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InvestMercados
17/10/2026
8 min

Mercado vê eleição mais acirrada e debate entre Lula e Flávio como 'decisivo'

Pesquisas reduziram a vantagem atribuída ao candidato do PL e levaram investidores a rever parte do rali pós-primeiro turno

Mercado vê eleição mais acirrada e debate entre Lula e Flávio como 'decisivo'
RESUMO +

O mercado financeiro ainda vê o senador Flávio Bolsonaro (PL) como favorito nas eleições presidenciais de 2026, mas a vantagem menor sobre Lula (PT) elevou a cautela com ativos brasileiros. Investidores esperam que o debate da emissora Band no domingo, 18, altere as expectativas antes da última semana eleitoral.

O mercado financeiro ainda vê o senador Flávio Bolsonaro (PL) como favorito na disputa pela presidência da República, mas está menos confiante na vitória do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro após o avanço do atual chefe do Executivo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nas últimas pesquisas de intenção de voto. O estreitamento da diferença entre os candidatos levou investidores a rever parte das apostas feitas após o primeiro turno e aumentou a cautela com os ativos brasileiros.

Agora, odebate entre os presidenciáveis na Band neste domingo, 18, é visto pelos investidores como um dos principais eventos capazes de alterar as expectativas para o resultado da eleição.

Na quinta-feira, 15,o Ibovespa fechou em queda pela terceira sessão consecutiva, com recuo de 1,06%, aos 204.324 pontos. O dólar comercial avançou 1,17%, para R$ 5,087, descolado do movimento externo, em que a moeda americana perdeu força. A reação ocorreu após a divulgação de pesquisas que apontaram uma disputa mais apertada.

A pesquisa Quaest divulgada na véspera, 14, mostrou Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto, contra 44% de Lula. O resultado reforçou a percepção de que a vantagem do candidato do PL diminuiu em relação às expectativas formadas logo após o primeiro turno, quando a reação dos mercados foi marcada pela perspectiva de alternância de poder.

Para Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, a mudança no cenário eleitoral é relevante, embora Flávio continue sendo o favorito na avaliação dos investidores. Segundo o gestor, plataformas de previsão chegaram a atribuir ao senador probabilidades de vitória de 91% a 92%, patamar que recuou para 77%, enquanto Lula passou a registrar 23%.

“Continua como favorito, sem dúvida. Mas é um favoritismo muito diferente do que tinhamos lá na segunda-feira, 5 de outubro”, afirma Utsch.

O gestor avalia que a revisão das expectativas eleitorais já aparece nos preços dos ativos, sobretudo nas ações mais sensíveis à economia doméstica. Depois da forte valorização registrada na semana seguinte ao primeiro turno, esses papéis passaram a devolver parte dos ganhos à medida que diminuiu a confiança em uma vitória de Flávio.

Em sua avaliação, a eleição ganhou peso determinante para os negócios. “Hoje, eu diria que 90% da volatilidade do mercado brasileiro de renda variável vem do cenário eleitoral”, diz. Para o especialista, essa influência deve continuar até o segundo turno e permanecer relevante nas semanas seguintes, quando os investidores começarão a avaliar as escolhas de ministros e as políticas que cada candidato pretende implementar caso vença.

Mercado devolve parte do rali eleitoral

Roberto Motta, estrategista macro da Genial Investimentos, também identifica uma mudança importante na percepção dos investidores, de que a diferença esperada entre os candidatos diminuiu. Se antes o mercado trabalhava com uma vantagem de quatro a cinco pontos para Flávio, agora considera uma disputa com diferença de um a dois pontos.

“Por enquanto, acho que o mercado ainda acredita que é muito difícil o Lula conseguir reverter. Mas, sem dúvida nenhuma, a questão ficou muito mais apertada”, afirma Motta.

Segundo o estrategista, o estreitamento da disputa ajuda a explicar a realização observada na bolsa e a alta dos juros de longo prazo. A percepção de que Flávio venceria com maior margem havia impulsionado os ativos brasileiros, mas as pesquisas mais recentes diminuíram a convicção dos investidores.

Motta afirma que os preços ainda indicam preferência do mercado pela possibilidade de alternância de poder. Uma mudança mais profunda nessa percepção, segundo o especialista, poderia levar o Ibovespa a devolver quase toda a alta registrada após o primeiro turno e o dólar a voltar para a faixa de R$ 5,20 a R$ 5,25.

Já Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos, vê o movimento recente como uma correção das expectativas que haviam se ajustado rapidamente após o resultado eleitoral de 4 de outubro. Naquele pregão,o Ibovespa avançou 7,70%, enquanto o dólar caiu 4,12%, diante da reação dos investidores à vantagem de Flávio no primeiro turno.

Desde então, porém, as novas pesquisas reduziram a sensação de que a eleição já estava decidida.

