem vai ganhar a disputa pelos remédios online?
Revogação de restrições abre caminho para marketplaces como Mercado Livre, iFood e Rappi avançarem no setor farmacêutico, mas regras ainda dependem de regulamentação

A venda de medicamentos por plataformas digitais ganhou um novo capítulo no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)revogou medidas que impediam empresas como Mercado Livre, iFood, Rappi e Americanas de comercializar, distribuir ou fazer publicidade de medicamentos em seus ambientes digitais.
As decisões foram publicadas no Diário Oficial da União (DOU) desta segunda-feira, 10, e consideram a entrada em vigor da Lei nº 15.357, de março de 2026, que passou a permitir que farmácias e drogarias regularmente licenciadas contratem plataformas digitais e canais de comércio eletrônico para logística e entrega de medicamentos.
A mudança, porém, ainda não significa uma liberação completa do mercado. A aplicação da nova regra depende de uma regulamentação específica da própria Anvisa, que definirá como essas operações poderão funcionar.
No caso do iFood e do Rappi, a agência revogou as proibições de comercialização, distribuição e propaganda de medicamentos. Para Mercado Livre e Americanas, foram retiradas as restrições relacionadas à comercialização e publicidade desses produtos.
O movimento abre espaço para uma disputa maior no varejo farmacêutico, um mercado que tem atraído empresas digitais pela combinação de alta recorrência de consumo, conveniência e potencial de integração com outros serviços.
Meli já preparava entrada no setor
Antes mesmo da mudança regulatória, o Mercado Livre já vinha preparando sua entrada no mercado farmacêutico. Em 2025, a companhia adquiriu uma farmácia na zona sul de São Paulo, que pertencia à Memed, empresa especializada em prescrição digital.
A aquisição permitiu que a empresa testasse a venda de medicamentos dentro das regras existentes. Em março de 2026, o Mercado Livre iniciou um projeto piloto em São Paulo, oferecendo inicialmente medicamentos sem prescrição, como analgésicos, antitérmicos, antiácidos e vitaminas.
A operação prometia entregas em até três horas, dependendo da região, com monitoramento de todo o trajeto para garantir validade, procedência e condições sanitárias dos produtos. A plataforma também passou a oferecer um canal para que consumidores tirassem dúvidas com farmacêuticos.
Na época, Fernando Yunes, vice-presidente executivo de Commerce do Mercado Livre, afirmou que o plano era ampliar esse modelo e permitir que diferentes farmácias vendessem seus produtos dentro da plataforma.
A compra da farmácia, na prática, foi uma forma de o Mercado Livre operar no formato 1P (first party), em que a própria empresa é responsável pela venda e pelo estoque dos medicamentos. A estratégia de longo prazo, porém, era avançar para o modelo 3P (third party), no qual a plataforma funciona como um marketplace, conectando consumidores a farmácias parceiras que realizam as vendas.
A mudança regulatória da Anvisa e a nova legislação abriram espaço para esse modelo, que pode ampliar a participação de plataformas digitais na distribuição de medicamentos no Brasil.
"A medida privilegia a livre concorrência e representa um avanço para a modernização do setor de saúde e para a democratização do acesso a medicamentos no Brasil. A companhia atua hoje na venda de medicamentos com uma operação piloto de venda direta em São Paulo. Implementar o modelo de venda indireta de marketplace de farmácias é um avanço significativo para ampliar o acesso a medicamentos para consumidores em todo o país, incluindo regiões com menor cobertura de estabelecimentos físicos", explicou o Mercado Livre em nota.
O poder do iFood
Para analistas do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), o iFood aparece como uma das plataformas mais bem posicionadas para capturar essa oportunidade, principalmente pela escala de usuários, pela frequência de uso do aplicativo e pela infraestrutura já consolidada de entregas rápidas.
A empresa já vem ampliando sua atuação no segmento farmacêutico por meio de parcerias com farmácias, oferecendo integração de estoques, acesso à rede logística e ferramentas de divulgação dentro da plataforma. Atualmente, o iFood informa contar com mais de 400 mil entregadores parceiros e possui modelos comerciais que variam conforme a operação: a comissão é de 6% quando a entrega é feita pelo próprio estabelecimento e de 12% quando o serviço de entrega é realizado pelo iFood.
Além da logística, a plataforma também desenvolve soluções específicas para o setor, como descontos via programas de benefício em medicamentos (PBM, na sigla em inglês) e integração com programas de fidelidade, como o Dermaclub.
A principal vantagem competitiva do iFood está menos no conhecimento farmacêutico ou na variedade de produtos e mais na capacidade de conectar consumidores a farmácias com rapidez e conveniência. A plataforma já possui uma base de usuários acostumada a realizar compras digitais de entrega rápida, o que pode favorecer categorias de consumo mais imediato, como medicamentos sem prescrição e produtos de higiene, beleza e cuidados pessoais.
Por outro lado, a disputa pelo relacionamento completo com o consumidor de farmácia ainda envolve outros fatores, como profundidade de estoque, serviços farmacêuticos e capacidade de atendimento — áreas em que as redes tradicionais mantêm vantagens estruturais.
O que muda para o mercado?
Lucas Esteves, head de Varejo do Santander Brasil, a exigência da participação de uma farmácia licenciada e de um farmacêutico na venda de medicamentos era o que diferenciava o Brasil de mercados como o México. Por lá, a Novo Nordisk abriu uma loja oficial no Mercado Livre para vender medicamentos diretamente aos consumidores.
Em conversa com a EXAME pouco antes da revogação da Anvisa, Esteves afirmou ainda que uma eventual regulamentação permitindo a venda por marketplaces deve manter exigências de controle de qualidade, estoque e acompanhamento profissional. Para ele, mesmo que a venda em marketplaces fosse autorizada, o impacto pode ser menor do que o mercado teme.
“Eu acho que isso vai ser mais um canal de venda para Raia, Pague Menos e Panvel. Não necessariamente vai criar uma nova competição”, disse.
O argumento é queredes tradicionais possuem vantagens em logística e capilaridade. Medicamentos, especialmente aqueles de necessidade imediata, dependem de entrega rápida. “O consumidor não quer um medicamento amanhã, ele quer agora. Uma farmácia consegue entregar em uma hora. Um marketplace pode entregar em três, quatro ou cinco horas dependendo da região”, diz.
Em relatório, o BTG Pactual vê o anúncio principalmente como a remoção de uma incerteza regulatória sobre o modelo de intermediação por plataformas, em vez de uma mudança fundamental em quem tem permissão para dispensar medicamentos
"Continuamos acreditando que a vantagem competitiva das grandes redes tradicionais — especialmente empresas como a Raia Drogasil — vai muito além da proximidade física das lojas", disseram os analistas no relatório.
O sucesso do comércio eletrônico farmacêutico depende da combinação entre tráfego qualificado, profundidade de sortimento, disponibilidade de estoque e nível de serviço, áreas em que as grandes redes omnichannel possuem vantagens estruturais relevantes. Uma rede ampla de lojas funciona simultaneamente como infraestrutura de aquisição de clientes, estoque distribuído e rede de centros de distribuição próximos ao consumidor, permitindo que as empresas combinem uma oferta ampla de produtos com rapidez de entrega.
