Mercado sobe aposta de alta nos juros do Fed já em julho

O mercado de títulos dos Estados Unidos chega a esta terça-feira, 14, mais desconfiado em relação ao rumo dos juros do que estava há poucos dias, com a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) de junho e o depoimento do novo presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, no Congresso.
O efeito já aparece nos preços dos títulos públicos estadunidenses, os Treasuries. As taxas desses papéis subiram o suficiente neste mês para zerar todo o ganho acumulado ao longo do ano. Por trás desse movimento, há a expectativa de que o Fed pode voltar a subir os juros já na reunião deste mês, no dia 29.
A chance embutida de uma alta de 0,25 ponto percentual ainda este mês era quase nula há poucas semanas, quando ficava perto de 10%, e hoje já é vista como uma possibilidade real, próxima de 50%.
O CPI de junho, que sai às 9h30 (horário de Brasília), é o primeiro teste do dia, segundo informações da Bloomberg. A mediana das previsões aponta para a primeira desaceleração da inflação desde janeiro, tanto na leitura cheia quanto na que exclui alimentos e energia, chamada de núcleo.
Expectativa de que Fed subirá juros aumenta
E a virada nas apostas se acelerou depois que o governador do Fed, Christopher Waller, um dos membros mais "dovish" (brandos) do colegiado, disse que uma alta de juros "no curto prazo" deveria ser considerada caso os dados de inflação mostrem "mais uma leitura quente" nos preços de núcleo.
Na Columbia Threadneedle, o gestor Ed Al-Hussainy também passou a ver a alta como mais provável, mesmo considerando que o índice de inflação acompanhado pelo Fed rodava um pouco abaixo do CPI em maio, em 4,1%.
"Vamos precisar de um pouco de sorte para fazer os números voltarem gradualmente para 2%", disse à Bloomberg. Para ele, o mercado ainda subestima o quanto o Fed pode apertar.
As curvas de juros já embutem uma alta até o fim do ano e outra até meados de 2027, e Al-Hussainy aposta que o banco central vai desfazer as três reduções de 0,25 ponto percentual feitas nos últimos quatro meses de 2025.
Warsh depõe ao Congresso nesta semana
Kevin Warsh, que assumiu o comando do Fed em maio, depõe ao Congresso nesta terça e quarta-feira, 15, sobre o relatório semestral de política monetária, ocasião em que, para os analistas, ele deve evitar sinalizações explícitas sobre os próximos passos dos juros.
O chefe de estratégia de juros dos EUA no BMO Capital Markets, Ian Lyngen, pontuou que o mercado tem os olhos voltados para a reunião do Federal Open Market Committee (Fomc), no dia 29, como a data mais provável para a primeira alta sob o comando do novo presidente.
Ele espera que a convicção em um aumento ainda este mês diminua depois do CPI e do depoimento desta semana, mas pondera que a resistência de Warsh a dar pistas antecipadas deve limitar essa queda, de acordo com a Bloomberg.
Mesmo que os dados de inflação venham fracos, avaliou Lyngen, o mercado deve seguir precificando alguma chance de alta em julho, e o Fed pode surpreender ao subir os juros ainda que esse cenário não esteja totalmente refletido nos preços atuais.
O que o mercado espera do CPI de junho
Boa parte dos investidores esperam que os preços tenham subido menos em junho do que em maio, quando a alta anual foi de 4,2%. A projeção é de uma taxa mensal negativa em 0,1%, o que levaria o índice anual para 3,8%.
Já o núcleo, considerado pelo Fed o retrato mais confiável da inflação, deve subir 0,2% no mês e fechar em 2,8% em 12 meses, ligeiramente abaixo dos 2,9% de maio. Mas a cautela do mercado não diminuiu.
O rendimento da T-Note de dois anos segue acima de 4,25%, patamar que já supera a taxa básica de juros em vigor por uma margem cada vez maior, sinal de que o mercado embute prêmio para um Fed mais duro.