“O que mudou foi o grau de convicção, não a direção. Na prática, o investidor passou a tratar a vitória do Flávio quase como certa, e as pesquisas desta semana tiraram essa sensação de jogo resolvido”, afirma Trotta.

Para o sócio da Valor Investimentos, adisputa continua favorável ao candidato do PL, mas a diminuição da diferença altera a relação entre risco e retorno dos ativos. Como parte da expectativa de vitória de Flávio já foi incorporada aos preços, notícias que favoreçam Lula podem provocar reações negativas mais intensas do que as altas geradas por sinais favoráveis ao adversário.

“Não é uma mudança de tese, é uma correção de excesso”, diz Trotta. “Nessa reta final, a bolsa cai mais rápido com a notícia ruim do que sobe com notícia boa.”

Apesar da correção recente, o especialista pondera que o mercado ainda não entrou em um cenário de pânico. O Ibovespa acumulava alta próxima de 10% em outubro e de 27% no ano, enquanto o dólar ainda registrava queda de cerca de 7% em 2026.

No pregão desta sexta, 16, por exemplo, o Ibovespa registrava ligeira alta de 0,46%, acima dos 205 mil pontos.

Debate pode mexer com as probabilidades

Com a diferença entre os candidatos menor, o debate presidencial de domingo passou a ocupar posição central no radar dos investidores. A expectativa é que o desempenho de Lula e Flávio influencie a percepção sobre a capacidade de cada campanha de conquistar votos na reta final, com possíveis reflexos nos mercados já na segunda-feira, 19, a última semana eleitoral.

Para Motta, o confronto pode ser decisivo justamente porque a eleição ficou mais apertada. “Qualquer escorregada do Flávio no debate ou uma escorregada do Lula, um momento Biden da vida, pode ser fator crucial para o Flávio voltar a abrir vantagem, ou o Lula fechar essa vantagem, ou quem sabe até virar”, afirma.

A referência é a um desempenho negativo em debate que provoque uma mudança de percepção sobre um dos candidatos. Com a disputa mais equilibrada, um erro ou uma atuação considerada superior pode ganhar relevância na avaliação dos eleitores e dos investidores.

Trotta, por sua vez, avalia que o debate pode produzir efeitos nos preços, mas pondera que uma mudança expressiva nas expectativas dependerá também da confirmação dos movimentos pelas pesquisas eleitorais. Como há poucosindecisos, segundo sua avaliação, não seria necessário um deslocamento amplo de votos para alterar o equilíbrio da disputa.

“O piso [do impacto] é maior que o normal porque a disputa está muito apertada e quase não tem indecisos”, diz. “Nesse cenário, o debate não precisa virar votos em massa. Basta mexer um pouquinho, um ou dois pontos, aumentar a rejeição de um dos lados”.

O especialista espera que os investidores acompanhem especialmente as sinalizações econômicas dos candidatos. No caso de Flávio, a atenção estará voltada a eventuais detalhes sobre um plano de corte de gastos e à indicação de quem poderia ocupar o Ministério da Fazenda. Já em relação a Lula, o mercado observará se o presidente apresenta sinais de compromisso com a responsabilidade fiscal ou reforça promessas de aumento de despesas.

Utsch também avalia que o mercado tentará medir a repercussão do debate a partir do engajamento nas redes sociais. Para o gestor, a quantidade de visualizações, cortes e interações geradas por cada candidato poderá ajudar os investidores a avaliar qual campanha conseguiu mobilizar mais apoiadores.

Ele observa que o engajamento de políticos e de grupos ligados à esquerda cresceu depois daderrota de Lula no primeiro turno. Por isso, o desempenho digital das campanhas após o confronto poderá ser um indicador adicional para o mercado.

Na avaliação de Utsch, o cenário mais favorável para Flávio seria evitar uma exposição que trouxesse riscos à sua vantagem. Ainda assim, a ausência do candidato do debate poderia dar a Lula a oportunidade de ocupar sozinho o espaço de exposição na televisão.

Fim da escala 6x1 entra na conta

Além das pesquisas, a aprovação pelo Senado da proposta que prevê o fim da escala 6x1 e sua sanção nesta sexta também entrou na avaliação dos investidores. A medida reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial.

Para os analistas, a proposta pode representar um ganho político para Lula na reta final da campanha, embora também levante preocupações sobre os custos das empresas e os efeitos sobre a produtividade.

“É uma pauta que emplaca muito mais na esquerda do que na direita. Uma bandeira do Lula, ele está falando disso o tempo todo, gera engajamento”, afirma Utsch.

Motta também considera que a proposta pode ajudar Lula, mas ressalta que o tema já estava presente no debate público havia alguns meses. “Não é uma grande novidade para o eleitor do Lula, mas, sem dúvida nenhuma, vai ajudar”, afirma.

AutorClara Assunção
FonteExame
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