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InvestMercadosACS
07/11/2026
7 min

'Mercado pesou a mão', diz Lacerda, da BR Partners, sobre tombo pós-reeleição de Lula

Executivo vê frustração com derrota de Flávio por trás da queda e cobra plano fiscal de Lula

'Mercado pesou a mão', diz Lacerda, da BR Partners, sobre tombo pós-reeleição de Lula
O que aconteceu?
  • Ricardo Lacerda, fundador e CEO da BR Partners, avalia que o mercado "pesou a mão" na reação à reeleição de Lula, que levou a Bolsa à pior semana pós-eleição em 37 anos.
  • Para o banqueiro, o tombo reflete a frustração com a expectativa de que Flávio Bolsonaro traria uma solução rápida para o fiscal. Ele espera estabilização se o novo ministro da Fazenda apresentar um plano crível.
  • Com juros de 15% a 16% na curva por tempo indefinido, ele vê mais empresas no radar de reestruturação e fusões e aquisições em compasso de espera.

O mercado financeiro exagerou na reação à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação é de Ricardo Lacerda, sócio-fundador e CEO do BR Partners (BRBI11), banco de investimento independente. "Eu acho que o mercado pesou a mão", disse. O executivo participou esta manhã de um painel do MBA Brasil, evento organizado pela ONG de mesmo nome em Chicago, nos Estados Unidos.

Na segunda-feira seguinte ao segundo turno, 26 de outubro, o Ibovespa despencou 13,88%, a maior queda diária em seis anos, e o dólar subiu 8,21%. Em quatro pregões, a perda chegou a cerca de 17,5%, e a Bolsa caminhou para a pior primeira semana pós-eleição presidencial desde 1989. Lula venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 51,75% dos votos válidos.

Para Lacerda, o tamanho da queda tem mais a ver com expectativas frustradas do que com uma mudança de fundamentos.

"O mercado criou uma grande expectativa na eleição do Flávio Bolsonaro, mas, acima de tudo, de que o Flávio Bolsonaro ia ter uma solução mágica para os problemas e que o presidente Lula não vai endereçar esses problemas", afirmou.

O executivo reconhece que a Bolsa teria vivido um momento mais otimista com a vitória da oposição, mas repetiu que "os problemas são os mesmos, as soluções são as mesmas, o que tem que ser feito é a mesma coisa".

Também lembrou que o candidato derrotado tinha suas fragilidades, evidenciadas, segundo ele, por eventos do pós-eleição. "O mercado tem que entender também, vamos combinar, não é que nós deixamos de eleger o Winston Churchill como presidente do Brasil."

"Nunca tinha visto algo tão profundo", diz Lacerda

Lacerda afirmou que nunca havia presenciado uma reação tão intensa do mercado a uma eleição. Ele lembrou que, em 2022, a Bolsa subiu no primeiro pregão após a vitória de Lula, porque os investidores esperavam pragmatismo no terceiro mandato.

"Esse pragmatismo não veio. A gente viu o Lula muito mais ideológico, muito mais rancoroso, com uma preocupação baixa pela questão fiscal. Não foi um bom terceiro mandato. Eu mesmo fui extremamente crítico em algumas entrevistas que eu dei", disse.

Para o quarto mandato, o banqueiro se diz esperançoso. Ele avalia que Lula se aproximou mais das ruas e das redes sociais durante a campanha e renovou as pessoas ao seu redor, o que poderia dar ao presidente mais sensibilidade para tratar das contas públicas.

"Não é uma questão da Faria Lima, não é uma questão do PIB. É uma questão da população como um todo, das pessoas poderem ter acesso a juros razoáveis", afirmou.

Segundo ele, inflação e juros altos pesam mais sobre as classes mais necessitadas do que sobre as empresas ou o próprio governo.

O que Lacerda espera do próximo ministro da Fazenda

O CEO da BR Partners prevê um 2027 desafiador, com a entrada em vigor da reforma tributária e o que chamou de "ressaca de eleição", marcada por aumento de gastos. Ainda assim, diz ser otimista.

