Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Economia
23/06/2026
3 min

Mercado vê ciclo de cortes limitado em meio à inflação persistente e risco fiscal

Mercado vê ciclo de cortes limitado em meio à inflação persistente e risco fiscal

A ata do Copom divulgada nesta terça-feira (23) reforçou a leitura para alguns economistas de que o Banco Central (BC) cortou a Selic, mas ainda não mudou de fato o tom da sua comunicação. A redução de 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, veio acompanhada de um discurso cauteloso, com preocupação persistente com inflação, expectativas desancoradas e dúvidas sobre os próximos passos.

Na visão de Caio Megale, economista-chefe da XP, o documento combina um diagnóstico mais duro com uma condução mais suave da política monetária. De um lado, o Copom reconhece deterioração do cenário inflacionário e inclui a leitura de “assimetria altista” para os riscos de preços. De outro, opta por uma trajetória de juros menos volátil, ainda que isso implique uma convergência da inflação apenas no horizonte de 2028.

Esse desenho, segundo Megale, sugere que o Banco Central pode pausar o ciclo já em agosto, embora ainda exista espaço para um último corte. “As portas não estão fechadas para um corte adicional, já que a ata ainda diz que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário”, afirma.

Na mesma linha de cautela, a Magno Investimentos destaca que o corte não veio acompanhado de uma mudança de postura do Banco Central. Para a CEO Olívia Flôres de Brás, o Copom segue descrevendo um ambiente de inflação pressionada, expectativas fora da meta e riscos fiscais relevantes, sem indicar maior conforto com a trajetória dos preços.

Ela chama atenção especialmente para a reincidência do tema fiscal na comunicação. “O documento volta a mencionar que o enfraquecimento da disciplina das contas públicas, a expansão do crédito direcionado e as dúvidas sobre a trajetória da dívida podem elevar o juro estrutural da economia. O Banco Central não controla o fiscal, mas sabe que acaba pagando a conta dele”, afirma.

Já a Genial Investimentos vê um problema diferente: a falta de clareza na comunicação do Comitê. Segundo o economista-sênior Gabriel Pestana, a ata mistura sinais em direções opostas. Ao mesmo tempo em que reconhece riscos inflacionários prolongados e desancoragem até 2028, o Copom também demonstra preocupação em evitar uma desaceleração excessiva da economia e em suavizar o ciclo.

Essa combinação, na avaliação da casa, abre espaço técnico para mais um corte de 25 pontos-base, mas o cenário-base segue indicando interrupção do ciclo em agosto.

No Itaú BBA, a leitura é mais conservadora. O banco enxerga predominância dos riscos inflacionários altistas e maior preocupação com uma possível aceleração da atividade econômica. Também chama atenção para mudanças sutis na linguagem da ata, como a retirada da expressão “neste momento” e a retomada da referência ao choque do petróleo, elementos que reforçariam um tom ligeiramente mais duro.

Na avaliação da instituição, o corte recente teve caráter mais preventivo do que estrutural, funcionando como forma de reduzir volatilidade e não como início de um ciclo consistente de afrouxamento. A projeção do Itaú BBA segue inalterada em Selic de 13,75% ao fim de 2026.

O que esperar da próxima reunião

As projeções das casas convergem em um cenário de transição e incerteza sobre a continuidade do ciclo de cortes. A XP vê espaço para mais uma redução de 0,25 ponto percentual antes de uma possível pausa em agosto.

A Genial também trabalha com a possibilidade de mais um corte de 0,25 p.p, mas mantém como cenário-base a interrupção do ciclo já na reunião de agosto, diante da persistência da desancoragem das expectativas de inflação.

O Itaú BBA, por sua vez, não projeta novos movimentos relevantes no curto prazo e mantém a Selic em 13,75% ao fim de 2026.

AutorJuliana Caveiro
FonteMoney Times
Distribuído por