Segundo ele, se o governo escolher um bom nome para a Fazenda e se comprometer com uma política fiscal mais racional, o mercado pode antecipar o movimento e os investimentos podem ser retomados mais rapidamente.

O perfil de ministro que ele defende combina compromisso com o orçamento, transparência e diálogo com um Congresso que deve ser "um pouco mais hostil", sem abrir mão das promessas de campanha.

"Ninguém está querendo tirar o Bolsa Família ou ninguém está querendo reduzir os benefícios para as classes mais necessitadas. Mas, quando a gente toma esse tipo de decisão, a gente tem que saber como bancar essa decisão", afirmou.

Lacerda não espera uma virada imediata nas contas. "A gente não vai conseguir equilibrar as contas públicas e ter um superávit primário que reverta a trajetória da dívida no primeiro ano, mas vai ser no segundo, vai ser no terceiro. O importante é ter um plano de voo que seja cumprido."

Lacerda defendeu as instituições do país e citou as urnas eletrônicas como "uma das poucas coisas no Brasil que realmente é à prova de bala".

Para ele, a direita sai fortalecida, com a votação expressiva de Flávio, a maioria no Senado e na Câmara e a eleição de vários governadores. "Eleição tem a cada quatro anos. Então, perdeu essa, tenta ganhar a próxima. É do jogo."

Juros altos por mais tempo ampliam fila de reestruturações

Com a pausa nos cortes da Selic, mantida em 13,75% ao ano pelo Copom na semana passada, Lacerda avalia que a retomada da queda dos juros depende do plano fiscal do novo governo.

Esse cenário coloca sob holofote as empresas mais endividadas, com dívida acima de três a quatro vezes a geração de caixa ou com montante nominal de dívida muito elevado. Para Lacerda, o problema maior é a duração dos juros de 15% a 16% que os mercados futuros projetam.

"Se a gente tiver isso por um horizonte indefinido, você acaba colocando muito mais empresas dentro do radar de possíveis reestruturações", afirmou. Isso inclui companhias que já renegociaram dívidas e terão de fazê-lo de novo, a chamada "reestruturação da reestruturação", além de novos candidatos na fila.

Nas fusões e aquisições, o efeito é o oposto. Segundo Lacerda, o mercado precisa de juros mais baixos para retomar a conversão das negociações em operações fechadas, e parte das transações está em compasso de espera.

A BR Partners tem hoje a maior carteira de potenciais operações de M&A de sua história, mas tem tido dificuldade para levar os negócios até a assinatura. Ainda assim, o executivo descarta um longo inverno para as ofertas de ações.

"Eu não acho que nós estamos fadados a não ter IPOs, operações de equity, pelos próximos quatro anos."

IOF sobre títulos isentos seria "contrassenso", diz CEO

No mercado de dívida, Lacerda acredita que as emissões vão continuar, com custos ajustados à nova realidade.

"Por mais que você tenha o Tesouro tomando dinheiro a 15%, 16%, se você tem uma boa empresa que vai tomar 16,5%, 17%, 18%, vai ter sempre demanda por esse tipo de produto", afirmou.

Sobre a possibilidade de o governo cobrar IOF de títulos hoje isentos, como LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas, Lacerda vê pouco espaço no Congresso para aumento de impostos, mas reconhece que o decreto é uma prerrogativa do Executivo.

Nesse caso, diz, o custo de captação subiria para setores sensíveis, como agronegócio e construção civil. "Eu vejo isso como um contrassenso. Acho errado, mas também, se fizer, vai ser do jogo. O mercado vai se ajustar e vai ter um custo um pouco mais alto."

Polarização generalizada

O executivo vê a polarização mexendo com os preços também fora do país, visto a repercussão da vitória democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

"Eu não acredito, sinceramente, que tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos o simples fato de você ter uma eleição com um lado mais predominante deveria fazer tanto preço", disse.

"Vamos deixar agora o presidente Lula fazer o trabalho dele, vamos torcer para que dê certo, porque no fundo somos todos brasileiros e queremos o sucesso do país."

*A reportagem viajou para Chicago a convite da MBA Brasil

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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